MÚSICA
FAMILIA
21 de Março 2021

Quando comecei a pensar no tema deste mês, apercebi-me que, por estranho que pareça, são poucas as músicas que me vêm à cabeça cujo tema principal seja família. Há muito poucos exemplos de músicas cujo foco principal seja a família, e, quando isto acontece tendem a ser focadas em relações conflituosas ou em fazer família ligando-se assim ao amor e não simplesmente à família. Exemplos de que lembrei foram a música Kyoto do último álbum de Phoebe Bridgers, em que a artista fala da sua relação com o pai, ou a música Family Tree de Frankie Chavez, sobre o desejo de construir família. Há de certeza mais exemplos, mas no geral parece ser um daqueles casos em que o que está mais próximo acaba por estar mais longe.
Dado isto, em vez de falar de família na música, decidi falar de um álbum que se não fosse pelo meu pai nunca teria tido a oportunidade de experienciar. O álbum de que decidi falar hoje é o disco de estreia da banda Trovante editado em 1981: Baile no Bosque. Não consigo contar as vezes que ouvi este álbum durante a minha vida, mas o mais interessante é que a grande maioria das vezes não o ouvi até ao final. Nos tempos pré-internet a cassete (sim, cassete) que eu tinha era uma cópia pirata do vinil original, o problema é que esta cassete não tinha duração suficiente para conter o álbum inteiro e por isso durante muito tempo pensei que o disco acabada na música Bichos, quando afinal ainda tinha mais uma faixa.
Lembro-me de ouvir este álbum incontáveis vezes quando era novo, e ainda hoje é dos meus álbuns favoritos de sempre. O cocktail de música popular portuguesa, jazz e rock progressivo que os Trovante nos trazem neste projeto é ao mesmo tempo único e inovador. É olhar para o futuro com uma memória forte do passado, que é um sentimento que imagino que fosse generalizado na sociedade portuguesa da altura. É sem dúvida para mim um dos melhores projetos a sair da música progressiva portuguesa, e cuja visão influenciou sem dúvida artistas futuros.
O álbum começa com a faixa Balada das Sete Saias. Esta música começa simplesmente com piano e voz, e vai progredindo de forma lenta, mas constante com a adição de percussão, baixo, guitarras e coros ondulantes. A faixa acaba de forma acelerada, com um baixo entusiasmante que guia a guitarra, as vozes e o saxofone até ao final da música. Como é uma constante durante todo este disco, as letras fazem lembrar as músicas tradicionais com versos que voltam a um mote fácil de memorizar, neste caso à Menina das Sete Saias, e que exploram crenças populares de faunos e bruxas, também muito comuns no rock progressivo.
Genérico é uma canção de amor que tem uma mistura estranha de influências que me é difícil de definir. Ao mesmo tempo que a guitarra portuguesa faz-me lembrar o fado, a percussão faz-me lembrar uma marcha militar. Os versos da letra são mais uma vez muito próximos da música tradicional voltando sempre ao verso: Dentro destes olhos espero a madrugada.
Passagem por Sevilha é uma faixa quase completamente instrumental, mas em que a voz é usada como mais um instrumento. À medida que a faixa avança, cada elemento da banda tem o seu momento de protagonismo, fazendo lembrar a estrutura do jazz, mas com uma carácter muito menos improvisacional.
A faixa seguinte Companha é um dos meus momentos favoritos do álbum e que consegue sempre arrancar-me um sorriso de cada vez que a ouço. É uma música sobre os receios que os pescadores têm quando saem para o mar, o medo de uma tempestade, o medo de não thaver peixe, mas que termina com sucesso. Como que a completar isto, os coros ondulantes fazem lembrar a oscilação do barco. Mas o instrumental é sem dúvida a melhor parte, a forma como a voz, o baixo e a flauta convivem harmoniosamente e se complementam é uma delícia para os ouvidos.
Lisboa é como o nome indica uma canção sobre Lisboa, em que a letra é tirada do poema “Lisboa” de Eugénio de Andrade. Começa com uma primeira parte recatada com acordeão e guitarras que vão dando espaço à flauta, e progride para uma passagem instrumental liderada pelo saxofone, que nos leva até ao final.
A canção Prima da Chula é uma chula na sua raiz, tanto na percussão como na instrumentação. É dos momentos do álbum que são mais apegados à música tradicional. Esta ideia é reforçada pela letra vinda de Quadras Populares e de António Aleixo, com a quadra genial:
A rica tem nome fino,
A pobre tem nome grosso
A rica teve um menino
A pobre pariu um moço.
Atados e simples começa com guitarra e um baixo muito pronunciado. Apesar de a letra ser apenas uma quadra de Maria Rosa Colaço, vai ganhando novas dimensões e significados à medida que o instrumental progride. No início da música parece um lamento envergonhado, mas no fim parece ser já um grito de orgulho.
Pescaria é mais uma vez uma música inspirada no mar. Com uma composição muito característica do rock progressivo, em que as passagens de voz se intercalam com passagens instrumentais que fazem a letra ganhar novas dimensões com cada verso. A faixa termina com uma passagem instrumental que mostra mais uma vez as influências do jazz.
Na faixa seguinte temos novamente uma letra de Maria Rosa Colaço. A música fala-nos dos rapazes que vinham da outra margem para ir para a escola. É uma música sobre esperança e ao mesmo tempo sobre inocência. Com uma composição mais simples, mas que fica no ouvido é uma faixa mais próxima dos Trovante dos próximos discos.
Em Bichos vemos mais uma vez as fortes influências da música popular. A letra é como uma ladainha que vai descrevendo os animais que chegam ao baile (no Bosque). O instrumental aqui desenvolve-se fluidamente com constantes contracantos da voz com a flauta ou o acordeão.
O disco acaba com a faixa Final que funciona como os créditos no final do filme. Um instrumental agradável para finalizar o álbum de forma suave.
Este é um dos meus álbuns favoritos e que marcou o começo de uma das bandas que mais influenciou a música progressiva portuguesa. Foi sem dúvida também um dos discos que mais influenciou o meu gosto musical e que continuo a admirar ainda hoje e muito provavelmente para o futuro.
2020 EM REVISTA
31 DE JANEIRO 2021

2020 foi no mínimo um ano atípico para toda a gente. A indústria musical não foi exceção. Com tours adiadas até meados de 2021, artistas viram uma grande porção das suas receitas ser cortada. Isto foi um golpe duro para os artistas independentes cuja pequena receita vinha principalmente de concertos e venda de merchandising, muitas vezes no próprio concerto. Apesar destas dificuldades, 2020 acabou por ser um ano bastante bom em termos musicais e devo admitir que houve muita coisa que me escapou e que só agora estou a descobrir. Com a ausência de grandes lançamentos houve um florescimento da música mais independente para preencher esse espaço.
Sem dúvida que concertos são a coisa de que mais tenho saudades dos tempos pré-COVID. Há sempre uma dorzinha de cada vez que vejo um concerto ser adiado. Mas a verdade é que não sei se é sequer possível a música ao vivo regressar no mesmo formato que antes. Com a capacidade das salas reduzida, principalmente com a eliminação de plateias em pé, muitas bandas não vão conseguir vender bilhetes suficientes para ser lucrativo uma deslocação ao estrangeiro. Salas de espetáculo mais pequenas não vão conseguir lucrar o suficiente para se manterem ativas e uma importante parte de muita música undergroud está em risco de ser perdida.
Apesar disto tudo, muitos artistas acabaram por lançar os projetos que tinham planeados de qualquer maneira. E quando olho para 2020 devo dizer que há mesmo muita música que vale a pena destacar. Por isso, foi isso mesmo que decidi fazer este mês. Acho que é melhor fazer isso do que passar demasiado tempo a pensar em como as coisas provavelmente não vão voltar ao normal. Sendo assim, vou falar de alguns dos álbuns que mais ouvi durante esta pandemia e, apesar de tudo, celebrar as coisas boas que houve durante o ano.
Dino D’Santiago - Kriola
Este foi sem dúvida o álbum português que mais ouvi durante o ano de 2020. Combinando uma produção contemporânea de R&B e hip-hop com ritmos tradicionais do funaná e morna, Kriola é o exemplo perfeito de como o tradicional se pode tornar moderno. Mostrando um cruzamento orgânico entre o passado e o futuro, este projeto tem raízes fortes em Cabo Verde, mas mantém um olhar fixo num futuro multicultural. Com uma produção impecável e os vocais extremamente expressivos de D'Santiago, o álbum é uma viagem que passa por bangers como Kriolu e Sofia, momentos sentimentais como My Lover, hinos como Morna entre tantos outros. Podia dizer muito mais sobre este álbum, mas digo só que o tempo voa do início ao fim e no final só tenho vontade de começar tudo de novo.
Haken - Virus
Os mestres do metal progresivo voltaram com um novo álbum: Virus. Um título não intencional, mas que não podia ser mais adequado a 2020. Este é sem dúvida o projeto mais pesado que a banda apresentou até hoje, mas que continua a navegar a linha entre o rock e o metal progressivos que sempre caracterizaram a sua música. As faixas mostram um equilíbrio delicado entre complexidade e catchiness, nunca sacrificando uma pela outra. Tudo isto resulta num álbum que, apesar de não ser o meu favorito da banda, merece destaque no panorama da música progressiva atual e que só me deixa entusiasmado para ver o que vem a seguir.
clipping. - Visions of Bodies Being Burned
Visions of Bodies Being Burned é o projeto mais recente dos mestres do hip-hop experimental. Apesar de este trabalho ser uma continuação do conceito do seu álbum anterior: There Existed An Addiction Blood, este é um projecto que funciona como uma peça isolada e mostra que a banda ainda tem muito a dizer. Durante o álbum todo há uma atmosfera extremamente cinemática. Os flows camaleónicos de Daveed Diggs contam histórias assustadoras de uma forma extremamente descritiva e gráfica, criando uma atmosfera de filme de terror. Esta atmosfera é intensificada pelos instrumentais minimalistas, industriais e abrasivos, mas muito intencionais. Este projeto é sem dúvida uma viagem inesquecível, desde a cacofonia de Eaten Alive, até ao groove de Check The Lock e passando pela magnífica intragabilidade de Make Them Dead vai sem dúvida deixar uma marca em qualquer um que o ouça.
Spanish Love Songs - Brave Faces everyone
Foi neste ano que conheci a banda Spanish Love Songs e este foi também o primeiro projeto que ouvi deles. E, no entanto, de alguma forma este álbum tornou-se o meu companheiro nos momentos mais melancólicos de 2020. É um disco extremamente triste, contando-nos histórias que lidam com temas de depressão e suicidio, mas nas quais qualquer um se pode rever. Faz-nos, de certa forma, sentir menos sozinhos num mundo em que toda a gente usa uma máscara de felicidade. E num ano em que parece que a vida parece ter andado para trás este álbum lembra-me que toda a gente tem maus momentos.
Arca - KiCk i
O último projeto de Arca foi o álbum de música eletrónica que mais ouvi durante 2020. Este é um álbum sem dúvida estranho, aglomerando influências de art-pop, glitch-hop e música eletrónica latina. Aqui Arca mostra a sua mestria na produção, Quer seja a construir faixas grandiosas com paisagens sonoras meticulosas e deslumbrantes, como nas faixas Calor e Afterwards. Quer seja a fazer um banger latino como na faixa KLK com Rosalía. Este é um projeto único com um cruzamento ímpar, mas muito intencional, de influências. Com faixas memoráveis, que só me deixam entusiasmado pelo próximo KiCk ii.
The Weeknd - After Hours
Sem dúvida o que foi o melhor álbum pop do ano. Um projeto que traz o synthpop e synthwave para o olhar do público pop. Um álbum carregado de músicas que ficam no ouvido e que, ao mesmo tempo, se ligam entre si por uma visão artística global. Coisa que é raro ver numa indústria em que o foco está cada vez mais no single. Com uma atmosfera sombria, é um álbum cheio de faixas memoráveis como Blinding Lights, Faith, After Hours entre tantas outras. Era sem dúvida merecedor de pelo menos uma nomeação para os Grammys.
2020 foi um ano estranho, e isso acabou por se refletir também na música que ouvi. Foi um ano em que explorei diferentes géneros musicais e encontrei novos artistas que não teria descoberto num ano normal. De um modo geral 2020 foi bastante bom em termos de música, e esperemos que 2021 seja se não melhor pelo menos igual. E se for possível que os concertos que têm vindo a ser adiados se realizem, porque já estou cá com umas saudades...
GRANDES ESTREIAS
1 DE DEZEMBRO 2020

Em qualquer coisa na vida é raro acertar à primeira. A primeira coisa que pensamos é muitas vezes a errada, para provar isso não é preciso ir para além das dez vezes que já reescrevi esta frase. O leitor dirá que isso é porque eu não sei escrever e estará certo, mas isso não quer dizer que para escrever um bom texto não seja preciso experiência e dedicação.
Isto é verdade também na música. Os primeiros projetos de um artista tendem a ser menos concisos e mais imaturos. No entanto, há casos de artistas extraordinários que conseguem fazer tudo bem à primeira. Este foi o caso do primeiro projecto da banda The Mars Volta (TMV) com o seu primeiro álbum De-Loused In The Comatorium.
TMV são uma banda americana formada por Cedric Bixler-Zavala e Omar Rodriguez-Lopez na sequência da separação da sua banda anterior At The Drive-In (ATDI). No entanto, os The Mars Volta têm um ADN bastante diferente. Enquanto que ATDI era uma banda fundamentalmente de post-hardcore, TMV é muito mais um projecto de rock, com influências de rock progressivo, rock psicodélico, e space rock, mesmo sendo ainda visíveis influências do post-hardcore.

O seu primeiro álbum abriu caminho para uma carreira de excelência que colocou TMV entre os grandes mestres do rock progressivo moderno. Aqui mostram que é possível fazer um concept album sem sacrificar a música. Apesar das faixas serem relativamente longas, elas são extremamente dinâmicas alternando passagens energéticas e catchy com passagens mais atmosféricas com um caráter improvisacional, mas igualmente interessantes. Tudo isto encapsulado num conceito cativante que dá algo novo a cada audição.
O álbum desenvolve-se à volta de um conto escrito por Cedric Zavala na sequência da morte do seu amigo Julio Venegas por overdose de heroína. Este conto é uma narrativa surreal que segue Cerpin Taxt pelos seus sonhos enquanto está num coma causado por uma overdose. Cada música retrata um ponto específico desta história e como tal, encontra-se de tal forma intercalado com o álbum que é impossível eu não fazer spoilers aqui. Fica aqui o leitor avisado.
O álbum começa com a queda de Cerpin Taxt no seu coma na primeira faixa Son et Lumiére. Esta faixa é uma progressão instrumental que prepara o ouvinte para os instrumentais frenéticos e etéreos que se seguem. Esta faixa transita diretamente para o refrão de Inertiatic ESP, em que se repete Now I’m Lost assinalando o momento em que Taxt se apercebe que o seu vício foi longe demais. Aqui é descrito o início das alucinações de Cerpin Taxt, através de um instrumental frenético liderado pela percussão de inspiração latina que transita para passagens completamente vindas do rock psicadélico.
Estas influências são exploradas ainda mais fundo na faixa seguinte Roulette Dares (The Haunt Of). Aqui há uma constante mudança de tempo na música em que passagens energéticas contrastam com passagens mais psicadélicas, que nos mostram o protagonista a mergulhar cada vez mais fundo no seu sonho. Com performances incríveis e instrumentais dinâmicos, esta é uma faixa que mostra mais uma razão pela qual TMV merecem estar entre os maiores do rock progressivo.
A música Tira Me a Las Arañas é um interlúdio psicadélico que começa com guitarras dissonantes e abre caminho para a faixa Drunkship Of Lanterns. Nesta faixa TMV mostram as suas influências latinas com uma bateria acompanhada de maracas, congas e um baixo em staccatto. Juntamente com guitarras etéreas criam um ambiente tenso que descreve Cerpin Taxt a ser perseguido no seu sonho por criaturas a que dá o nome de Tremulants. Estes instrumentos são interrompidos por mudanças de compasso nas quais se desenvolvem instrumentais abstratos, que mostram inspiração do jazz de fusão e mesmo de música avant-garde.
Eriatarka é uma faixa que começa com menos energia mostrando o nosso protagonista adormecido depois de ter sido capturado. Nesta faixa é descrita a transformação que o seu corpo sofre pelas mãos de Dr Wolfram Tarant na sua cave. O instrumental começa calmo, ganhando ritmo à medida que Taxt se revolta com o que lhe aconteceu, até finalizar numa passagem atmosférica que transita para a faixa seguinte.
Na música seguinte, o nosso protagonista é então transportado na sua nova forma para um deserto e ele apercebe-se da sua nova condição gritando “I’ve defected”. Esta faixa tem a passagem ambiental mais longa do álbum em que as paisagens sonoras parecem representar a solidão que Taxt sente andando pelo deserto nesta sua nova forma. A faixa termina com mais uma passagem frenética que parece retratar a nova perseguição que Taxt (agora na forma de Clavietika Tresojos) sofre, e que culmina na sua destruição.
A faixa This Apparatus Must Be Unearthed marca ao fim o coma de Cerpin. Na parte final do seu sonho o corpo de Clavietika Tresojos (a nova forma de Cerpin) é transportado para uma nova cidade. Aqui Cerpin volta à vida sobre a forma de Moatilliatta para vingar a morte de dois gémeos inocentes. A faixa termina com uma parede de som que marca a transição de Cerpin de novo para a realidade.
A faixa Televators é talvez a faixa mais triste do álbum. Aqui é descrito o suicidio de Cerpin Taxt depois de sair do seu coma. Com guitarras uivantes às quais se junta uma guitarra acústica melancólica, esta música é um lamento da morte de Cerpin e ao mesmo tempo uma explicação dos seus motivos. Cerpin, não se sentindo mais dono do seu corpo tenta salvar a sua dignidade suicidando-se (Pull the pins, save your grace / Mark these words on his grave).
A última faixa Take The Veil Cerpin Taxt mostra que a morte pode ser apenas uma ponto de viragem para Cerpin. Com uma extensa passagem improvisacional que mostra a qualidade dos músicos neste projecto e que parece representar a transição de Cerpin para uma vida depois da morte. Esta vida materializa-se no último verso em que Cerpin se questiona Who Brought Me Here?.
Este é um álbum magnífico e cada vez que o ouço continuo a encontrar novos significados tanto nas letras como nos instrumentais. Os arranjos detalhados pintam o quadro perfeito para aquilo que acontece na história criando um dos melhores álbuns do rock dos anos 2000 e quem sabe do século. Uma grande estreia dos grandes mestres do rock moderno.
GRANDES MESTRES
16 DE OUTUBRO 2020

Quando se pensa em grandes mestres no campo musical é difícil não pensar imediatamente nos grandes compositores do clássico e do barroco. Esse pensamento parece derivar do estereótipo generalizado de que a música clássica é de alguma forma intelectualmente superior a outras expressões musicais. Mas se pensarmos um pouco no assunto isto é um pouco infundado. É elitista pensar que uma forma de expressão artística é superior a outra. A arte serve para transmitir sentimentos a quem a experiência e se há uma imensidade de sentimentos que podem ser sentidos, é apenas lógico que haja uma quantidade também vasta de expressões artísticas que podem ser construídas. Foi nesta onda de pensamento que decidi falar de um dos grandes vultos da música popular dos anos 80: o guitarrista Mark Knopfler.
Mark Knopfler foi o vocalista, guitarrista principal bem como compositor da maioria das músicas da banda Dire Straits. Os Dire Straits foram uma das maiores bandas dos anos 80, tendo chegado aos 100 milhões de discos vendidos. Formada em 1977 em Londres, a banda viria a editar discos que marcaram não só a história do rock como a música em geral. Apesar de terem tido um começo um pouco atribulado, com a sua primeira tentativa de fazer um contrato discográfico falhada, o seu primeiro álbum intitulado Dire Straits acabaria por lhes arrecadar sucesso internacional chegando ao topo dos charts tanto na Europa como do outro lado do Atlântico.
Neste disco é já visível a razão pela qual Mark é um dos guitarristas mais únicos do mundo. O seu tom de guitarra inconfundível e a forma como complementa a sua voz com passagens de guitarra é uma marca que se mantém até aos dias de hoje e faz com que seja difícil ouvir uma música sua sem reconhecer imediatamente a sua mão. Um exemplo disto é a faixa Sultains Of Swing. A guitarra nesta música mostra o quão lírico o estilo de Mark é. Durante toda a faixa a guitarra quase parece mais uma voz, que responde à voz de Mark como que respondendo a perguntas que não foram feitas. Para além do seu estilo único, Mark mostra-nos também o seu talento em composição, com músicas memoráveis como Southbound Again e Down To The Waterline.
Dois anos após o seu primeiro sucesso, editaram aquele que é o meu álbum favorito intitulado Making Movies. Apesar de a banda ter apenas três membros durante esta altura, o instrumental mais simples acaba por condizer com e realçar os momentos românticos de músicas como Romeo And Juliet e Tunnel Of Love. É neste álbum que Mark Knopfler realmente mostra os seus dotes de composição. Um disco em que a voz rouca de Mark se alia aos seus dotes de composição para criar o álbum mais coeso que a banda editou até então. Um álbum em que cada música nos faz lembrar de um filme e em que juntas criam algo muito maior que a soma das suas partes.
Mas o seu maior sucesso comercial só aconteceria em 1985 com o álbum Brothers in Arms. Este disco tornou-se o primeiro a vender um milhão de cópias em formato CD, tornando-se um favorito dos fãs. Este álbum contém o single Money For Nothing que com riffs memoráveis e bateria pujante se tornou num marco da música dos anos 80. Neste álbum há um uso mais proeminente de sintetizadores em relação ao que tinha sido feito anteriormente, que dá à banda uma instrumentação mais detalhada, que brilha por exemplo na faixa The Latest Trick em que o saxofone de Michael Brecker brilha e complementa perfeitamente a voz de Mark. O álbum finaliza com a faixa Brothers In Arms, em que os sintetizadores se aliam à guitarra para criar uma atmosfera etérea que condiz perfeitamente com os temas explorados na letra.
Apesar do enorme sucesso comercial que a banda teve, acabou por chegar ao seu fim em 1995. A partir deste ano Mark passou a dedicar-se à sua carreira a solo e continua a fazer digressões e a lançar álbuns novos. Um excelente exemplo disso é o seu álbum Sailing to Philadelphia lançado em 2000. Este disco mostra um Mark Knopfler mais maduro e mais apegado ao folk do que ao rock que o popularizou. Apesar de haver um foco ainda grande na guitarra há um foco maior na composição, resultando em músicas inesquecíveis como What It Is. Esta é uma música extremamente atmosférica em que a voz quase cansada de Mark se mistura com a guitarra enevoada e doce criando uma atmosfera nostálgica que complementa perfeitamente a letra.
Muito mais poderia ser dito sobre Mark Knopfler, quer sobre a sua carreira a solo quer sobre o tempo com os Dire Straits, muito mais do que eu tenho tempo e espaço para escrever e vocês paciência para ler. Mas é inegável que ele é um dos grandes mestres da guitarra com um estilo e destreza únicos, que continuam a ser inconfundíveis nas músicas que ele edita hoje como eram há 40 anos. Os seus talentos de composição deixaram-nos músicas marcantes que ficarão para sempre na história do rock. Isto faz de Mark sem dúvida um dos grandes mestres não só da guitarra como do rock em geral.
TECNOLOGIA
21 DE JULHO 2020

São incontáveis as formas em que a música foi afetada pela tecnologia. Tecnologia é necessária para a construção de qualquer tipo de instrumento musical, desde os tambores primitivos até aos sintetizadores. São muitos os casos em que avanços tecnológicos permitiram o acesso a novos timbres e expressões musicais, que acabaram a definir estilos musicais e marcar décadas. Foi o caso do mellotron no prog-rock dos anos 70, do famoso sintetizador DX7 que definiu o som do anos 80, e mais recentemente o autotune que, desde meados da década passada, ganhou relevância no hip-hop e trap. Atualmente o avanço tecnológico tornou possível gerar digitalmente (pelo menos em teoria) qualquer som audível, o que desafia a própria definição de instrumento musical.
A própria gravação de música afeta a forma como ela é feita. No seu livro Capturing Sound, Mark Katz explica, entre outras coisas, como o surgimento do fonógrafo afetou as interpretações dos artistas fazendo-os tocar/cantar num volume mais elevado do que fariam se tocassem ao vivo. Efeitos deste género continuam a acontecer hoje em dia. Atualmente, a música está sempre connosco nos nossos bolsos, à distância de um toque. A maior parte das vezes ouvimos música no caminho para o trabalho ou outros sítios com ruído de fundo, muitas vezes através de headphones sem a melhor qualidade. Isto fez com que tenha havido um aumento do volume da música permitindo-a destacar-se do ruído externo.
Mas sem dúvida o maior motor de mudança na música atual é a internet. A internet permite a qualquer pessoa ter acesso a música de todo o mundo a toda a hora, sem precisar de ir a uma loja de discos, como acontecia anteriormente. Num momento podemos estar a ouvir jazz, no momento seguinte música tradicional japonesa, sem sair de casa. Esta acessibilidade da música permitiu a criação no público em geral de gostos musicais diversificados, sendo raro encontrar alguém que ouça exclusivamente um estilo musical. Para além disso, a internet facilitou em muito a partilha de música, aproximando os artistas do seu público independentemente da proximidade geográfica.
Estes dois fatores criaram condições favoráveis à inovação, promovendo cruzamentos inesperados de estilos e facilitando o seu salto para o mainstream. Um dos maiores exemplos deste fenómeno é o surgimento do Bubblegum Bass ou, como tem sido designado nos últimos anos, Hyperpop. Este é um estilo que surgiu no início da década passada e caracteriza-se pela junção de influências de EDM (Electonic Dance Music), música industrial com os refrões cativantes e a estética da música pop. Esta estética é muitas vezes exagerada e usada como crítica social, combinada com letras hiperbólicas e muitas vezes irónicas e vocais alterados digitalmente.
Um dos grandes responsáveis pela popularização deste género é a record label PC Music criada por A.G. Cook que foi e continua a ser a casa de artistas proeminentes dentro do género. Entre as caras que vieram desta label encontra-se SOPHIE que popularizou o estilo com o seu álbum de estreia de 2018, OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES. Sobrepondo vocais doces com a electrónica industrial abrasiva arrecadou uma nomeação para Grammy de melhor álbum de música eletrónica.
Desde então o Hyperpop tem-se tornado cada vez mais importante no panorama musical atual, contando com apoiantes de peso como Charli XCX, que no seu último álbum how i’m felling now, composto totalmente durante a quarentena, mergulha de cabeça nestas influências, deixando-nos músicas que são ao mesmo tempo cativantes e experimentais (para música pop) como Pink Diamond e c2.0. Contando com grandes vultos do estilo, como A.G. Cook e Dylan Brady (dos 100 gecs), na produção, este disco promete popularizar ainda mais o hyperpop.
Outro projeto de destaque neste estilo é o álbum de estreia de Dorian Electra Flamboyant, que conta mais uma vez com a produção de Dylan Brady. Este projeto é fundamentalmente pop e dance-pop, mas não falta espaço para experimentação, como o final abrasador da faixa Emasculate e uma mistura de trap, EDM, e guitarras distorcidas na faixa Musical Genius.
Mas nenhum artista retrata o som da internet como 100 gecs, um duo musical composto por Dylan Brady e Laura Les. Em 2019 lançaram o seu álbum de estreia 1000 gecs, em que retratam a esquizofrenia da internet, pegando nas influências do Bubblegum Bass mas levando-as ao extremo até se tornar o mais obnóxio possível, como qualquer discussão de qualidade na internet. Com vocais agudos e extremamente alterados, combinam um conjunto grande de influências que vão do ska ao grindcore só para falar de algumas. No seu álbum de remixes que saiu no passado dia 10 de Julho mostram uma mão cheia de razões para o entusiasmo com o futuro do Hyperpop juntando A.G. Cook, Rico Nasty, Charli XCX, Black Dresses e mesmo Fall Out Boy, mostram-nos novas formas criativas de combinar as suas influências com sons pop.
Se o Hyperpop é realmente o futuro do pop ou apenas uma moda passageira apenas o tempo dirá. Mas o seu aparente sucesso mostra que o público em geral consegue gostar de música mais experimental quando exposto a ela. É a prova de que o clima da música pop favorece a inovação, o que, para mim, é razão para entusiasmo.
SONHOS
30 DE JUNHO 2020

— 1 —
A melhor forma de relacionar música e sonho é, sem dúvida, através do rock progressivo. É dos géneros musicais onde mais se consegue perceber que, tanto a parte escrita como a parte tocada, evocam simultaneamente fantasia e, por consequência, sonho. Se, por um lado, as letras pendem para a descrição de sonhos ou de viagens fantásticas que são apenas possíveis através da imaginação e da ficção, por outro lado a música – no sentido estrito e não global –, mediante os instrumentos característicos do prog rock, transporta-nos para um estado não real, que tanto pode ser de êxtase como de letargia “espacial” como que se flutuássemos no espaço.
Um exemplo claro é a sonoridade dos Genesis, expoente máximo do rock progressivo inglês dos anos 70. Em muitos das canções dos primeiros álbuns (leia-se fase Peter Gabriel) percebe-se, tanto no que se canta como no que se toca, o sobrenatural, aquilo que está para lá do real. Os sintetizadores e a eterna flauta de Peter Gabriel são em si um sonho que produzem sons que não se descobrem ao virar da esquina na oficina do Sr. João, à porta da taberna ou à entrada da escola; descobrem-se antes à noite quando sonhamos, quando temos pesadelos ou sonhos de complexas viagens improváveis.
Quem nunca teve sonhos longos onde viajamos pelos sítios mais inesperados. Daqueles sonhos em que acordamos suados como que se tivéssemos mesmo feito uma viagem, percorrido todos os quilómetros ou anos-luz.
Num desses álbuns seminais, Foxtrot, encontramos Supper’s Ready, a grande longa-metragem (passo o pleonasmo) dos Genesis, uma rapsódia de 23 minutos que podemos dividir numa viagem de sete compassos. Cada parte remete para um cenário diferente, ainda que se consiga vislumbrar um fio condutor ténue na história que Peter Gabriel e o resto da banda querem contar. Exemplo disso é o facto da primeira e última partes da música tratarem da história de dois amantes. Se no início se ouve
And it's hey babe your supper's waiting for you
Hey my baby, don't you know our love is true?
I've been so far from here
Far from your warm arms
It's good to feel you again
It's been a long long time
Hasn't it?
no fim temos
And it's hey babe, with your guardian eyes so blue
Hey my baby, don't you know our love is true?
I've been so far from here, far from your loving arms
Now I'm back again
And babe, it's gonna work out fine
Pelo meio temos o campo da impossibilidade, histórias de guerreiros e de religiões científicas. Trechos como
Six saintly shrouded men move across the lawn slowly
The seventh walks in front with a cross held high in hand
ou
There's Winston Churchill dressed in drag
He used to be a British flag, plastic bag, what a drag
The frog was a prince
The prince was a brick, the brick was an egg, the egg was a bird
remetem-nos para a fantasia e para situações que apenas em sonhos vislumbramos encontrar. Afinal, o próprio Peter Gabriel chegou a admitir que a criação da Supper’s foi influenciada por uma experiência que a sua mulher teve enquanto dormia e os pesadelos que essa experiência lhe deu posteriormente.
Finalmente, a juntar-se à música e à letra, temos ainda as atuações ao vivo da década de 70 e de que nos chegam aos dias de hoje alguns vídeos onde podemos ver que Peter Gabriel não descura no vestuário, como que para lembrar que no prog, mesmo quando se está em palco, não há espaço para o real ou o quotidiano.

Peter Gabriel numa atuação ao vivo com uma flor em torno da sua cabeça numa alusão ao mito grego de Narciso: We watch in reverence, as Narcissus is turned to a flower/ A flower?
— 2 —
É também impossível pensar em sonho, música e Genesis e não pensar na fase pós Peter Gabriel. Na fase em que Phill Collins sai do fundo do palco, abandona a bateria, ou pelo menos em parte, e salta para a frente, liderando uma banda que depois de The Lamb Lies Down On Broadway poderia ter ficado por ali. Mas não ficou e ainda bem. No discreto Wind and Withering, há uma faixa que passa bem pela típica sonoridade que associamos a Peter Gabriel nos Genesis: o que eu gosto de chamar de pop progressivo. A faixa chama-se One for the Vine e é bem mais do que uma melodia pop com sintetizadores brilhantes e ritmos repetitivos. É uma viagem, quiçá um sonho ou vários sonhos. É o começo de uma religião, de várias religiões. De homens que ousam liderar povos porque creem ser os escolhidos e, por outro lado, de homens que abandonam a sua fé.
Fifty thousand men were sent to do the will of one.
His claim was phrased quite simply, though he never voiced it loud,
I am he, the chosen one.
In his name they could slaughter, for his name they could die.
Though many there were believed in him, still more were sure he lied.
Then one whose faith had died
Fled back up the mountainside,
But before the top was made,
A misplaced footfall made him stray
From the path prepared for him.
Off of the mountain,
On to a wilderness of ice.
This unexpected vision made them stand and shake with fear
(…)
This is he, God's chosen one,
Who's come to save us from
All our oppressors.
Esse homem que abandona a sua fé torna-se alvo de adoração por outro povo, e se, por um lado, rejeita ser o seu novo líder
No, no, no, this can't go on,
This will be all that I fled from.
Let me rest for a while.
por outro lado acaba por assentir
They leave me no choice.
I must lead them to glory or most likely to death.
Este ciclo repetitivo de viagens de povos oprimidos em busca de algum salvador, e que vislumbram em alguém que perdera a fé num outro líder, podemos encontrá-lo na história das religiões. A letra desta música é elaborada e conta-nos uma história grandiloquente, quase que fantástica – ex-líbris de muito do prog de Genesis, como aliás já vimos na Supper’s. A revista Rolling Stone chegou a considerá-la como a música mais ambiciosa dos Genesis na fase pós-Gabriel e talvez tenha razão.
Desta música há também a reter um nome: Tony Banks, o teclista dos Genesis que, ao lado do baixista Mike Rutherford, permaneceu na banda até ao último álbum de estúdio em 1997. Banks é um teclista exímio e dos melhores que encontramos no prog rock, apesar de muitas vezes cair em esquecimento em prol de outros teclistas - como Richard Wright dos Pink Floyd - tanto ou até menos engagés do que ele. A composição de One for the Vine é-lhe atribuída, o que nos permite perceber a genialidade deste músico que acabou sempre por ficar um pouco ofuscado, ora com Gabriel no início, ora com Collins depois.
— 3 —
E em Portugal? Na nação lusitana o prog rock é decididamente marcado pelo álbum de José Cid de 1978: 10 000 anos depois entre Vénus e Marte. Álbum onde os versos são empurrados para o fundo da sala, priveligiando-se o Mellotron, a guitarra-baixo e as percussões. O conceito do álbum é a destruição da Terra – planeta que se situa entre Vénus e Marte para os mais distraídos – como consequência da “poluição” e das “guerras nucleares”.
Entre a bruma densa da manhã que quer romper
O planeta Terra já não pode mais viver
Os que conseguem, escapam em naves espaciais. Os que não conseguem, morrem.
Toda a gente corre para a vala comum
Todos os caminhos vão a lugar nenhum
Se conseguires fugir, foge
Na tua nave no espaço
Mas eis que dez mil anos depois uma das naves regressa à Terra, dando-se início ao seu repovoamento e ao começo de uma nova civilização, onde se espera que não se cometam os mesmos erros passados. Há que ter esperança.
Podes ver
10.000 anos depois
No ecrã do radar
Entre Vénus e Marte
Um planeta vazio
À espera que o descubram
Onde recomeçar
Outra civilização
As letras são decididamente fracas, pondo em evidência uma contradição que existe em muito álbuns do prog rock que consiste em ter-se versos bastante aquém da música. Há contudo a temática do sonho no álbum de Cid. Um sonho espacial, o que faz com que o álbum se inclua também no chamado space rock.
A ficção científica e a fantasia, que estão intimamente ligadas ao sonho e ao desejo de querer viver alguma coisa mais do que o que se pode viver na Terra, são conceitos recorrentes na imagética sonora do prog rock. E a verdade é que musicar esses temas sem um sintetizador ou um mellotron – instrumentos bastante caros ao prog - é muito difícil. E, então, talvez seja por isso que no prog rock o sonho encontra o seu refúgio ou vice-versa. Vou mais longe: digo que um é outro.
— 4 —
Viajando para 2019, encontramos em Portugal, tal como em 1978, muito pouco prog rock. Mas, tal como em 1978, aquele que encontramos é bom. Muito bom.
Falemos então de Zarco, banda lisboeta que grava nas caves de Cuga Monga, a editora fundada pelos Capitão Fausto e que já gravou Luís Severo, Ganso, entre outros. O que distingue Zarco dos demais é o fator prog misturado com aquilo que podemos chamar de canção épica, ou seja, músicas que tratam de epopeias. Uns Lusíadas modernos musicados com guitarra elétrica, sintetizadores e até o som de uma espada.
Na feira dos sítios sem sorte
Reza a vida, reza a morte
Trocadas memórias sem dono
Esquecimento, abandono
As más, as boas, as certas
As profundas e as despertas
Aquelas que ninguém se esquece
É vendê-las em quermesse
(…)
Os mitos e as lendas
Que a história semeia
Perdidos na teia
Das compras e vendas
As influências de Frank Zappa na sonoridade são notórias, assim como muito do prog dos anos 70, aliás como os próprios reconhecem numa das poucas entrevistas que esta jovem banda deu [https://observador.pt/2020/03/04/nao-os-zarco-nao-sao-so-mais-uma-banda-portuguesa-de-indie-rock/].
Nas letras há uma clara influência da música portuguesa. Ao ouvirmos Corsário, faixa do único LP Zpazutempo, somos remetidos imediatamente para Fausto e as viagens dos séculos XV e XVI. Aliás, o nome Zarco vem do apelido do navegador português João Gonçalves Zarco.
Corsário português
Não se sabe bem o que fez
Sem ser a sua história
Narrada in medias res
(…)
Navegou por mais uns anos
Subindo rio a rio
Sempre se escafedendo
Pois o destino lhe sorriu
A terminar este fabuloso disco, que pelo meio conta com as excelentes Sombra e Tava num bar (sim, aquela a quem os Capitão Fausto fazem referência no seu último álbum), temos a repetitiva e melancólica P’ra lá do rio – haverá melhor forma de fechar um álbum cheio de aventuras e de solos de guitarra do que com um piano a repetir os mesmo trechos e a banda em coro a repetir os mesmos versos?
Fui p’ra lá do rio
Fui p’ra lá do mar
Chegado ao mar, o mar estava vazio
Já cá não está quem mais sorri
O mar como pano de fundo no fim de uma viagem épica. Ou terá sido um sonho?. Talvez não seja sonho porque estas viagens aconteceram mesmo, mas, no fim, no agora, no presente, tudo não passa de um sonho eterno. O que resta é o saudosismo traduzido nestes últimos versos do álbum.
— P.S. —
A fechar este artigo, dei conta que saiu o álbum Cuca Vida produzido em pleno confinamento pelos artistas que já gravaram com a Cuca Monga. O álbum foi construído à moda do conto esquisito com cada uma das bandas – Capitão Fausto, Zarco, Ganso, El Salvador, etc – em sua casa. O álbum tem referências explícitas aos tempos que correm (afinal, não é para isso que serve a arte?) e isso dá-lhe um gosto ainda mais especial.
Há tanta coisa que acontece
Enquanto parece que não passa nada
(…)
Quando passar esta aflição
E a vida regressar
Saímos mais unidos
Para apanhar o sol do verão
O que nos vale é que, apesar do provincianismo e das atitudes de terceiro mundo como ter um primeiro-ministro e presidente da República a anunciarem ao país a final de um campeonato de futebol em Lisboa, temos músicos de topo.
TEMPO
30 DE MAIO 2020
CONVIDADO
HENRIQUE SILVÉRIO

A implacável passagem do tempo marca o compasso das nossas vidas, dando-nos a cada instante um passado irretornável, um presente efémero e um futuro incerto. E embora o tempo de ninguém seja eterno, vivemos com a certeza de que o nosso terá um fim. Nesta perspetiva, a nossa fixação com o passado, com a memória, tanto pode parecer uma absurda perda do precioso tempo que nos resta ou uma tentativa de o prolongar ou manipular, revivendo os momentos que ficaram para trás.
A ligação e interdependência que cada um tem com a suas memórias é inquestionável; ao fim e ao cabo, são elas que nos definem, que nos moldam ao longo da vida. Da mesma forma, as memórias coletivas de uma família ou de um povo exercem fortes influências sobre cada elemento. Um exemplo disto encontra-se na memória coletiva do povo afro-americano, como consequência dos desafios e obstáculos que, de uma forma ou de outra, têm vindo a enfrentar ao longo de séculos. Desde a escravatura à brutalidade policial, não esquecendo uma pervasiva segregação racial, a identidade de cada negro nos EUA é moldada não só pela sua memória individual, mas também pela memória das provações do seu povo.
É com estas memórias presentes que Slauson Malone lança o seu disco de estreia, A Quiet Farwell, 2016-2018. Trata-se de uma obra intrinsecamente ligada ao conceito de “tempo”, estando a ligação mais óbvia presente no seu título, através do qual o autor escolhe marcar o período de materialização das principais ideias do álbum. Outras datas podem também ser encontradas nos títulos de algumas faixas, embora nestes casos o seu significado seja mais obscuro.

Lista de faixas de A Quiet Farwell, 2016-2018
Esteticamente, A Quiet Farwell é abstrato, surreal, etéreo. Com um total de 20 faixas em apenas 32 minutos, o álbum flui como um sonho atribulado - sem princípio ou final definidos, com saltos ilógicos entre cenários caóticos, esotéricos, meditativos ou arrepiantes. A lista de faixas, composta por uma série de títulos crípticos e intencionalmente desordenados, reforça a confusão. Ao que tudo indica, a linearidade temporal e lógica parece ser propositadamente descartada à partida. Porém, tal como num sonho, parte da genialidade do álbum reside no facto de toda esta desordem só ser aparente quando racionalizada. Partindo de um conjunto desconexo de retalhos e fragmentos musicais, Malone tece uma malha sónica incrivelmente harmoniosa e fluida.
A Quiet Farwell não é o tipo de álbum que deva ser analisado faixa a faixa. Cada ideia transmitida raramente é contida, encontrando-se antes espalhada e reiterada em várias músicas. Um dos acontecimentos recorrentes do álbum é o grito ou lamento presente em múltiplas faixas, ouvido pela primeira vez no início da segunda faixa, 11/28/55, Ttrabul ou, em seu pleno esplendor, na faixa 08/09/14, Smile #1; de acordo com o próprio Malone, este grito chora as vítimas mortais do racismo nos EUA. Cada música em que aparece inclui uma data no título, assinalando assim uma tragédia particular – por exemplo, 04/04/68, I can make you feel free relembra o dia do assassinato de Martin Luther King Jr., enquanto que datas mais recentes noutras faixas marcam a morte de vítimas de brutalidade policial.
Outro mote recorrente é encapsulado pela frase “smile at the past when I see it”, repetida em quatro faixas apropriadamente denominadas Smile #1-4. Usando a contradição do verso como ponto de entrada, Malone procura realçar a imaterialidade da memória, o facto de cada uma existir confinada na mente que a alberga.
De certa forma, o álbum oferece uma atribulada excursão pelas memórias, pensamentos e crenças do artista, que ganha a forma de uma viagem no tempo. Para além dos frequentes retornos ao passado, também o seu presente estado depressivo é aparente em músicas como —Fred Hampton’s Door, Farewell Sassy— …na, enquanto que The Flying Africans board mothership Zong! to colonize the new nubian planet called X “The World laughs as it turns another degree, hotter” oferece vislumbres de um futuro apocalíptico.
Entre outros aspetos, A Quiet Farwell é uma manifestação e homenagem ao poder da memória, que transcende os limites mundanos do tempo e permite que cada um revisite o seu passado. Contraditoriamente, é também uma demonstração de como esta mesma memória exerce uma influência profunda e inescapável no caráter e estado de espírito do seu dono, sugerindo que talvez a sua existência não seja tanto um mecanismo de escape às grilhetas do tempo, mas antes um registo indelével que amplifica a sua influência nas nossas vidas.
REVOLUÇÃO
30 DE ABRIL 2020

A revolução nasce sempre de revolta. Quando o mundo à nossa volta não nos dá aquilo de que precisamos, surge a revolta contra o mundo e gera-se uma crescente massa humana que se recusa a conformar. Quando esta massa se torna grande o suficiente, a balança de poder inverte-se e dá-se uma revolução. Ideias e instituições antigas, que foram incapazes de satisfazer as necessidades das pessoas, são substituídas por outras novas, mais atuais e capazes de cumprir o seu propósito. Foi do descontentamento do povo que no dia 25 de Abril se pôs fim a um regime autoritário, dando lugar a outro mais capaz de dar aos cidadãos aquilo de que precisavam (Filosofia). Foi do descontentamento dos realizadores franceses com a invasão americana que surgiu a nouvelle vague (Cinema). E foi do descontentamento dos cientistas, que se viam incapazes de explicar alguns resultados, que surgiu a mecânica quântica (Ciência, Literatura).
A música é um veículo para a revolução. É impossível pensar no 25 de Abril sem pensar em Grândola Vila Morena. José Afonso incorpora muito do espírito punk, que ainda não tinha chegado a Portugal nessa altura. Grândola é uma música carregada de emoção, sem mais instrumentos que a voz (porque essa ninguém nos tira), mas sobretudo cheia de revolta. Esse é o espírito punk, a constante contestação do status quo e com ela inspirar renovação e quem sabe revolução.
Podia aqui falar de muitos artistas punk, mas nesta edição decidi falar de um álbum que explora temas mais atuais: o Joy As An Act Of Resistance dos britânicos IDLES, que, tal como se lê no título, tenta mostrar que revolta não tem de ser sinónimo de infelicidade, e que, no estado atual, em que predomina o ódio e o pessimismo, talvez a maior resistência possível seja a felicidade e o otimismo. Tudo isto através de interpretações energéticas e grande ironia e sentido de humor.
A primeira faixa, Colossus, começa com bateria simples acompanhada de guitarras monocórdicas, sobre as quais se ouvem vocais intensos, que falam da culpa de não se corresponder às expectativas. À medida que a música progride gera-se uma tensão crescente, como que significando a acumulação, destes sentimentos. contrasta com a segunda parte, que é uma passagem um pouco mais clássica punk, em que IDLES deixam a sua marca.
A música seguinte, Never Fight a Man with a Perm, é definitivamente um dos melhores momentos do álbum. Começa com uma melodia de guitarra simples mas contagiante, à qual se junta a bateria e o baixo. Sobre eles os vocais são uma troca de insultos, criando a atmosfera deque uma luta prestes a acontecer e acumulando tensão libertadas no refrão, em que a luta se dá.
Na faixa seguinte, I’m Scum, o cantor descreve-se de forma irónica como sendo escumalha (scum), acabando mais por tecer uma crítica àqueles que pensam que ele é escumalha do que a provar que ele o é. O baixo faz aqui o instrumental ter uma atmosfera despreocupada e bem disposta, reforçando o sarcasmo da letra.
A faixa Danny Nedelko é um hino à unidade e igualdade entre pessoas. É uma música cheia de revolta e que no entanto transborda felicidade. Com um dos refrões mais memoráveis do disco inteiro é mais um momento alto do disco.
Love Song é um canção de amor escrita da perspectiva de alguém que tem dificuldade em expressar os seus sentimentos. Alguém que não está habituado a estar apaixonado, mas que está disposto a sacrificar-se para estar com a outra pessoa. Os vocais quase em gritos de Joe Talbot encaixam na perfeição nesta música.
June é dos momentos mais tristes do álbum em que Joe nos descreve a dor de perder um filho antes do nascimento. Uma faixa cheia de tristeza, em que as guitarras uivam por trás dos vocais extremamente sentimentais. O instrumental é bastante cru, sem floreados, criando uma atmosfera negra e melancólica.
A faixa Samaritans é cantada da perspectiva de um pai que tenta explicar ao filho o porquê de não chorar, explorando temas de autoestima e machismo. Com uma bateria pujante, vocais fortíssimos, e guitarras uivantes, a música cresce de intensidade até acabar de forma abrupta.
Television é um hino ao amor próprio. Uma música sobre não nos deixarmos controlar por inseguranças artificiais impostas pela sociedade e como esse é o verdadeiro ato de rebelião. Mas tudo dito de uma maneira muito irónica, com momentos que nunca me deixam de fazer rir, como:
I spoke to God in my dreams last night
She said I’d go to Heaven if my teeth was white
Medicator, medicator, medicator
Numb me from these naysayers
Para além disso há algo de terapêutico em ouvir além a gritar “Love Yourself, Love Yourself, Love Yourself!!”.
A faixa Great é mais uma celebração da união entre povos e pessoas. Uma faixa alegre que nunca falha em arrancar-me um sorriso e onde mais uma vez ouvimos um instrumental relaxado e bem disposto.
Gram Rock é mais uma música carregadas de energia. Começa com um baixo e bateria acentuados que transitam para um refrão que é apenas uma passagem de guitarra memorável e contagiante.
A faixa Cry To Me explora temas de solidão e tristeza, com um instrumental e vocais que fazem lembrar blues, mas com a energia e peso de IDLES.
Finalmente entramos na última faixa do álbum, Rottweiler, em que a banda liberta toda a sua força. Nela, guitarras uivam por trás de vocais surreais, que culminam numa das passagens mais ruidosas do álbum.
Em geral este é um disco cheio de excelentes interpretações, letras memoráveis com mensagens positivas e aguçado sentido de humor. A produção crua condiz com o instrumental minimalista, acentuando o sentido de revolta omnipresente. Se fosse apontar algum defeito a este disco diria que gostariava que o instrumental fosse um pouco mais variado. Apesar disso é um álbum com boa energia, boa mensagem, boas interpretações. Um disco para trazer um pouco de revolução às nossas vidas de confinamento.
Bandcamp: https://idlesband.bandcamp.com/album/joy-as-an-act-of-resistance
1 de Abril de 2020

Hoje vamos falar de um álbum que, apesar de editado há pouco tempo, tem muitas boas hipótese de se tornar o meu álbum do ano, e que é o primeiro concorrente sério a álbum da próxima década. Estou, obviamente a falar do mais recente álbum de Lil Uzi Vert, Eternal Atake. Um épico álbum conceptual de ficção científica que nos atinge com um banger depois do outro.
Este álbum é carregado de letras memoráveis e originais como “I said it's up, up, up, uppity”, cheias de referências a cultura popular “Yu-Gi-Oh, Yu-Gi-Oh, you wanna duel? / Blue-Eyes White Dragon, no, I will not lose”, e referencias a moda “And I can't do my dance 'cause my pants, they from / They from France”.
Este é um álbum que prima pela sua variedade, e no qual Uzi mostra os muitos lados da sua personalidade. Na faixa POP vemos os seus dotes de sedução. A faixa I’m Sorry revela o seu lado mais sentimental, em que nos conta a história de uma relação falhada com uma fã pedindo para ser perdoado pelas coisas que disse. Na faixa Celebration Station vemos que Uzi é perfeitamente capaz de produzir um Dancelub Banger, com xilofones que me fazem começar imediatamente a dançar. Na faixa Bigger Than Life, mostra-nos a vida de divertimento que leva enquanto em tour, mas fala-nos como se estivesse desencantado com esta vida e quisesse voltar ao que era antes. Na faixa Prices ficamos a saber que Uzi é também preocupado com a sua solidez financeira.
Com sintetizadores hipnotizantes que produzem melodias empolgantes e que nos agarram do início ao final do álbum, por cima dos quais Uzi produz rimas dignas de um poeta romântico. Estes sintetizadores fazem uma aparição particularmente relevante na música extra Futsal Shuffle.
Nao tenho muito de mau a dizer sobre este álbum, mas se fosse escolher alguma coisa seria que há uma marcada falta de “yeah’s” e “Skkkkrt’s”, porque todos sabemos que nunca são demais. Apesar deste pequeno detalhe, é o álbum perfeito 10/10, certamente estará nas listas de melhores álbums de 2020.
CAOS
29 DE MARÇO 2020

Quando penso em música que pode ser considerada caótica, há vários exemplos que vêm à mente, mas ninguém incorpora mais o conceito de caos que Igorrr. Qualquer um dos seus discos poderia servir de exemplo, no entanto o álbum Hallelujah ganhou um lugar especial no meu coração por ser, na minha opinião o mais selvagem deles todos. Editado dia 12 de Dezembro de 2012, o dia do suposto fim do mundo pelo calendário Maia, este álbum é a representação musical do apocalipse. Um disco em que o passado, o presente e o futuro colidem gloriosamente criando uma maravilhosa abominação.
Gautier Serre, a cara por trás de Igorrr, descreve o seu som como “a big party with metalheads, electronics nerds, classical and baroque-heads and gypsy violinists getting drunk and joining together to bring the best of every genre”, e é uma descrição bastante adequada. Combinando música barroca com breakcore, grindcore e música cigana, polvilhados com black metal e sabe-se lá mais o quê, este disco é uma experiência musical inesquecível. Com convidados de luxo, como Laure Le Prunenec (da banda Corpo-Mente) e Laurent Lunoir (da banda Öxxö Xööx), não há falta de momentos dramáticos e sentimentais,
Um destes momentos é a faixa de abertura Tout Petit Moineau. Esta música começa com piano que abre caminho para os vocais arrepiantes de Laure Le Prunenec. Juntos vão gerando uma tensão crescente, aumentada ainda mais pela electrónica e cordas que são introduzidas depois. Eventualmente esta tensão é libertada gloriosamente. A batida acentua-se, os vocais tornam-se gritos maníacos, guitarras distorcidas materializam-se e começam um riff que carrega a música por este momento. Este é o clímax da faixa a partir da qual esta se acalma. Os instrumentos vão-se retirando um a um até sermos deixados apenas com cordas acompanhadas por batidas, cada vez menos pronunciadas.
A faixa seguinte, Damaged Wig, começa com uma passagem de cravo acompanhado de eletrónica glitchy e arrítmica, que é atacada periodicamente por camadas de guitarras distorcidas, por vezes acompanhadas de vocais maníacos. Transita-se então para uma passagem com vocais pujantes e uma parede de guitarras distorcidas, que acabam por ir desembocar à passagem de cravo do começo. Aqui podemos também ver o humor de Serre na introdução da sample do canto de um pássaro, que participa na música como se se tratasse de mais um instrumento.
Depois disto entramos na Absolute Psalm, que é talvez a faixa mais apegada às influências metal. Ela começa com um canto coral que vai sendo cada vez mais distorcido até ser engolido por uma parede de guitarras e gritos raivosos, que introduzem ritmos acelerados e guitarras encorpadas. Estas dão lugar a uma passagem calma de saxofone, mas que não nos dá muito descanso, pois este rapidamente se torna histérico, voltando à loucura anterior. De salientar os vocais finais extremamente sentidos, e loucos de Laurent Lunoir.
Depois de toda esta loucura, a música Cicadidae é uma lufada de ar fresco. Esta é uma música menos densa que as anteriores e na qual a electrónica trabalha em conjunto com a guitarra de uma forma mais orgânica do que até aqui, dando-nos um pouco de tempo para respirar. É também grandemente influenciada por música cigana, mas em que Sarre não se coíbe de deixar a sua marca.
Entramos agora na música Vegetable Soup. Bastante influenciada por música dos Balcãs, mas complementada pela electrónica e guitarras já características, esta música faz me sempre imaginar um homem embriagado no meio da rua a balançar ao som da música, enquanto canta e toca o seu acordeão. De salientar a participação especial da galinha de estimação de Serre, Patrick, cuja voz começamos a ouvir primeiro sem ritmo, mas que acaba por ganhar ritmo e acompanhar a música, nunca falhando em arrancar-me um riso.
Depois disso, entramos na faixa Lullaby for a Fat Jellyfish (sim, é este o nome). A faixa começa com guitarras pujantes, que fazem imediatamente começar a abanar a cabeça. As guitarras são eventualmente acompanhadas por vocais guturais graves contrastando com outros agudos, abrindo caminho para a voz magnífica de Laure Le Prunenec que nos guia até ao final.
A faixa Grosse Barbe é um dos momentos mais dramáticos do disco, com vocais extremamente sentidos de Laurent Lunoir. Com elementos emprestados da ópera, mas com vocais que parece que vêm diretamente da alma. Sempre que ouço esta música não deixo de imaginar um gigante que apesar de bem intencionado, por ser desajeitado, causa destruição por onde passa.
Corpus Tristi é mais um momento sentimental do álbum. Um piano solitário, com uma melodia melancólica empurra a música para a frente. Por cima deste desenvolve-se o dueto de Laurent e Laure. Nesta música o passado choca com o presente. A eletrónica colide com a melodia do piano dos vocais, como que mostrando que nem a melodia mais bonita fica imune à força destruidora do tempo.
Em Scarlatti 2.0 cada influência consegue encontrar o seu espaço para brilhar. Se na faixa anterior tínhamos colisão agora temos unidade. Cada parte parece trabalhar em harmonia para a construção de um dos instrumentais mais detalhados do disco. A música progride de forma a tornar-se cada vez mais sintética e alienígena, até que no final é puramente electrónica, sem qualquer rasto dos instrumentos que tinha anteriormente.
A música Toothpaste é praticamente completamente sintetizada, com sintetizadores hipnotizantes, esta acaba por funcionar como mais um interlúdio, dando-nos um momento para respirar antes da faixa final.
A faixa Infinite Loop começa com um crescendo de cordas, que transitam subitamente para uma parede de guitarras distorcidas e repletas de efeitos. Estas vão se tornando mais densas até pararem e darem lugar novamente às cordas acompanhadas agora pela voz de Laure de Prunenec. Estas, por sua vez, vão crescendo e voltam, como num ciclo às guitarras que acabam o álbum.
Este é um álbum ao qual tenho repetidamente voltado e que de cada vez que o ouço, me dá sempre alguma coisa nova. Há uma sobreposição de tantas influências diferentes que há sempre coisas interessantes para ouvir mesmo que falte um conceito definido a ligar todas as faixas. No fundo, acaba por ser também assim na nossa vida: por muito que pareça não haver um destino concreto, há muitas coisas para aproveitar enquanto dura.

AMOR
29 DE FEVEREIRO 2020

Amor é um tema amplamente explorado na música. Uma simples busca na internet por “canções de amor” traz-nos listas como “As melhores canções de amor para derreter corações” ou as “20 canções de amor para um dia dos namorados” com os clássicos “I Will Always Love You” de Whitney Houston ou “Just the two of Us” de Grover Washington Jr.. Duas canções muito diferentes, que exploram duas vertentes do amor, uma um amor romântico, a outra um amor mais sedutor, mas ambas fundamentalmente sobre amor.
O amor é algo extremamente complexo e multifacetado, tornando-se extremamente difícil de retratar. Por isto, acaba por se ver muitas vezes reduzido a canções de “rapaz conhece rapariga” (ou vice-versa) com tanta profundidade como um chuveiro. No entanto, quando bem feita, uma música de amor pode ajudar-nos a compreender melhor os nossos sentimentos e ultrapassar momentos dolorosos, como rejeições, ciúme ou mesmo traições.
Um exemplo disto é o álbum a título próprio de Luís Severo. Durante todo o disco o amor está sempre presente, representado de forma realista. Não é reduzindo de maneira nenhuma e é até mesmo elevado. Este é um álbum extremamente honesto, com letras belíssimas, que falam diretamente ao coração. Que são completadas por instrumentais e vocais melancólicos, que criam um ambiente intimista e quase de confissão. Com faixas relativamente curtas, que não ficam mais tempo do que seria necessário, mas que são extremamente bem compostas.
O álbum começa com a faixa Amor e Verdade. Esta faixa impõe imediatamente um ambiente sombrio, com guitarra e baixo que pouco tempo tiram para respirar. Com vocais hipnotizantes e instrumental que me faz lembrar uma canção de embalar, pavimenta perfeitamente o caminho para as faixas seguintes.
A faixa Planície (Tudo Igual) tem um instrumental contagiante, que me faz desde o primeiro momento querer dançar. Com uma bonita passagem de sintetizador, esta é uma música que fala de uma relação que dura há algum tempo com as discussões que são próprias desta, mas que o amor acaba sempre por ultrapassar. Tudo isto com uma beleza lírica a que não consigo fazer justiça aqui.
Entramos depois na faixa Escola, que fala da infância, dos tempos de escola, das “noites de insónia, pesadelos, paranoia”, e dos amores que se cultivam nessa altura. Sintetizadores brincalhões nos versos, e coros hipnotizantes no refrão. Esta é uma música cujo clímax acontece fora do refrão, na passagem imediatamente antes do último refrão em que se conclui: “A escola que é a melhor parte da vida, mas só porque a vida é mesmo uma merda”, para voltar a entrar no refrão e acabar a música. Se apenas uma passagem fica na cabeça, é esta.
Seguidamente é o momento, na minha opinião, mais honesto do álbum: a canção Meu Amor. Uma música extremamente simples, com um instrumental recatado liderado por um piano, complementado com passagens de flauta. Nesta música descreve-se um amor puro e inocente. Uma música que celebra o amor como a atração pura por uma pessoa que “nos sabe de cor”. Um amor que não se tenta explicar, apenas existe e faz-nos querer procurar outra pessoa a todas as horas.
A música Cabeça de Vento é uma homenagem à vida boémia, descrevendo o desejo de sair da vida banal, procurando “um lugar onde parece que não passa o tempo”. Mas é também o cansaço desta boémia e o desencantamento com essa vida e o desejo de assentar. A música termina com a promessa à mãe de um dia conseguir ter uma vida normal e “arranjar um sustento”. Com um instrumental extremamente bem conseguido, este é o meu momento preferido no álbum.
Com um instrumental muito envolvente liderado por um teclado hipnotizante, a faixa Boa Companhia é bastante alegre com coros joviais no refrão. Falando do medo pelo futuro de uma relação e dos erros ainda por cometer. Medos que são ultrapassados com o conforto e paz que se encontra na pessoa amada por ser “boa companhia”.
Lamento é sem dúvida o momento mais triste do álbum. Com um piano quase funerário, lamenta-se o final de uma relação do “amor que foi” e “já não volta”. Contrastando com o desejo de “voar” mas sem repetir os erros do passado.
A faixa final, Olho de Lince, retrata a história de um amor, desde o seu início até ao seu final. Com um instrumental alegre e sentido descreve-se o início do amor. Contrastando com os melancólicos com que se descreve a separação, e o sofrimento de “três anos”, que na música dura apenas três versos. Imediatamente se recuperando a alegria inicial quando se fala de um novo amor. Uma música sobre o valor das memórias deixadas por uma pessoa em tempos amada, depois do sofrimento passar.
No geral este é um álbum repleto de letras memoráveis. Cada música tem uma lição para dar, e uma história para contar. Com instrumentais recatados, sem serem simplistas, que realçam em muito a beleza lírica das canções. Um álbum repleto de amor em todas as suas vertentes, sem o reduzir. Um álbum acima de tudo muito honesto e sentido, para nos aquecer o coração nos dias em que mais precisamos.
COMEÇOS
9 DE FEVEREIRO 2020

O ano de 1969 foi um ano especial por muitas razões. Foi neste ano que o Homem pisou a Lua pela primeira vez, que os Estados unidos começaram a sua retirada do Vietname, e que John Lennon casou com Yoko-Ono. Foi um ano extremamente prolífico musicalmente, deixando-nos clássicos como o Led Zeppelin I dos Led Zepplin, o Tommy dos The Who, bem como o segundo álbum a título próprio de David Bowie (também conhecido como Space Oddity), com a magnífica Space Oddity. Mas, na minha opinião a jóia da coroa deste ano é o álbum de estreia dos King Crimson, In the Court of the Crimson King.
Considerado por muitos uma obra-prima, este é, para mim, a primeira expressão madura do rock progressivo que se viria a popularizar na década seguinte. Incorporando elementos de jazz e música clássica, mas mantendo-se fiel às suas raízes rock, este é um álbum com uma composição extremamente meticulosa, em que nenhum detalhe é deixado ao acaso. É complexo sem, no entanto, se distanciar do ouvinte, mantendo-o interessado com instrumentais envolventes, e interpretações impecáveis.
O álbum começa com a faixa 21st Century Schizoid Man. Com vocais eletrizantes e um instrumental frenético, somos imediatamente transportados para o que apenas consigo descrever como um pesadelo de Álvaro de Campos. Esta é uma música sobre progresso descontrolado e o seu inevitável colapso, uma faixa verdadeiramente intemporal, tão atual hoje como na altura em que foi gravada. Mal ela começa somos recebidos por uma parede de guitarras, que rapidamente transitam para vocais distorcidos gritando “Cat's foot iron claw ”, e rapidamente para o refrão, um simples grito e no entanto tão poderoso “Twenty first century schizoid man”. À medida que a música avança são adicionadas novas camadas instrumentais, até os saxofones e a bateria tomarem as rédeas entrando numa cavalgada frenética que dá lugar a um solo de guitarra vibrante, que se prolonga por grande parte do resto da música. É impossível elogiar o suficiente esta música. É a introdução perfeita.
Depois disto entramos na faixa I Talk To The Wind. Esta representa uma mudança de paradigma, se antes temos progresso e atividade, agora temos apatia e desilusão. Uma música que explora sentimentos de desconexão com o mundo e a apatia resultante desta desconexão. Combinando em perfeição com estes temas, o instrumental, liderado por uma flauta solitária, é simples e no entanto muito intencional. Isto para não falar dos vocais esplêndidos de Greg Lake.
Entramos agora na passagem mais triste do álbum, a música Epitaph. Este é um momento de pesar pela Humanidade, que se vê num caminho tortuoso, e com um futuro cada vez mais incerto. Um momento de medo pelo futuro que se vê nas mãos erradas (“The fate of mankind, I see/ In the hands of fools”): o medo de perder aqueles que se ama, e, ao mesmo tempo, o pesar de já os ter perdido. Há um profundo pesar que sentido durante toda esta música, muito por causa do instrumental que parece vindo de uma marcha funerária.
A seguir temos a faixa Moonchild, que começa com uma introdução magnífica liderada por vocais ligeiramente distorcidos e etéreos, acompanhados de guitarra, e culmina com uma sessão de improvisação que se desenvolve tal como uma conversa entre os diferente instrumentos onde cada um tem o seu tempo para falar.
Mas este diálogo é interrompido pela faixa final. Dando título ao álbum In The Court Of The Crimson King é tudo o que me faz gostar de rock progressivo. A música começa com um motivo simples, mas em volta do qual a música se desenvolve e eventualmente termina. A letra pinta um quadro fantástico, transportando-nos diretamente para um mundo de fantasia, fazendo-nos imaginar criaturas fantásticas tocando as suas flautas nas colinas. Uma faixa carregada de tensão dramática, com instrumentais magníficos que a aumentam ainda mais.
Este álbum é uma montanha russa. Desde a exaltação frenética da faixa de abertura, até à beleza funerária da Epitaph, há verdadeiramente alguma coisa para toda a gente neste álbum. Uma audição essencial para qualquer fã de rock, e para qualquer fã de música no geral. Um álbum com interpretações excelentes de músicos impecáveis, que viriam a fazer grandes coisas na sua carreira futura.