LITERATURA
FAMÍLIA
13 DE MARÇO DE 2021

Mana,
desculpa esta mensagem que aqui vai, mas ontem quando falámos ao telefone não te consegui dizer tudo, na verdade nem te contei metade, há coisas que a gente tem uma vergonha imensa de contar aos mais próximos, é triste eu sei, mas é assim a vida.
O Joaquim não decidiu ir para a Alemanha ter com o irmão e deixar-me aqui com o miúdo durante uns tempos para arejar a cabeça e as ideias como eu te disse. E tudo isto não se passou durante a semana passada, ai mana isto já dura há meses, o esforço que eu tenho andado a fazer para não te contar nada, há vezes que só me apetece chorar ao telefone, não há um dia que não diga “é hoje que lhe vou contar”, mas depois nunca consigo, a vergonha é tão grande, mas e depois penso “vergonha é roubar” como dizia o nosso pai, que deus o tenha em seu merecido descanso, e lá me arrependo mais uma vez de reportar a conversar que há tanto quero ter contigo.
Isto tudo começou em janeiro depois de irmos passar o ano novo a Zurique com a família daquele amigo do trabalho do Joaquim, acho que já te tinha falado deles, são de Baião e vieram para cá na mesma altura que nós, já fez dezoito anos, só de pensar no quão rápido isto tudo passa. Poucos dias depois de regressarmos, o Joaquim desapareceu sem dizer nada a ninguém. Não nos deixou nenhum bilhete, nenhuma explicação, nada, no trabalho idem, o patrão a ligar para mim todos os dias, e eu sem saber o que dizer, a inventar desculpas, a vergonha de dizer que não sabia do meu marido (a vergonha, sempre a vergonha), e pedi ao João para não dizer nada a ninguém, ele insistia para irmos à policia, mas nem pensar, de que é que isso servia, não havia de ser com quarenta e três anos que o haviam de roubar, e que eu saiba ele não se metia em jogos nem nada dessas coisas, não devia dinheiro a ninguém. De resto era o homem que tu sempre conheceste, igual a ele mesmo desde que viemos daí embora.
É verdade que ele tem alturas em que fica impossível. O seu temperamento varia quase consoante faz chuva ou sol, e durante os últimos anos aquele mau humor que lhe dá para ficar taciturno, calado e resmungão tem vindo a agravar-se, mas nunca pensei que lhe desse para se ir embora assim sem mais nem menos. Ainda por cima depois de uns dias tão bons para ele, estivemos os dois de férias durante duas semanas, sei lá há quanto tempo não fazíamos uma coisa dessas, primeiro o Natal aqui em casa, e depois o ano novo com esse amigo que ele tanto gosta, mas se calhar talvez o problema seja mesmo esse.
Tu sabes, mana, não vou andar aqui com rodeios nem meias palavras, já chega de constrangimentos, nunca te falei nisto e tu nunca me falaste nisso, mas eu bem sei o que diziam dele aí na aldeia antes de virmos embora. Aqueles tiques todos, a maneira de falar, as calças que vestia, aquelas festas a que ele ia às vezes no Porto, enfim, apesar de nunca ninguém se atrever a dizer-mo diretamente, é óbvio que eu percebia que toda a gente achava que ele era maricas, que andava comigo como pretexto. Cheguei a receber mensagens anónimas que diziam que ele gostava de homens, que eu não me devia casar com ele, que já o tinham apanhado nu em cima da secretária do patrão e mais umas quantas ordinarices, que ele só se tinha juntado comigo para disfarçar e poder levar a sua vida secreta tranquilamente. E eu nunca liguei a essas coisas, gostava dele, e gosto, ele parecia que também gostava de mim, e lá nos casámos, depois nasceu o João, viemos os três para a Suíça e durante muito tempo nunca mais pensei nisso.
Há coisa de cinco anos o Joaquim mudou-se para o novo trabalho, deixou os armazéns dos supermercados e passou a tratar os jardins dos condomínios das gentes mais ricas aqui do sítio. É verdade que, se o antigo emprego era no quentinho do armazém, com o novo trabalho passou a andar à chuva e ao frio, e tu bem sabes que os invernos aqui são invernos a sério, nada que se compare com isso aí, aqui neva caramba, mas pelo menos não se tinha de levantar tão cedo para chegar ao fim do dia completamente estoirado das costas e sem vontade de se levantar do sofá. Além disso, o novo patrão é filho de uns emigrantes portugueses, e apesar de não falar a nossa língua, parece-me que sempre há um certo entendimento nacional entre eles que é mais profundo e que se estende para lá das palavras. Às vezes os olhares e as expressões valem mais do que os verbos, se bem que me tira completamente do sério pessoas como os pais desse patrão, que de resto tem um nome bem português, que não se esforçaram nem um bocadinho para ensinarem a língua portuguesa ao filho. Parece-me mal e acho mal, mas nunca insisti muito com o Joaquim neste assunto porque já sei que ele ia começar a embirrar comigo, ele sempre foi muito defensor do patrão.
Foi aí nesse novo trabalho que o Joaquim conheceu esse tal amigo, o Joca, com quem fomos passar a passagem de ano. O Joca no entanto já não trabalha na jardinagem com o Joaquim desde há uns meses. Arranjou qualquer coisa melhorzita lá pela parte alemã e partiu com a família para Zurique. Mas, apesar da distância, eles continuaram muito amigos e o Joaquim de vez em quando ia até Zurique ter com ele aos fins-de-semana. A mim e ao João é que nunca convidaram para lá ir até que finalmente o convite surgiu na passagem de ano.
Eu já conhecia a mulher e os filhos deles, mas não muito a fundo. Afinal, o Joca ia muito lá a nossa casa, havia fins de semana em que passava lá os sábados inteiros, ora a ver a bola, ora a falarem de bola, enfim coisas deles. Mas com isto tudo nunca cheguei a falar muito com a senhora dele, a Belinha, e ainda muito menos em ambiente de casa. Isto para dizer que o que encontrei em casa deles em Zurique foi das coisas mais estranhas que alguma vez presenciei porque o Joca que eu sempre conhecera era uma pessoa muito divertida, sempre na brincadeira, ora com o Joaquim ora comigo, vinha sempre com muitas graçolas e muitas piadolas, algumas de mau gosto, mas que a gente não se importava, com exceção do João, o miúdo nunca foi à baila com aquele homem e foi uma chatice levá-lo para Zurique, só depois de muito o chatear é que ele lá acabou por anuir.
Mas, mana, aquilo lá em casa deles é outra coisa completamente diferente. A mulher quase nem fala na presença dele, e, quando fala, o marido começa logo a embirrar com ela, a dizer que está tudo mal, que a comida não presta, que devia ter vergonha de servir isto e aquilo aos convidados – que éramos nós – e eu sempre a defendê-la, a dizer que estava tudo ótimo (e estava, mana, é que estava mesmo), mas ele sem me ligar nenhuma, sempre com uma brutidade para a mulher que eu juro que não lhe conhecia. E ela, a Belinha, toda submissa, a cabeça sempre em baixo, em dois dias que lá tivemos não a vi rir-se uma única vez.
E aquilo que mais me irritou foi ver o Joaquim indiferente com as atitudes do amigo, às vezes até se riam os dois, o Joaquim vê-me bem, que apesar daquele feitio de merda que ele às vezes tem, nunca me deu ordens ou me insultou, e agora gracejava com a autoridade do amigo?
Foi então aí, ao ver essa intimidade no desprezo por aquela pobre coitada que eu percebi o que nunca antes entendera. Esse companheirismo dos sábados à tarde surgiu-se-me nos olhos com outras feições, outros contornos. Só se é complacente com a intolerância de alguém se se ama essa pessoa.
Quando eles os dois saíram “para irem ver da mota lá em baixo”, ainda ensaiei puxar pela Belinha, ensaiar que ela me dissesse alguma coisa do que se passava com aquele casamento, porque é que das (poucas) vezes em que tínhamos ido jantar todos fora, quando eles ainda estavam em Genebra, ele não tinha sido assim, etc etc, mas ela nunca me deu nenhuma resposta completa, andava sempre de um lado para o outro, a trazer pratos para cá e para lá, a arrumar as cadeiras, a esfregar a loiça que já tinha sido lavada não uma, mas se calhar duas ou três vezes, e com isto passaram-se duas horas e os outros dois lá regressaram a casa, “isso é que é uma mota cheia de problemas” ironizei eu, a ficar cada vez mais saturada com tudo aquilo, a aperceber-me de coisas que nunca me tinha apercebido, cheguei ao ponto de já só querer vir para casa, trancar-me no quarto e chorar, não pela Belinha porque essa era um caso perdido, via-se que mais dia menos dia qualquer coisa de muito mau havia de se passar naquela casa, mas chorar por mim porque a certeza de que o meu marido era maricas era cada vez maior, e se de facto a mota poderia estar mesmo cheia de problemas, então como explicar que no dia seguinte, depois de chegarmos a casa e eu ter ido lavar a roupa, os slipes do Joaquim tinham aquele cheiro azedo, tu sabes mana, e ele que não me toca dessa forma há se calhar um ano, que vergonha, que vergonha, desculpa estar-te a contar com estes pormenores todos, mas não aguento, não aguento, isto é demasiado para mim.
E então, dois dias depois do ano novo desaparece o Joaquim, assim sem mais nem menos. É óbvio que ao fim de uma semana lá perdi algum pudor e liguei ao Joca, contei-lhe o que se tinha passado, que ele me dissesse onde estava o meu Joaquim, que eu sabia que ele sabia. Mas aparentemente não sabia, ficou tão perturbado quanto eu andava perturbada há uma semana, disponibilizou-se logo para tudo e mais alguma coisa, aquele cabrão de merda, insistiu que fôssemos à polícia e só depois de o ameaçar que contava à mulher dele que andava a comer o cu do Joaquim é que o demovi dessa ideia que sempre me parecera tola. Ir à polícia. Para depois todos os portugueses aqui na Suíça saberem do caso, sabe-se lá as coisas que não haviam de começar a dizer, sei lá agora com quantos homens ele não esteve desde que para cá viemos, e tu sabes que basta um segundo para as coisas virem todas ao de cima. E logo aqui, com esta gente que se conhece toda. Não, não, não estava para levar com tudo isso, e acima de tudo queria proteger o meu filho que até hoje não sabe de nada dos desvarios do pai.
Mete-se Fevereiro, há mais de um mês que não sabemos nada dele, o João anda visivelmente triste e consternado, e eu, como mãe, devia saber lidar com a situação, saber o que lhe dizer quando as palavras entre nós se esgotam às refeições, ser mais assertiva e verdadeira, falar com ele como o miúdo de dezassete anos que ele é, mas não, só me sai que “tudo vai ficar bem”, que “o pai vai aparecer mais dia menos dia”, que “isto é só uma fase, ele precisou de ir espairecer algures por aí”. E então obrigo-o a continuar a ir às aulas todos os dias, eu mesma regressei ao trabalho, não podia simplesmente ficar em casa à espera que tudo se resolvesse, que o meu marido aparecesse em casa por magia, me pedisse desculpa pela ausência, que tinha sido uma parvoíce, que a partir de agora tudo ia correr bem e que sairíamos da situação os três mais fortes do que nunca, uma família unida, uma família feliz.
Evidentemente isso nunca aconteceu. Nem acontecerá.
Foi há uns dias que me apareceu o João em casa aos gritos, exaltado, eu mal o conseguia perceber, as frases saíam-lhe da boca de uma forma quase impercetível, “já sei onde está o pai, já sei onde está o pai”, e isto tudo no meio de lágrimas, não sei se de alegria ou se de comoção, a excitação era tanta, e eu sem dar conta do que se estava a passar, “mas o que estás para aí a dizer”, e ele sem se conseguir explicar, andava de um lado para o outro, parecia um doido, dizia que tínhamos de ir já para Sion, “mas fazer o quê?”, e ele “já para Sion, já para Sion”. Desesperada, peguei nas chaves do carro e meti-me a caminho com o João, e isto tudo sem perceber bem o que lá ia fazer, quitei de lhe perguntar, esperei que ele se acalmasse e só ao fim de uma hora, lembro-me bem porque entrámos no carro eram oito em ponto e quando ele começou a falar o relógio marcava as vinte e uma, é que ele lá se explicou, tinha encontrado o Jeremias, o patrão do Joaquim, que lhe perguntou se o pai continuava bem, se ainda se mantinha resoluto em não regressar a casa, e o João sem nada perceber, “mas como sabe que ele anda desaparecido?”, e o Jeremias aí entendeu que nem a gente sabia do seu paradeiro. Não sei se por maldade (por eu nunca ter tido a coragem de lhe dizer vis-à-vis que não sabia do meu marido), se por compaixão pelo João, contou-lhe tudo o que sabia.
Vou dispensar-te os detalhes, mana, há aqui coisas que bradam aos céus, e se eu aguentei aquela noite, então estou pronta para a morte mais dolorosa que o diabo possa conceder para mim. Parece, então, que o Jeremias soube de tudo por intermédio do Joca, sim esse mesmo, que lá acabou por descobrir onde estava o Joaquim e nunca se dignou a ligar para nós, a contar tudo o que se passara, compreendo que não o fizesse por mim depois da forma como tinha falado com ele daquela última vez por telefone, mas então não o poderia ter feito pelo João? Não tem ele também filhos para saber do sofrimento e da apreensão destes para com os pais? Ou será que também trata os filhos como trata a mulher, abaixo de animais?
Então o Joca contou ao Jeremias que tinha dado qualquer coisinha ao Joaquim, que se lhe tinha dado um chelique na cabeça e que se pôs para aí a vagabundear até que se estabeleceu numas barracas quaisquer em Sion com mais outros sem-abrigo. Que ele mesmo, o Joca, o interpelara mas que já não o reconhecia. Ou fingia não o reconhecer.
As barracas, essas, não foram difíceis de encontrar. Sion é uma vila pequena e o Jeremias tinha dito ao João que se viam da ponte que a atravessa. Ficam por trás dum batimento que se estende desde a rua principal da vila até uma zona mais recatada onde se podem ver algumas hortas cercadas por arame farpado. Nalgumas delas lá está pendurada a bandeira portuguesa, umas vezes ao contrário, outras vezes de cabeça para baixo. Mas se não fossem as bandeiras, seriam as chus portuguesas a denunciar a nossa presença por ali. E se te conto tudo isto é porque toda a situação e todo aquele momento me puseram num estado tal que a única coisa em que me conseguia focar era nas cenouras e nas hortaliças que abundavam e floresciam naquelas hortas, eu que de tempos a tempos lá insistia com o Joaquim para mudarmos de casa, uma com um quintalinho para podermos plantar as nossas coisas, não precisava de ser batatas ou grandes plantações de alfaces, bastava-me aquelas coisinhas mais simples, uma salsa, uns coentros, uma hortelã, que mesmo que nasça apenas no verão quando o frio dá tréguas, já seria o suficiente para eu ficar contente. Mas o Joaquim sempre muito austero com as contas e as poupanças não embarcava nesses sonhos de querido mudei a casa.
O Joaquim. Não foi difícil encontrá-lo. Foi até demasiado fácil. Toda a zona das hortas alinhada com as barracas estava bem iluminada por uns quantos holofotes que cobriam toda a longura desses terrenos, contrastando com a escuridão cá em cima, junto à ponte, os suíços à noite não gostam muito de gastar luz nas ruas.
Apesar da hora tardia e do frio lá fora, via-se um pequeno grupo de mal-vestidos encardidos pela falta de banho junto às barracas, todos em silêncio, cada um deixando-se olhar pelos outros, com uma lata de cerveja na mão e uma garrafa de vinho que passava entre todos. Afastado desse convívio mudo, sentado e encostado a um desses barracões de metal, estava o Joaquim. Não precisei de muito para o reconhecer. A barba e os cabelos longos haviam-lhe crescido incessantemente e cobriam-lhe quase por inteiro toda a pele da visagem, mas os olhos continuavam a descoberto e isso bastou-me para reconhecer o homem com quem dormi na mesma cama durante os últimos vinte anos. Embriagado pelo frio, porque que eu tivesse dado conta não via nenhum lata ou garrafa junto a ele, o Joaquim, se é que ainda lhe podia chamar assim, já não era o Joaquim. O seu olhar, ainda que fixamente pousado nalguma das hortas que se avistava à sua frente, denunciava uma ausência e uma abstração de morte. Se não fosse o ligeiro tremor dos pés que conseguia descortinar de lá de cima, diria que ele tinha congelado ali mesmo, e foi precisamente aí, nesse instante de aflição e de pena que percebi que perdera para sempre o homem da minha vida. E assim tenho vivido, nesta inquietação e desespero, desde essa noite de fevereiro até ao dia de hoje em que finalmente resolvi contar-te tudo.
Mas, ai mana, e deus me perdoe de eu dizer isto, até me custa escrever, mas prefiro vê-lo debaixo da ponte maluquinho do que maricas aos beijos com um homem por aí. Podíamos bem ter sido uma família normal, decente, o João daqui a nada vai fazer os seus dezoito anos, vai ficar um homem, na verdade ele já é um homem, desde aquele dia em que ambos vimos o Joaquim da ponte que ficámos mais unidos, ele agora conta-me coisas que nunca me contava dantes, sinto que ele sente que deve ocupar o lugar vazio deixado pelo pai, já só fala em acabar a École des métiers e começar a trabalhar, eu insisto que ele deve continuar a estudar, mas já nada o faz demover da ideia de ir começar a ganhar dinheiro, nisso o pai deixou-lhe um bom legado.
Gostava que tudo tivesse sido diferente. Mais quinze anos e poderíamos começar a pensar em voltar para aí, as poupanças que temos e que faríamos até lá sobejariam à larga para podermos finalmente descansar e viver no sítio que gostamos e com que gostamos. Porque às vezes tudo isto aqui é tão triste. E agora, sem o Joaquim, tudo à minha frente é um campo minado de incertezas, talvez regresse mais cedo, talvez fique mais tempo, não sei, mana, uma família lacerada por tão grande arrombo jamais se poderá recompor, e ainda por cima sendo tão poucos, somos só dois agora, o Joaquim já não está, não estará. A pouco e pouco começo a mudar algumas fotografias das molduras, não suporto mais ver os olhos do Joaquim nos retratos, lembro-me logo daquele olhar perdido debaixo da ponte a mirar as hortas que se afundavam junto àquele terreno lamacento de sem-abrigo, quiçá mirando apenas a bandeira portuguesa, pode ser que algum dia as cores vivas que a compõem o façam voltar a si mesmo e a lembrar-se de quem é, da pessoa que sempre foi, casado com uma mulher, pai de um filho, homem de uma família respeitável e de bem. Era só isso que eu queria. É só isso que eu peço. Mais nada.
2020 EM REVISTA
17 DE JANEIRO DE 2021

Apesar de 2020 ser marcado pelo ano em que diariamente nos concentrámos no número de infetados, número de mortos, número de testes, número disto e número aquilo, é também o ano em que se comemorou o centenário do nascimento de Amália Rodrigues.
É possível que, devido à pandemia, as comemorações tenham ficado aquém do que se deveria ter feito para celebrar a cantora portuguesa que imortalizou o Fado na sua voz, reinventando-o, construindo-o à sua maneira e exportando-o lá para fora.
Reinventando-o porque é com Amália que as cantadeiras passam para a frente do palco e deixam de ser meros fantoches dos violas e guitarristas.
Construindo-o à sua maneira porque é com ela que o Fado deixa de ser faduncho e passa a cantar grande poetas. Nesta transformação é fulcral o papel do compositor Alain Oulman que produziu e compôs os álbuns Busto (1962) e Com Que Voz (1970), que marcam definitivamente a transição para um Fado liricamente, mas também musicalmente, mais rico e complexo.
E, finalmente, exportando-o lá para fora porque Amália foi a primeira grande embaixatriz da música nacional por esse mundo fora: Estados Unidos, Rússia (então União Soviética), Japão, Roménia, França, entre muitos outros. Este acesso ao mundo lá fora, em plena ditadura, é, em grande parte, devido ao Estado Novo, que utiliza o Fado e a voz única de Amália como instrumento de propaganda do regime no estrangeiro, onde cada vez mais se olha para Portugal como um anacronismo.
Põe-se então o 25 de Abril e a visão que muitos têm de Amália é a seguinte: uma cantora colaborou ativamente pelo regime, servindo-o, tendo até sido acusada de colaborar com a PIDE e, inclusive, de ter estado diretamente envolvida no assassínio de Humberto Delgado.
O PREC foi muito injusto para com Amália e nele marcaram-se feridas na fadista que iriam perdurar até ao ano da sua morte em 1999.
Volvidos vinte e um anos após a sua morte, e no âmbito do centenário do seu nascimento, eis que surge o livro Amália - Ditadura e Revolução, um trabalho de investigação jornalística de Miguel Carvalho e que tem como objetivo clarificar muitas pontas soltas referentes à vida de Amália é à sua relação com o Estado novo, mas também com o Portugal democrático nascido da revolução dos cravos.
Este poderá ser um dos melhores livros que o ano de 2020 nos trouxe, não só porque o trabalho de investigação do jornalista é sério, mas também porque dele resulta um livro de uma leitura fluída e muito agradável, até porque o autor parece incluir-se no “jornalismo lírico”. No início do livro justifica a sua investigação da seguinte forma:
Continuo a acreditar que o jornalismo pode e deve contribuir para uma aproximação à verdade. Uma verdade, ao mesmo tempo, simples e complexa. E se algo se pode concluir acerca de Amália Rodrigues é que ela nunca correspondeu a outra entidade coletiva que não fosse o povo português.
Recolhendo depoimentos de dezenas de pessoas que direta ou indiretamente conviveram com Amália, percebemos que a vida da cantora é bem mais complexa que a catalogação da Revolução lhe destinou. Se já é difícil acreditar que o mundo se pode dividir em fascistas e antifascistas, em Amália essa divisão é ainda mais obsoleta. Sim, é alguém que conviveu bem com o regime ou, melhor, com muitas pessoas influentes nas altas esferas do regime (não necessariamente com Salazar com quem teve uma ou duas interações pessoais), mas é também alguém que ajudou monetariamente muitas famílias de presos políticos e que conviveu abertamente com muita gente opositora ao regime. E Amália conviveu bem com a ditadura, é um facto.
Conservadora, educada numa família pobre de raízes rurais e temente a Deus, Amália não resistiria, em criança, ao apego afetivo e instintivo à figura idolatrada de Salazar, santo protetor da ordem, segurança e tradição. “A minha mãe, que não tinha 25 cêntimos para fazer a sopa, não se pode dizer que fosse fascista, mas eu, desde criança, ouvia: Salazar é que mana, Salazar é que manda, Salazar é que manda. Veio Salazar e gostei da sua figura, nunca pensei em mais nada.
Igualmente, conta-nos Miguel Carvalho:
“Você sabe que gostava muito do Salazar?”, desafiara em entrevista à Alcance. “Pois gostava mesmo. Isto é, gostava de Salazar como homem, como figura e como presença, porque politicamente não me interessava nada. A política é um mistério e uma complicação que não quero entender. Sou uma artista e todo o tempo é pouco para dedicar à minha carreira. O que não evita que, no atual Governo, também haja uma figura de que gosto imenso: gosto do Álvaro Cunhal. Gosto de o ver na TV, gosto de o escutar, gosta da sua presença.”
Parece ficar tudo explicado. Amália tem uma certa propensão para gostar de grandes figuras a quem confia os destinos do país, da nação portuguesa e do seu povo.
Posto isto, Miguel Carvalho detalha todos os relatos que conseguiu recolher de como Amália ajudava financeiramente sempre que alguém lhe pedia para famílias de presos políticos. Ela é, assim, mais do que alguém com uma certa visão política (que ela rejeitava ter; dizia não ter inteligência para a política), uma humanista que evidentemente não suportava o sofrimento dessas pessoas.
Ainda assim, a cantora (que recordemos não se limitou a cantar Fado) é claramente posta de parte no pós 25 de Abril. É altura dos cantores revolucionários. O Fado passa a ser considerado datado e ultrapassado e isso prende-se com a lírica e sonoridade fatalistas, coisa que muitos associavam à desejada alienação do povo por parte do regime salazarista. A Emissora Nacional (antecessora da RDP) olvida-a por completo, e a figura de José Jorge Letria, tal como descrita no livro, não fica nada bem na fotografia. Será apenas mais tarde, com o álbum Um Homem na Cidade (1977) de Carlos do Carmo (e todas as letras do eterno Ary dos Santos), que o Fado será resgatado dos despojos da revolução.
Miguel Carvalho lança então a questão-chave:
Se estes episódios [de insultos] se multiplicaram, por que razão nem Amália nem o PCP assumiram esta relação clandestina em democracia, sobretudo quando a cantora foi atacada por suposta colaboração com o salazarismo?
Não há nem nunca haverá uma resposta cabal a esta pergunta. Por parte de Amália, poderá ter sido por medo de rapidamente a virem contradizer, caluniando-a de mentirosa (coisa que o PCP seria hábil a fazer); por parte do PC, poderá ter sido por mero receio em mexer num tema sensível. Foi preciso esperar pela sua morte para o comunista José Saramago abrir a caixa secreta do PCP e revelar aquilo que alguns dentro do núcleo restrito do partido sabiam: que Amália “fez contributos para o partido comunista”, palavras do mesmo em 1999 em reação à morte da cantora.
A verdade derradeira é certo que ficará sempre por contar. Aliás, como as verdades de todos nós, seres inconstantes, inconsistentes e jamais definitivos.
“Quando fizerem a minha história e eu já não for viva para dizer como foi, então é que se vão fartar de inventar”, manifestara, resignada. “Mesmo falado por mim, muita gente dirá que não é verdade, que os boatos é que são a verdade. (…) sei que a minha história vai ser aquela que escolherem, aquela que é a mais interessante, aquela que não é a minha.”
O que no fundo poderia ser resumido nos dois seguintes versos do B Fachada, que parecem ter sido talhados a dedo para descrever a sina da maior voz que Portugal conheceu no século XX:
Quando eu morrer e for queimado /
Ainda vou ser o anti-fado

GRANDES ESTREIAS
23 DE NOVEMBRO 2020

Já aqui se falou do romance de estreia de Celeste Ng, Everything I Never Told You, publicado em 2014 e que venceu inúmeros prémios, merecendo a atenção de muitos jornais de crítica.
Três anos depois, Little Fires Everywhere surgiu como o seu segundo livro e do qual se esperava uma escrita mais profunda e mais densa, onde a tónica estivesse mais na análise das questões abordadas (e são muitas) do que propriamente no enredo em si, por vezes vezes básico e preguiçoso. Ser um page turner não é garante de sofisticação, ou, para ser mais snobe, de alta literatura.
Mas façamos uma breve comparação entre os dois romances.
Em ambos os livros privilegia-se as relações mãe-filha como mote para o desenrolar da ação. No primeiro livro, a história gira em torno de uma mãe deslumbrada com o futuro da sua filha do meio, tão cega com o que seu futuro poderá ser que nunca chega a questionar sequer se a própria filha não ambicionará coisas diferentes. Já em Little Fires temos duas mães, uma solteira, Mia, apenas com uma filha, e uma mãe casada, Mrs. Richardson, com duas filhas (mais dois filhos, apesar da relação mãe-filhos nunca ser verdadeiramente explorada no romance).
O estilo policial é semelhante: no primeiro romance há uma família a tentar perceber o aparente suicídio da filha; no segundo, há Mrs. Richardson, que é jornalista num jornal local, em busca dos segredos da sua inquilina (e também empregada de casa), Mia, e respetiva filha.
A forma como o tempo avança e recua é também similar nos dois livros. Aquilo que o narrador dá a conhecer aos leitores é, até certo ponto das histórias, fruto do conhecimento que as personagens do livro vão adquirindo entre si. Contudo, em ambos os romances, a dada altura o narrador tem de dar um grande salto atrás, munindo o leitor de muito mais informação, permitindo preencher certas lacunas no conhecimento que o leitor detém acerca das famílias que povoam o livro.
Em termos temporais, Everything situa-se na América dos anos 70, enquanto que em Little Fires temos a América do final dos anos 90, com a eterna referência à mancha no vestido azul de Monica Lewinski, um preferido dos escritores norte-americanos (quando visitámos A Mancha Humana de Philip Roth, o caso Clinton também lá estava, embora de uma forma menos histórica, mais literária). Em ambos, Ohio é o estado americano onde a ação se desenrola, tomando especial importância o local da ação no segundo romance, que se situa na cidade de Shaker Heights, the first planned community, the most progressive community, the perfect place for young idealists.
Entre o tempo do primeiro livro e o tempo do segundo há uma clara evolução nas questões feministas da América, e creio que a autora se esforçou para deixar isso bem claro. Enquanto que nos anos 70 a mãe fica em casa (contrariada) a cuidar dos filhos, em Little Fires Mrs. Richardson regressa sempre ao trabalho depois de ter tido cada um dos quatro filhos:
A part of her wanted to stay home, to simply be with her children, but her own mother had always scorned those women who didn’t work. “Wasting their potential,”, she had sniffed. “You’ve got a good brain, Elena. You’re not just going to sit home and knit, are you?” A modern woman, she always implied, was capable – nay, required – to have it all.
Parece, então, que volvidos dois livros, Celeste Ng assentou numa mesma fórmula que virtualmente resulta, mas que teremos de esperar mais um ou dois romances para perceber se não se torna monocórdico.
Concentremo-nos agora apenas em Little Fires Everywhere. Temos uma família tradicional, os Richardson: a mãe, jornalista num jornal local, o pai, advogado, e os quatro filhos, todos no liceu, com 14, 15, 16 e 17 anos.
Mrs. Richardson, Elena é o seu nome de solteira, é, não só a personagem mais completa, como também a mais convincente. Idealista enquanto jovem, depois da universidade (college) deixou-se deslumbrar com o conforto que as famílias da classe média-alta americana gozam.
(…) almost two decades later, well settled in their careers and their family and their lives, as he [Mr. Richardson] filled up his BMW with premium gas, or cleaned his golf clubs, or signed a permission form for his children to go skiing, those college days seemed fuzzy and distant as old Polaroids. Elena, too, had mellowed: of course she still donated to charity and voted Democrat, but so many years of comfortable suburban living had changed both of them.
A outra família central no romance é mais reduzida, Mia e Pearl, mãe solteira e filha de 15 anos, que vão viver para uma casa alugada pelos Richardson. Mia é artista, vende as suas fotografias a uma galeria em Nova Iorque, mas o que consegue delas não é suficiente para sobreviver mais a filha. O resto do dinheiro vem de trabalhos em restaurantes e, durante a ação do livro, em limpezas na casa dos Richardson. Afinal, Mrs. Richardson, com uma dose cavalar de condescendência, acreditava que Mia deveria ter tempo para se dedicar à sua arte sem ter de se distrair com outros trabalhos, oferecendo-lhe então trabalho em sua casa.
“Is any of your work for sale?” she asked.
(…)
“Well, I’d love to buy one,” Mrs. Richardson said. “In fact, I insist. If we don’t support our artists, how can they create great work?”
“That’s very generous of you.” Mia’s eyes slid toward the window briefly, and Mrs. Richardson felt a twinge of irritation at this lukewarm response to her philanthropy.
E, oitenta e duas páginas depois, passadas semanas, talvez meses, lá estava Mrs. Richardson a remoer aquilo que lhe parecia ter sido desprezo pela sua generosidade:
She thought again of Mia’s disaffection when she’d offered to buy one of Mia’s photos.
Aliado a isto, temos o cinismo, a certeza de superioridade e o desprezo pelo estilo de vida levado por Mia, o ultraje na forma como vive com a filha – apenas o seu estilo de vida e o da sua família servem de exemplo.
The array of pillows that passed for a couch, the half-open door to Mia’s bedroom, where a mattress lay on the carpet. It was such a pathetic life, she [Mrs. Richardson] thought; they had so little.
Sendo este um dois eixos principais do romance, o antagonismo entre Mia e Mrs. Richardson, não podemos esquecer o outro eixo que suporta grande parte da história do livro. Mia, além de trabalhar para os Richardson, faz também umas horas num restaurante asiático onde conhece Bebe, imigrante chinesa nos Estados Unidos, e que havia engravidado. O pai da criança abandonara-as e num descuido dos serviços sociais americano, Bebe não é devidamente acompanhada, ficando na miséria, sem ter sequer dinheiro para as fraldas da filha. Resolve então abandonar a bebé que acaba por ser resgatado pelos serviços de adoção e posteriormente entregue a um casal da classe média-alta de Shaker Heights, íntimo dos Richardson. Contudo, meses depois, Bebe, restabelecida da gravidez e com um trabalho estável, resolve recuperar a sua filha e é através de Mia que sabe onde ele se encontra.
As cenas que se seguem são as habituais: há um advogado que voluntariamente decide defender Bebe e levar o caso para tribunal, há a comunicação social a encobrir todo o caso, e há uma polarização brutal da comunidade: uns que reconhecem que a filha de Bebe deverá ser entregue à mãe (e fiquemo-nos pela definição de que “mãe” é quem dá à luz) e outros que não veem legitimidade para reaver a criança que abandonara.
O caso segue então para tribunal e o tema é abordado de forma superficial e muitas vezes sem a profundidade que um escritor mais engagé lhe daria. Sente-se aliás muitas vezes o resvalo para os clichês, principalmente durante a audição no tribunal, tratada de uma forma minimalista. Talvez a parte mais interessante surja nos comentários de Mrs. Richardson que vão surgindo ao longo dos capítulos, e que muitas vezes conseguem arrancar uma gargalhada ao leitor:
“It’s just like raising any other child, I should think” (…) “Why on earth would it be any different?”
“Honestly, I think this is a tremendous thing for Mirabelle. She’ll be raised in a home that truly doesn’t see race. That doesn’t care, not one infinitesimal bit, what she looks like. What could be better than that? Sometimes I think (…) that we’d all be better off that way. Maybe at birth everyone should be given to a family of another race to be raised. Maybe that would solve racism once and for all.
É talvez uma ideia idílica, prosaica, utópica certamente. Mas a questão em jogo, tanto ou mais do que racial, é uma questão de classe. Quem tem ou não mais dinheiro para poder cuidar de uma criança, e essa é a questão que em última análise decide quem ficará com a criança.
Finalmente, cabe dizer que Celeste Ng tomou um lado interessante ao longo do julgamento e de tudo o que o antecedeu: o lado neutro. Não consigo descortinar um lado que tenha sido privilegiado, pois se num dos lado temos a mesquinha Mrs. Richardson a defender os seus amigos, no outro temos a descrição crua de como Bebe abandonara a sua filha num rígido dia de inverno.
O outro tópico que ocupa as quase quatrocentas páginas deste romance tem que ver com o passado de Mia, passado esse que nem a própria Pearl de quinze anos conhece, o que, na verdade, confere um certo tom de realidade à história: os segredos que atravessam as famílias e os silêncios que ocupam certos espaços.
É esse passado que Mrs. Richardson está determinada em descobrir após Mia ter apoiado Bebe ao longo de todo o processo para reaver a criança, coisa que enfureceu Mrs. Richardson. É nessa veia “policial” do romance que Ng muitas vezes toma a escrita de uma forma preguiçosa. Mrs. Richardson tem sempre algum conhecido dos tempos da universidade que a ajuda a descobrir os contactos e as ligações que precisa de conhecer. Ora o amigo que subiu na carreira e agora trabalha no NYT, ora a amiga com um consultório em Shaker Heighs, e de cuja base de dados (privada) precisa de consultar.
Para além disso, Celeste Ng padece de um tique comum a muitos escritores, que é de constantemente eternizar atitudes ou comportamentos das personagens para lá do limite a que a história vai, terminando frases, parágrafos e capítulos como se terminam contos:
For years afterward, she would sometimes wake in the night (…) thinking she’d heard that agonized cry again.
Even years later, she would never be able to answer this question to her own satisfaction.
For years afterward, Mia would spot a yellow house as they drove by (…)
That last night, (…) she began to think, as she would for a long time, of her youngest child.
She thought, as she would often for many years, of the photograph of that day.
Alguém que lhe(s) diga que estes truísmos fatalistas apenas tornam a escrita mais amadora, para não dizer infantil. Nesse sentido, é bom que Ng se corrija. Afinal, a corrida dos futuros grande mestres já começou.
****
No Goodreads a crítica Julie Ehlers teceu duras críticas ao romance, em particular argumentando que os clichês associados aos subúrbios abastados não são tão claros quanto aquilo que Ng faz parecer. Mas será que é mesmo assim? Porque a verdade é que os Richardson existem mesmo, seja na América dos anos 90, seja na América de hoje. Votam sempre democrata, apoiaram Obama e foram fervorosos apoiantes de Clinton em 2016. E em especial elas, as mulheres, que se juntam em clubes, que admitem que os seus maridos têm casos com as secretárias, que assumem que “isso faz parte”; as suas filhas namoram afro-americanos (a filha mais velha de Mrs. Richardson também), a cor de pele não é um problema para elas.
E se há dúvidas quanto a isto veja-se como votou Shaker Heights nestas últimas presidenciais americanas:
https://patch.com/ohio/shakerheights/how-did-shaker-heights-vote-2020-presidential-election
ou como as mulheres dos subúrbios ricos das grandes metrópoles foram decisivas para a eleição de Biden:
https://www.letemps.ch/monde/joe-biden-president-elu-femmes-banlieues-americaines
Finalmente, um comentário em relação à mini-série deste ano baseada no livro e que surpreende na habilidade como consegue cativar a viciar mesmo quem tenha lido o livro. Ainda que esses tais clichês sejam bastante mais acentuados na série, o que pode provocar algum desconforto num espetador mais exigente, não deixa de ser uma boa surpresa!

GRANDES MESTRES
15 DE SETEMBRO 2020

Na minha primeira Festa do Avante discuti com um senhor junto ao pavilhão da Madeira (ou se não foi lá ao pé, estava a ir para lá mais uns amigos para comer bolo do caco) sobre aquilo que ele chamava de literatura burguesa. Nunca tinha ouvido tal conceito, na Festa do Avante não faltam literatos, durante a tarde já com outro senhor havia debatido os Planos Quinquenais de Estaline e a transição para a liderança de Kruschev (não queiram saber a sua opinião).
Dizia-me o primeiro que faziam parte da literatura burguesa Eça e Camilo; na do povo, que eu me lembre, já passaram alguns anos, referia-se apenas a Aquilino. Não mencionou Saramago, talvez porque estivesse implícito, afinal estávamos na Festa do PCP.
Na altura achei aquilo absurdo, argumentei que a política não se deve imiscuir na literatura dessa forma (mas pode fazê-lo de outra), que o virtuosismo de um escritor não se mede pelas classes sociais que descreve nos seus livros, e que um escritor não pode ser considerado menor só porque concentrou a maioria das suas novelas nos palacetes e nas grandes casas das gentes finas da capital enquanto no resto do país há uma maioria a chafurdar na merda – ora sob o poder de uma monarquia constitucional incapaz, ora depois por uma república incapaz, ora ainda depois por uma ditadura rural, austera e, claro, incapaz. Os regimes iam mudando em Lisboa, mas no resto do país se alguma coisa mudava era para pior, “dez mil anos de patrões a comerem-te os colhões, que estrutura social, é normal” (B Fachada).
E isto leva-me ao livro deste mês, Levantado do Chão, quarto romance escrito por Saramago, terceiro publicado. O pano de fundo é um latifúndio no Alentejo, mais concretamente em Monte Lavre, freguesia de Montemor. A história acompanha a família dos Mau-Tempo ao longo de várias gerações, começa-se ainda no tempo da monarquia e termina-se já depois de Abril de 74, aquando do início das ocupações agrárias. Como o apelido da família indica, não se trata de lavradores nem de latifundiários, antes ceifeiros, corticeiros, porqueiros, debulhadores. Mas, mais do que tudo, trata-se de uma família de gente pobre, muito pobre, muita fome, muita miséria, independentemente da geração ou do regime político que vigorava na capital, cidade lá tão longe
Neste latifúndio alentejano, onde a aridez e a secura da paisagem fazem lembrar As Vinhas da Ira, há sempre a sensação de repetição, de que não se sai do mesmo sítio, que, apesar do tempo passar lá fora, cá dentro as pessoas envelhecem, morrem, e outras nascem, mas sempre na mesma rotina esgotante e sofredora, de quem sabe que se não se levantar antes do sol nascer e chegar já depois de se ter posto, não tem pão para dar aos filhos. E a verdade é que o tempo lá fora passa. Para nos situar no tempo, o narrador saramaguiano vai-nos dando pistas do que se passa no país e no mundo, a chegada da república, a guerra civil espanhola, o atentado contra Salazar (1937), a segunda Grande Guerra, o apoio do povo a Delgado, as eleições fraudulentas de 58 e as manifestações que se seguiram (há referência ao assassínio de José Adelino dos Santos durante uma dessas manifestações).
É também neste latifúndio que certos trabalhadores se começam a indignar pelas condições de trabalho, a ganharem consciência de classe e a levantarem-se do chão. Alguns chegam mesmo a participar em reuniões clandestinas, mas sempre no abstrato, nunca há referências explícitas ao partido comunista português. Há somente referências em geral aos “comunistas”, aos “vermelhos” e “aos de Moscovo”, sempre em tom de insulto, da boca dos guardas, dos inspetores e do padre Agamedes, personagem que neste livro representa a igreja católica portuguesa, conservadora e aliada natural do regime. E essa é também uma das belezas do livro e da forma como Saramago escreve que é dizer sem nunca dizer. Há contudo referências explícitas à pide (sic), a Caxias, ao Aljube, à tortura da estátua – talvez aqui o escritor tivesse ganho em fazer mais um esforço para tornar essas referências implícitas, mas, sejamos honestos, não é esse o propósito do livro, e não há de ser esse pormenor que retira elegância ao romance.
Elegância essa que se manifesta até nos capítulos mais duros, vejamos o caso do interrogatório seguido de espancamento de um homem acusado pela pide. Toda a cena é relatada de baixo para cima sob o ponto de vista de um carreiro de formigas, o que é um risco enorme pois pode passar de uma cena com uma carga emocional tão grande para uma mera criancice, há uma corda muito débil a segurar o jogo de palavras. Evidentemente que Saramago não caiu, não se desequilibrou sequer.
Agora mesmo caiu um dos homens, fica ao nível das formigas, não sabemos se as vê, mas veem-no elas, e tantas serão as vezes que ele cairá, que por fim lhe terão decorado o rosto, a cor do cabelo e dos olhos (…) e de tudo isto mais tarde se farão grandes conversas no formigueiro para ilustração das gerações futuras, que aos novos é útil saberem o que vai pelo mundo.
Caiu o homem outra vez. É o mesmo, disseram as formigas, tem o desenho da orelha, o arco da sobrancelha, a sombra da boca, não há confusão possível, porque será que é sempre o mesmo homem que cai, então ele não se defende, não se bate.
E pelo tempo ali o deixaram ficar, uma formiga se lhe agarrou à roupa, quis vê-lo de mais perto, a estúpida, vai ser a primeira a morrer, porque no preciso lugar onde agora está cai a primeira cacetada, a segunda já não a sente, mas sente-a o homem, que, com a dor, não ele, mas o estômago lhe salta, e outra vez se derruba, em ânsias, é o estômago, o violente coice em cheio ou patada e outro logo a seguir nas partes, palavra de tão comum que não ofende os ouvidos.
Se este é apenas o quarto livro de Saramago, não se nota qualquer imaturidade. O narrador que encontramos mais tarde em Memorial do Convento, Caim, e por aí fora, já se encontra bem sólido e desenvolvido. Falamos pois claro do narrador irónico, cómico, sarcástico, pedagógico, e tudo isto sempre ao mesmo tempo.
Que é um machuco, Um machuco é um chaparro novo, por aqui toda a gente sabe, E um chaparro, Um chaparro é um sobreiro novo, ora essa, Então um machuco é um sobreiro, Pois não se estava mesmo a ver, Ah
Aqui é que eu nunca vim, mas tenho cá família, um primo da minha cunhada, que é barbeiro, vai-se governando, estavam bem arranjados se não crescesse a barba aos homens, é como as putas, se a picha não crescesse.
E, claro, um narrador sempre, sempre, anti-clerical.
Há muito tempo que os anjos não se divertiam tanto, os santos fazem suaves preleções sobre plantas e animais, já a memória lhe falha pouco, mas ainda vão dizendo como cresce o trigo e se coze o pão, e que do porco tudo se aproveita, e que se queres conhecer o teu corpo abre o teu porco, porque iguais são. A afirmação é ousada e herética, põe em causa os escrúpulos do criador, que, não sabendo que mais inventar, tendo de fazer o homem repetiu o corpo, mas tanta gente o diz, verdade será.
Voltemos ao senhor da Festa. Se é certo que o seu ponto de vista é injusto porque condena à menoridade autores sublimes como Eça e Camilo, também é certo que livros como Levantado do Chão apenas poderiam ter sido escritos por um autor com uma sensibilidade e um olhar único sobre as desigualdade e injustiças sociais. É certo que muitas vezes com um caráter militante, a teoria marxista está lá e só não a vê quem não a conhece, mas nunca sendo panfletário. Aliás, os livros de Saramago, não só este em particular, antes de militantes, são humanistas. Como disse o próprio Saramago, este é “um livro que quis aproximar-se da vida, e essa seria a sua mais merecida explicação”. E nós, conhecedores da língua portuguesa, só devemos é estar gratos por podermos ler as obras que este Grande Mestre nos deixou.

VIAGEM
24 DE AGOSTO 2020

A família da Joana nunca tinha andado de avião. Não que tivessem medo desse meio de transporte tão grande e barulhento, que às vezes passava por cima da vila onde viviam e fazia estremecer os móveis e as portas. Não que fossem avessos a essa forma de locomoção que em tempos pertencera exclusivamente aos mais abastados; não, isso não poderia ser impeditivo, pois o pai da Joana conhecia gente da empresa que ganhava o mesmo que ele e que já viajara de avião com as suas famílias. Era antes um provincianismo patológico misturado com o sentido de poupança, nunca se sabe o que aí vem, os nossos pais também nos deixaram qualquer coisinha e vamos fazer o mesmo com a nossa filha.
Mesmo de carro, a família nunca se tinha afastado muito do seu centro de vivência. Tinha havido umas férias no Algarve (mas antes da crise, claro), um fim-de-semana na Figueira da Foz quando o primo da Joana se tinha casado, e um ou outro passeio pontual, de um dia apenas, por ocasião de algumas festas importantes. De resto, até ir para a universidade, a Joana apenas se lembrava de passar as férias em casa, a ver televisão com a mãe que ficara desempregada há uns anos e que de lá para cá cuidava da casa, da horta e das galinhas.
Assim, tal como a maioria dos portugueses, a Joana não percebia nada da vida de hotel, o check-in, o check-out, as toalhas que podiam ser trocadas todos os dias, a cama feita por alguma mão invisível, os pequenos-almoços que se assemelhavam na quantidade aos jantares de Natal. Muitos desses pormenores eram contados pelos pais das poucas viagens que haviam feito quando a Joana ainda era pequena ou até antes dela nascer, nesse curto espaço de tempo que decorreu entre o casamento e a gravidez da mãe. As histórias eram sempre as mesmas e os pais repetiam-nas de tempos a tempos como é usual nas pessoas que, por terem pouca diversidade nas vivências, estão sempre a repetir os mesmos acontecimentos ao ponto de se tornar insuportável ouvi-los. Isso mesmo acontecia com a Joana às vezes quando a mãe insistia em contar a história do secador. “Nos hotéis não há secadores de cabelo nos quartos, tem de se pedir um na receção, senão, pronto, lá está, as pessoas vão roubá-los. Uma vez, em Leiria com o teu pai, lembro-me como se fosse hoje, pus o secador na mala de viagem sem querer. Já íamos quase na Bata”. “Mãe, já sei, lembraste-te e depois voltaram para atrás, assustados que vos iam à conta, o pai a gritar contigo”. “Ah, já te tinha contado.” Mas isso não a impedia de continuar e a Joana continuava a fingir que ouvia, estoicamente a acenar com a cabeça e a esboçar um sorriso desinteressado.
Esta carência de viagens era tal que o simples dia em que foram deixar a filha a Lisboa, depois de ter entrado na universidade, tenha entrado para a lista de viagens. E, ó, se não havia histórias memoráveis para serem repetidas no futuro. Ao engano, entraram num restaurante mais caro do que o que estavam habituados. Setenta e três euros a comida para os três. A Joana ainda se lembra da vergonha que sentia ao ouvir o pai reclamar da conta, mas apenas o fazia entre os três, com o garçon era risos e sorrisos, a comida estava ótima, do melhor que há aqui na zona, vamos cá voltar. E depois, como se não bastasse, ato contínuo, sem hesitações, o pai a desembolsar o dinheiro em notas vivas do bolso da camisa, cartões é coisa que não existe, a Joana a notar a irridência dos comensais do lado, a baixar a cabeça como que para se esconder (e se é algum professor meu?). Ainda hoje, quando a Joana vai passar uns dias a casa, a história do dinheiro que deixaram na porcaria daquele restaurante vem à baila.
Foi então nesse primeiro ano da universidade que a Joana percebeu que as cidades que conhecia dos livros eram de facto visitadas por gente da idade dela. Muitos colegas enumeravam a lista infindável de capitais europeias que já tinham visitado, outros as férias nas estâncias de ski e ainda outros a viagem com os pais à Ásia, Vietname, Cambodja, Laos.
O leitor poderá agora pensar que nestes momentos a nossa Joana ficaria calada, a murmurar hum hum, por vezes suspirando um Uau!, mais raramente fazendo uma pergunta, “Então e o que é se comia lá?”, lentamente a separar-se dessas pessoas viajadas, se sair devagarinho não dão pela minha falta, mas se sair a correr também não lhes vais fazer moça, entusiasmados que estão a contar o fim-de-semana ou a escapadinha de outono. E a verdade é que Joana não ficava calada, não murmurava simples “hum hum”, nem se entusiasmava excessivamente com os passeios de camelo dos colegas. Mais raramente ainda perguntava “o que é que se comia lá” porque Joana sabia o que é que se comia lá. Os caris asiáticos, o donburi japonês, a ceviche peruana e, talvez menos exótico, as salsichas alemãs, o fondue suíço e o goulash húngaro.
Tudo isto Joana conhecia: dos livros. Muito cedo na escola os professores de língua portuguesa ensinavam que se pode viajar através dos livros. É uma manha que todas as crianças ouvem, mas que rapidamente esquecem, entra a cem, sai a mil, de tão pouco convincente que é, viajar através dos livros, não, isso não é verdade, os livros é que viajam connosco no banco de trás do carro, à frente os meus pais a discutir qualquer assunto sem interesse. Para Joana, contudo, essa frase inspiradora tornou-se regra e, como escasseavam os momentos de viagem na sua vida, não percebia que essa viagem era metafórica, mais filosófica do que física. Convenceu-se assim em criança que, se lesse muitos livros diferentes, poderia considerar-se uma mulher viajada. Esse exercício intensificou-se à medida que crescia, a escola primária, o segundo e terceiro ciclos, o liceu. Quando mais confinada em casa, mais livre se sentia no mundo, Hemingway levara-a a Paris, Dickens a Londres, London ao extremo norte.
Até que chegou à universidade e percebeu que esses sítios eram de facto visitados a sério por pessoas tão comuns como os seus colegas de curso. Se alguém falava com entusiasmo das ramblas de Barcelona, Joana comentava o ano de 1936, o início da guerra civil em Espanha e o entusiasmo anárquico e socialista nessas ruas largas do centro da Catalunha; lera portanto Homenagem à Catalunha de George Orwell. Se o tema de conversa era o Perú e os Andes, Joana perguntava em tom de gozo se os amigos tinham mascado a folha da coca para sobreviverem às grandes altitudes; sabia-o porque em História de Mayta Vargas Llosa lho ensinara. Se o destino havia sido algum dos palops, o conhecimento detido pela Joana dominava por completo. É que enquanto os amigos e respetivas famílias haviam ficado pelos resorts, Joana percorrera as ruas e os bairros de Angola e de Cabo Verde, o cheiro a cachupa a sair das janelas das casas, “então e alguém te chamou pula?” perguntava-lhes Joana, os crioulos corriam-lhe no sangue e os livros de Mia Couto ensinaram-lhe termos da língua chisena ou da língua tsonga, ini nkabe piva e suruma, mas ninguém entendia o que é que ela dizia, o que é que ela perguntava, “estás mesmo a falar do quê?”
Em muitas dessas situações, para não dizer em quase todas, o conhecimento de Joana, que era um conhecimento não presencial recorde-se, ultrapassava os factos que os colegas haviam aprendido durante as suas viagens. E isso dava-lhe um gozo enorme, pois não só se sentia integrada nesse grupo de pessoas internacionais, como, mais importante ainda, dava sentido à velha máxima que aprendera muito nova de que conseguimos viajar através dos livros.
E tudo isto levanta uma grande questão: qual o verdadeiro poder das viagens se no fim de contas há uma enciclopédia ou até mesmo um romance que nos ensina com mais detalhe e afinco acerca de outras línguas, de outros modos de vida, de outras gastronomias e culturas. Talvez há uns tempos esta pergunta não fizesse muito sentido porque a experiência da viagem era mais autêntica e aleatória, mas a verdade é que tudo agora se tornou mais programado e pragmático, sem espaço para a espontaneidade que é muitas vezes o motor do conhecimento. Antes de se partir já se sabe quais os restaurantes que se vai experimentar, o Tripadvisor diz-nos a quais devemos ir, o que devemos visitar, quanto tempo devemos por lá ficar.
Há uns tempos, li algures, não sei se é verdade ou não, que Chico Buarque nunca visitou Budapeste e, no entanto, o que é considerado para muitos como a sua Magnum Opus, situa-se nessa capital do centro-leste europeu. Não só ousou situar as suas personagens em ruas e praças por onde, alegadamente, nunca andou, como se aventurou a colocar o seu narrador a aprender a língua magiar. Como se preparou então Chico para a escrita deste romance? Certamente que não foi através de inspiração divina; provavelmente inspirou-se no método de Joana e seguiu à risca a máxima, que por esta altura quase virou teorema, que diz que se pode viajar através dos livros. Consigo imaginar o cantor e escritor fluminense sentado em sua secretária, a pilha de livros à sua esquerda mais alta que o seu tronco, uma enciclopédia da Hungria a servir de base aos romances de Imre Kertész e à poesia de um qualquer poeta sem tradução para português, edições provavelmente em inglês ou francês.
Atravessei a ponte pênsil em ritmo de jogging, dei numa praça grande com uma estátua ao meio, admirei rapidamente as fachadas neoclássicas, os balcões art nouveau, os arcos bizantinos, na terceira esquina respirei tabaco, chocolate, cebola, virei à direita, passei pela Kodak, pela Benetton, pela C&A, coretei caminho por uma galeria, virei à esquerda, Lufthansa, American Airlines, Alitalia, a agência da Air France ainda estava fechada.
No mundo pós-soviético não há risco deste parágrafo estar errado ou ser incoerente. Mesmo que a ordem não seja a correta, mesmo que lojas de roupa e viagens não convivam lado a lado, é difícil questionar este parágrafo que se adapta muito bem, não só a Budapeste, mas a muitas das cidades do mundo, a globalização tratou de fazer com que isso acontecesse, e provavelmente até o mais distraído habitante de Budapeste come a frase sem questionar a sua veracidade. O parágrafo acima é verdadeiramente muito generalista, mas há traços da cidade mais concretos ao longo do romance.
Naquele domingo eu pegava o metrô sozinho pela primeira vez e, ansioso, saltei em Újpest-Városkapu em vez da estação de Kriska, Újpest-Köszpont, que era a seguinte.
Em tempos de internet consigo imaginar Buarque a imprimir um mapa do metro da cidade, a colá-lo na parede do seu escritório. Há contudo detalhes ainda mais específicos, difíceis de imaginar que resultaram de meras pesquisas em enciclopédias online.
Fora da Hungria não há vida, diz o provérbio, e por tomá-lo ao pé da letra, Kriska nunca se interessou em saber quem tinha sido eu, o que fazia, de onde vinha.
Realidade eram os passeios na ilha de Margit com suas atrações domingueiras, os aqualoucos do Danúbio, as corridas de carneiros, as marionetas eslovenas, o coral de ventríloquos. Realidade eram as tertúlias no Clube das Belas-Letras, o dancing giratório no alto da Torre de Átila, os fins de noite em Óbuda, a velha Buda, os restaurantes de palha onde comíamos pizza crua. E a garrafa de vinho Tokaj que levávamos para beber no seu divã, ouvindo operatas húngaras.
Tudo isto parece sair de um mundo vivido e experimentado, e talvez seja esse um dos grandes truques dos escritores, fazerem-nos pensar que terão vivido todas as experiências que relatam, ou então, no máximo, conhecido alguém que por elas passou, um amigo de longa data, uma parceira ou um parceiro, uma noite num bar em que alguém falava alto sobre a sua vida no leste europeu. Mas o leitor tem de ser mais inteligente e não se deixar enganar por estes truques e malabarismos ortográficos. Assim como o leitor pode viajar através dos livros, o escritor pode inventar-se através deles, pegando nas pequenas peças de vários livros e juntando-as todas num só, que será seu novo livro, é assim que se faz literatura, viajando pelas bibliotecas, pelas livrarias e pelos alfarrabistas.

TECNOLOGIA

28 DE JULHO 2020
Numa das suas últimas entrevistas públicas, Agustina Bessa-Luís disse as seguintes palavras proféticas:
A literatura, mesmo literatura, está em vias de extinção. Vai ter uma necessidade de se ligar à ciência para poder continuar a existir e a ter o seu campo de reflexão aberto. Já tivemos cinco milénios de literatura, acho que é tempo de mudar.
Não sabemos se se referia às ciências sociais ou exatas, mas apostaria nas últimas uma vez que a literatura desde muito cedo tem andado de mãos dadas com as primeiras.
De facto, muitos ensaios sociológicos podem ser encarados como literatura, assim como na literatura propriamente dita encontramos retratos sociológicos, históricos, filosóficos. Certamente que a dada altura do seu desenvolvimento, parte das ciências sociais tornou-se mais exata, isto é, mais metódica, apesar de ainda não ser raro encontrar-se falta de clareza nos métodos de ensaios das ciências sociais. Basta abrirmos os nossos jornais de referência e deliciarmo-nos com os artigos de muitos dos nossos “cientistas sociais”. As aspas não servem de todo para denegrir toda a classe destes investigadores e pensadores, mas antes para alertar que nem tudo o que se diz ser ciência social partilha do mesmo rigor. O mesmo não se pode dizer das ciências exatas, onde o crivo é felizmente muito, mas mesmo muito mais apertado (salvo raras, muito raras exceções [1])
Se Agustina de facto se referia às ciências exatas, então certamente que também se referia à tecnologia que é consequência direta do progresso e evolução das primeiras.
Avanço uma teoria para aquilo a que Agustina se poderia referir: a escritora começa a perceber que a tecnologia está a avançar muito rapidamente (a entrevista mencionada acima é de 2013, altura em que, por exemplo, os smartphones já estão bastante vulgarizados entre nós) e, por outro lado, repara – com o seu entendimento ímpar e inato que é a nata dos seus livros – que a literatura atual não está a acompanhar esse progresso na medida em que não o reflete. E refletir o avanço da tecnologia na literatura é, nada mais, nada menos, do que incluí-la explicitamente na história que se está a contar.
Nos últimos livros atuais que tenho lido, tenho prestado alguma atenção aos detalhes da modernidade tecnológica que eles incorporam – ou que, por outro lado, rejeitam por omissão.
Essa rejeição pode ser devida ao facto de ser complicado incluir um smartphone, uma app, um chat – tudo palavras inglesas - de forma literária. Afinal, os grandes poetas sempre cantaram sobre os Deuses, o eterno, o Céu e o Inferno, deixando a literatura do dia-a-dia para os escritores menores. Poderá ser esta uma das razões que leva a que os escritores tenham alguma relutância em incluir os objetos físicos e abstratos da nossa tecnologia da primeira metade do século XXI nos seus livros, com receio de que o que escrevam pareça menor. O que eles se esquecem é que não são os elementos que incluem nos livros que os tornam mais ou menos banais, mais ou menos foleiros; é antes a forma como os incluem, como os escrevem, como os detalham.
Referirei agora algumas passagens de dois livros recentes, onde os autores parecem não ter medo de encarar o elefante na sala. Não serão certamente os únicos nem os primeiros a fazê-lo. Cito estes em particular simplesmente por coincidirem com dois livros que li recentemente.
Em “Essa Gente” de 2019, Chico Buarque retrata a já clássica história de um escritor em crise com o seu trabalho, duas mulheres que ficaram para trás, um filho com quem tem pouca ligação. A originalidade consiste na escrita tipo diário, não necessariamente com a cronologia sempre no mesmo sentido, com a sonoridade do português do Brasil, que, para um leitor de Portugal, sabe sempre a algo novo e refrescante. Logo nas páginas iniciais, encontrei pela primeira vez num romance a referência à Uber.
Já duas ou três vezes, da minha janela, tive eu mesma o desprazer de ver certas prostitutas — perdão, a palavra é esta, pois nem sequer poderiam ser classificadas como garotas de programa, escorts ou demais eufemismos — prostitutas saltando de um Uber para subir ao sétimo andar. São mesmo profissionais do mais baixo estrato, e não o digo por suas fisionomias, pois sou juíza federal e não tenho preconceitos de cor, mas pela manifesta falta de compostura com que se vestem e falam palavrões aos berros ao celular.

Na coletânea de pequenas histórias “Uma Ida ao Motel” de Bruno Vieira Amaral deste ano, encontramos muitas referências aos elementos físicos e abstratos que caracterizam a tecnologia presente nos dias de hoje. Graças à capacidade perspicaz de apreensão dos gestos e dos modos de vida das pessoas que o rodeiam, bem como ao léxico rico e pertinente de BVA, muitos dos contos são um autêntico retrato sociológico (lá está) da vida das gentes das classes média e baixa do nosso país. E, para o fazer, é verdadeiramente necessário não olvidar os chats, os gostos, as publicações e as selfies.
O coração batia com força e ela sorria nervosamente da excitação que o pudor, melhor que a lascívia, gera, a imaginar como seria o homem que só conhecia das mensagens trocadas no chat.
Na hora de almoço agarrava-se ao telemóvel, a ver o perfil, a pôr gostos numa ou noutra publicação, e acompanhava as colegas que fumavam.
«Um monumento. Podia organizar excursões só para lhe mirarem as nalgas, tirarem umas selfies. Ficava rica assim, ó, num instante»
Selfie não está a itálico. No priberam já podemos encontrar a palavra: masculino ou feminino para não gerar discussões previsíveis sem importância.

Resta agora analisar muito superficialmente os escritores atuais que continuam a situar as histórias dos seus livros em épocas onde é fácil não incluir o telemóvel, a internet ou aquilo a que hoje se chama, para designar não se sabe bem o quê, “o algoritmo”. No livro de estreia de Celeste Ng, “Everything I Never Told you”, a trama gira em torno de uma família americana dos anos 70 que perdeu recentemente a sua filha Lydia num possível suicídio. O romance é bem mais do que um policial, onde são tratados assuntos sérios como o suicídio em jovens, o racismo (o pai tinha ascendência asiática) ou o modo de vida das donas de casa americanas da classe média. O crítico Mark Lawson do Guardian [2] alertou-me (salvo seja) para o facto deste romance ser impossível nos dias de hoje, precisamente devido à evolução que ocorreu na tecnologia entretanto.
The choice of a 70s setting is an indicator of the damage that modern technology and ideological progress have done to the plotting options of crime writers. Ng’s narrative depends on Lydia having left little trace and misleading her parents about key friendships — feats nearly impossible since the advent of mobile phones and Facebook.
É verdade que muitos dos detalhes da investigação da morte de Lydia são incompatíveis com o que a tecnologia nos proporciona hoje (as redes sociais, o WhatsApp, os sms), mas será que esta veio mesmo prejudicar os escritores de policiais como sugere Lawson? Não deverão estes reinventar-se?

O problema reside precisamente no preconceito de que escrever um romance onde entre, por exemplo, o conceito de cibersegurança torna imediatamente a literatura mais fraca, remetendo o potencial romance para um livro de supermercado ou para a categoria de ficção científica.
Não se podia pensar de forma mais errada. A tecnologia vai continuar a evoluir rapidamente, a metamorfosear-se para coisas mais úteis e, em muitos casos, mais frívolas. O que é preciso é que os escritores saibam incluir os novos elementos nos seus livros, sem contudo perderem a literariedade. E quem o conseguir fazer será o grande mestre da escrita do futuro. É essa a lição de Agustina.
SONHOS
27 DE JUNHO 2020

“Are you sure
That we are awake?
It seems to me
That yet we sleep, we dream”
William Shakespeare (Midnight Summer’s Dream)
Deixei-me fechar os olhos por uns segundos, a sentir a brisa entrar pela janela e a deixar pequenas carícias na minha pele quente. Era um daqueles sábados preguiçosos e estava deitada na cama a tentar ganhar a força de vontade necessária para me levantar e ser produtiva. Mas era sábado, portanto fechei os olhos por um momento. Só não me podia deixar adormecer a sério - perderia a tarde e não conseguiria dormir de noite. Tinha sido uma semana de ansiedade, com reuniões e prazos quase impossíveis de cumprir. Em semanas como aquela o meu único pensamento era trabalho e parar não parecia uma opção. E estas semanas ocorriam com cada vez mais frequência. Às vezes perguntava-me… Aquela sensação de breve despreocupação aliada ao calor que me envolvia trouxe-me a sensação de estar em casa. Já não ia a casa há algum tempo. Era uma aldeia longe de tudo, e quando se é novo, quer-se tudo. Naquele momento, com os olhos fechados, imaginei-me de volta e senti o conforto do lugar que me conhecia desde criança. Costumava deitar-me na relva, nas tardes de verão a imaginar histórias que nunca chegava a escrever. Gostava de ter escrito algumas, mas bem... Abri os olhos, levantei-me, pronta para começar a adiantar trabalho para a semana seguinte. Ao sentar-me na secretária vi as fotos que colei na parede à minha frente, fragmentos de memórias, congelados no tempo. Foquei o olhar numa foto que tirei com o meu pai na mota dele, quando tinha uns 5 anos. Tentei relembrar o momento em que pus o capacete verde na cabeça e me sentei à frente do meu pai e senti a mota a acelerar… mas não consegui. A única coisa que ficou daquele momento foi aquela foto. Olhei fixamente para aquela menina. Quem era ela? Ao ter este pensamento vi-a a olhar directamente para mim com ar desafiador, como que a dizer “Não serias capaz”. Então fui.
Estava em cima da mota do meu pai, na rua em frente da minha casa. Mas o meu pai não estava comigo, era eu a conduzir. E mesmo nunca tendo andado de mota sozinha, não tinha medo. Continuei naquela estrada durante algum tempo, até já não a reconhecer mais. Continuei pelo que pareceram horas, sem saber para onde ia, mas sabendo que ainda não tinha chegado. E por fim comecei a vê-lo, no topo duma colina. Era um castelo branco e imponente. Três criaturas que nunca tinha visto antes guardavam o portão, mas ao se aperceberem da minha presença, anuíram apenas e deixaram-me entrar. Tudo no castelo se encontrava desfocado e deambulei até ver uma porta que se apresentou clara para mim. Entrei numa sala de tecto alto, da qual não conseguia ver o fundo. Encontrava-me numa biblioteca, repleta de estantes. Num dos cantos da sala, um gira-discos tocava uma música que me soava estranhamente familiar. Onde já a tinha ouvido? Conseguia trauteá-la na minha cabeça, sabia exactamente a sucessão de notas. Mas não conseguia isolar a sua origem. Decidi explorar um pouco mais a sala. Aproximei-me das paredes, analisando os diferentes quadros que as cobriam. Num deles, três raparigas trabalhavam num campo comprido, apanhando espigas de milho, e rindo juntas, despreocupadas. Noutro, era Natal e uma adolescente era surpreendida com a guitarra que passou um ano a pedir, mas nunca imaginou receber. Num terceiro, pessoas vestidas de preto rodeavam um caixão coberto de flores, com lágrimas nos olhos. Todas estas imagens apresentavam uma coloração específica, como um filtro de realidade, que as destilava num sentimento que ressoava vividamente dentro de mim. Aquelas eram as minhas memórias.
Que lugar era aquele? Como tinha chegado ali? Não conseguia mapear os meus passos até ali, parecia que sempre me tinha encontrado naquela sala. Dirigi-me à estante mais próxima, com intenção de inspeccionar os livros, mas no caminho, fui consumida por uma sensação nervosa. A minha boca ficou seca, o meu estômago começou a doer, a sequência típica por que passava antes de uma apresentação em público. Esta sensação impediu-me de avançar por uns momentos mas dominei-a, por fim, e depois de me recompor tirei um livro da estante. Na verdade não era um livro: era um caderno de capa dura, desgastado pelo uso, com as páginas repletas de palavras escritas à mão, com caneta de tinta permanente. Estava prestes a começar a ler quando o vi, do canto do olho, mergulhado nas sombras da sala. A princípio não consegui distinguir as suas feições, mas era impossível não ver os seus olhos. Olhos? Não sei se esta palavra é adequada. A olhar de volta para mim estavam duas estrelas, idênticas às estrelas mais brilhantes que conseguia ver no céu nocturno da minha aldeia, numa noite de verão.
— Quem és tu? — perguntei, dando um passo em frente na sua direcção.
— Tem cuidado por onde andas. Algumas destas lajes são medos. respondeu-me, e saiu das sombras que o envolviam, deixando-se iluminar por uma das tochas penduradas na parede.
Era alto e magro, de pele pálida cor de osso, cabelo negro de noite e vestia um manto comprido da mesma cor. Aproximou-se de mim, e sentou-se numa poltrona, que se materializou no preciso momento em que se baixou. Eu conhecia aquela figura.
— Eu conheço-te, Morfeu. Tu não és real. És parte de uma história que li, em tempos.
— O facto de ser parte de uma história não faz de mim menos real que tu. Histórias e sonhos são verdades-sombra que perduram, quando meros factos já são cinza e caem no esquecimento.
A melodia que provinha do gira-discos começou a soar mais alta, como que a pedir a minha atenção.
— Que música é esta? Parece-me familiar. E como assim, algumas destas lajes são medos?
— Ainda não percebeste? Esta sala é tua. Pelo menos da parte que não é de carne e osso. Toda a gente tem a sua sala no reino do Sonho.
— Isso quer dizer que estou a sonhar?
— Não estás a ouvir o que te digo. A barreira entre o sonho e a realidade é muito mais ténue do que pensas. Este reino permeia a mente de todos os seres conscientes. No dia em que este castelo desmoronar, no dia em que eu não percorrer este reino, os pilares da tua preciosa realidade vão também cair por terra.
Deixei aquelas palavras assentar em mim por uns segundos. O Sonho remexeu-se desconfortável na poltrona, indicando que estava a ficar sem paciência.
— Já que estás aqui, porque não me lês uma história? As pessoas assumem que é inútil tentar contar uma história nova ao Sonho, mas a maior parte do tempo é difícil focar-me só numa, sem ter alguém que me ajude a fazê-lo.
Voltei a abrir o caderno velho que tinha nas mãos e comecei a ler as palavras em voz alta. Não me lembro durante quanto tempo li, mas pareceram dias. Li aquelas palavras como se não as estivesse a ler, como se as soubesse. E enquanto lia, pareceu-me vislumbrar um sorriso na cara de Morfeu.
— Acho que estás preparada.
— Preparada para quê?
— Lembra-te apenas: o preço de conseguires aquilo que sempre quiseste é conseguires aquilo que uma vez quiseste. - e ao proferir estas palavras, levantou-se, pegou-me pelo braço, e guiou-me de volta à cadeira do meu quarto.
“Que sonho estranho!” — pensei. Já não pegava num volume de Sandman há uns bons 5 anos, era peculiar sonhar com o Morfeu depois de tanto tempo. Liguei o computador, com o objectivo de finalmente trabalhar. Tinha que ler um artigo e tirar notas. Sempre tinha preferido escrever as minhas notas à mão, com papel e caneta, portanto tirei um caderno da gaveta. Era um caderno novo, no qual nunca tinha escrito. No entanto, ao pegar nele tive uma sensação de dejá vu. Eu já tinha escrito naquele caderno, e já tinha lido das suas páginas a um velho amigo. E então percebi. E comecei a escrever.


TEMPO
24 DE MAIO 2020
CONVIDADO
ANDRÉ COROADO

Assim que recebi o convite para colaborar no vosso projecto, fiquei entusiasmado e decidi aceitar. E quando soube que sobre mim recaíam grandes expectativas de vir a redigir um artigo de âmbito literário subordinado ao tema “Tempo”, rapidamente compreendi que Great Expectations se prestaria ao desafio como nenhuma outra obra na qual já tivesse mergulhado. A novela surge como um clássico incontornável da literatura, considerada por muitos o mais perfeito trabalho de Dickens, mas o que a torna um caso de estudo tão curioso no que respeita à relação do ser humano com a vivência da passagem do tempo?
Analisando o título da obra, deparamo-nos com uma pista acerca do que o autor nos reserva: Great Expectations (Grandes Esperanças, na tradução em português) gira em torno do intrincado jogo de expectativas do protagonista em relação ao seu próprio futuro, numa viagem mirabolante ao longo dos sucessivos estádios do desenvolvimento e gestão das suas esperanças. Trata-se de um autêntico Bildungsroman (romance de formação) que conduz o leitor através da história de Pip, um órfão de baixa condição social sujeito a maus tratos (elementos tipicamente dickensianos) cuja vida será povoada pelas mais doces esperanças de felicidade e pelos dissabores mais amargos que a fortuna lhe poderia reservar. O caminho afigurar-se-lhe-á tortuoso e repleto de surpresas inconcebíveis: as circunstâncias inesperadas que levam ao nascimento de um sonho inquebrantável na mente inocente de uma criança sensível; a aparente frustração dos seus desejos decorrente das barreiras sociais intransponíveis para um rapaz destinado a desempenhar o ofício de ferreiro; a inusitada intervenção de um misterioso benfeitor em favor de Pip que lhe promete explicitamente os meios para a almejada mobilidade social e implicitamente a concretização do sonho; a cadeia de eventos que conduzem a uma completa reinterpretação dos factos e revelam finalmente a verdadeira barreira, essa sim intransponível, que se ergue entre o protagonista e a quimera cada vez mais longínqua; finalmente, a forma como Pip reage ao desabamento das suas esperanças e redefine novos rumos na sua existência.
Todavia, Great Expectations proporciona muito mais do que uma mera listagem cronológica dos eventos e peripécias marcantes que geram, obstam, fomentam ou destroem as esperanças do protagonista: o relato na primeira pessoa arrasta-nos para o cerne dos pensamentos e sentimentos de Pip ao longo de toda a narrativa, revelando-nos a evolução da sua visão do mundo, as suas interpretações em torno dos mistérios e incertezas que pairam sobre si e a análise autocrítica das suas acções e interacções sociais, nomeadamente junto de familiares e amigos. Assim, começamos por contemplar a Inglaterra rural da primeira metade do século XIX sob o olhar assustadiço de uma criança generosa, portadora de uma afeição natural pelo próximo retribuída apenas por Joe Gargery, o cunhado e único amigo, que apesar do ofício de ferreiro se revela incapaz de proteger Pip da mão firme com que a sua irmã o educa:
"Having at that time to find out for myself what the expression meant, and knowing her to have a hard and heavy hand, and to be much in the habit of laying it upon her husband as well as upon me, I supposed that Joe Gargery and I were both brought up by hand."
Mais tarde, enxergamos a Londres vitoriana na perspectiva triunfal de um jovem na flor da idade, inexprimivelemnte feliz por dar início ao seu processo de conversão num gentleman que não poderia senão constituir uma manobra do seu benfeitor para lhe conceder a mão de Estella - a mulher que amava ternamente desde a mais tenra juventude, pois nela e só nela se concentravam todas as suas esperanças. Durante tal período, ainda que seja notável a amizade que une Pip a Herbert, seu parceiro de todas as horas e confidente, assim como a afeição mútua que estabelece com mais uma ou duas personagens do meio londrino, acabamos por testemunhar uma mudança crucial no modo como o protagonista enxerga as suas origens humildes, movido pelo temor de que as figuras do seu passado possam afectar o seu novo estatuto social e os seus sonhos. Tais receios são visíveis na forma como se deixa embaraçar pelo comportamento de Joe aquando da sua primeira e única visita, fazendo-o sentir-se indesejado:
"I had neither the good sense nor the good feeling to know that this was all my fault, and that if I had been easier with Joe, Joe would have been easier with me. I felt impatient of him and out of temper with him; in which condition he heaped coals of fire on my head."
Finalmente, depois das rocambolescas revelações que se abatem sobre a vida de Pip e se traduzem no desmoronamento do sonho, florescem novamente no nosso herói os sentimentos de generosidade e gratidão, outrora adormecidos numa mente inebriada pela ideia da união a Estella. A súbita devoção que dedica a Magwitch, correndo risco de vida para o salvar, denota uma clara mudança na sua atitude: dilacerado pela dor de uma esperança desfeita, Pip supera a repulsa inicial que sente pela figura de um condenado e cria um forte elo emocional com esta nova personagem num curto espaço de tempo, mostrando-se reconhecido para com alguém que o auxliara – algo que não acontecera com Joe, por exemplo. O próprio Pip, perscrutando-se a si mesmo, surpreende-se perante a mudança tão profunda que a aparição de Magwitch produz num espaço de tempo tão curto:
"Looking back at him, I thought of the first night of his return when our positions were reversed, and when I little supposed my heart could ever be as heavy and anxious at parting from him as it was now."
Contudo, apesar do protagonista ser claramente uma personagem variável no tempo, moldada pelas experiências traumáticas que lhe vão sucedendo, existem nas personagens de Great Expectations inúmeros exemplos de constância temporal, materializados num espectro de sentimentos densos cuja durabilidade é posta à prova, incluindo o sacrifício de uma devoção sem precedentes, a persistência de uma mágoa incurável e o alcance infinito de um amor indestrutível.
Ao mesmo tempo, as mesmas personagens também sofrem mutações ao longo da novela, modificando as suas atitudes em função de novos sentimentos despertados por eventos inesperados no seu trajecto pessoal. Great Expectations revela-nos um elenco de personagens densas, que materializam uma dialéctica fascinante entre a evolução inerente à mente humana e a imutabilidade das paixões e ódios que nela se sustêm. Desta dialéctica curiosa emerge a duplicidade do impacto dos eventos mais marcantes na vida das personagens: por um lado, constituem-se como motor das suas mudanças psicológicas e comportamentais; por outro, são momentos de uma formidável intensidade que moldam de forma definitiva o seu carácter moral e sentimental, o qual resiste inalterável à impiedade do tempo.
Miss Havisham representa o paradigma da imutabilidade em Great Expectations. Vítima da perfídia de Compeyson, o noivo a quem votara um amor incondicional, mas que a burlara e abandonara no dia exacto do seu casamento, Miss Havisham nunca conseguiria superar o trauma. Destroçada por semelhante desgosto, permanece sentada no seu trono de solidão, vestida no seu traje nupcial, numa mansão perpetuamente engalanada para a boda que nunca chegaria a realizar-se, oculta do mundo exterior numa sala onde a luz do sol não ousa penetrar.
"It was when I stood before her, avoiding her eyes, that I took note of the surrounding objects in detail, and saw that her watch had stopped at twenty minutes to nine, and that a clock in the room had stopped at twenty minutes to nine."
Miss Havisham permanece perdida num tempo pretérito, recusa um presente que nada lhe pode trazer e as suas perspectivas do futuro regem-se por um objectivo sombrio, fruto de uma mágoa perene: vingar-se do género masculino, de homens como aquele que um sofrimento imensurável lhe havia infligido! O escasso amor que sobrevive no coração de Miss Havisham é dedicado a Estella, que adopta desde tenra idade e a quem dedica uma afeição maternal genuína.
Porém, Estella acaba por se tornar um instrumento de Miss Havisham para concretizar o seu plano malévolo contra o sexo oposto, educando-a no pressuposto de que os homens não são dignos de confiança e merecem ser punidos. Na sua educação fria e isenta de ternura, Miss Havisham ensina Estella a jamais ceder aos ímpetos do amor romântico, mas antes usar os seus encantos para seduzir jovens varões e destroçar as suas mentes apaixonadas. Estella, tal como a sua mãe adoptiva, converte-se num fóssil daquela infame data em que o mundo de Miss Havisham desabara, desprovida da capacidade de sentir empatia, amizade ou amor - sentimentos que uma educação austera esfriara antes que pudessem conhecer a luz do dia. O crescimento e as vivências sociais de Estella ao longo do tempo fazem-na odiar ser a pessoa em quem se tornou por imposição externa, mas não lhe devolvem as faculdades de sentir que se diriam inatas no ser humano. A resposta que dirige à declaração de amor de Pip dificilmente se poderia imaginar mais gélida e insensível:
“It seems,” said Estella, very calmly, “that there are sentiments, fancies—I don’t know how to call them—which I am not able to comprehend. When you say you love me, I know what you mean, as a form of words; but nothing more. You address nothing in my breast, you touch nothing there. I don’t care for what you say at all. I have tried to warn you of this; now, have I not?”
Convenhamos que a alusão ao aviso indicia uma ligeira atenção dedicada ao nosso protagonista, contradizendo subtilmente a afirmação anterior, mas exceptuando esse detalhe a mensagem é clara e crua. A vida de Estella é, pois, quase totalmente determinada por um evento súbito e brutal, numa data e numa hora que continuam registadas nos calendários e relógios da mansão de Miss Havisham, onde o tempo e a luz do Sol não logram entrar.
Magwitch, por seu turno, reforça a ideia de que um evento isolado pode produzir um impacto decisivo e duradouro nos objectivos de vida de alguém, mas desta vez na perspectiva inversa à de Miss Havisham: trata-se agora de um criminoso solitário, despojado de tudo quanto o fazia feliz, desconhecedor da sensação de ser alvo dos afectos de outrem, que se sente emocionado pela atitude de uma criança bondosa que o ajuda num dos momentos mais críticos da sua vida, salvando-o da fome. A sensação inaudita de ser objecto da compaixão de alguém cria na sua mente a ideia inflexível de dedicar o resto dos seus dias a retribuir à pessoa que o tratara da forma mais humana. É, pois, com uma determinação estóica que Magwitch, desterrado nos Antípodas, trabalha diariamente durante quase duas décadas com um só objectivo: juntar dinheiro para ajudar o seu benfeitor a conquistar um lugar numa sociedade vitoriana de difícil aceso.
A passagem do tempo não esmorece a vontade de Magwitch, que continua na labuta diária firme no seu propósito, e para quem a passagem dos anos não traz senão um pormenor nefando: as saudades do seu rapaz. Todavia, esse sentimento é alimentado com base num episódio de dois dias, três entrevistas e pouco mais de uma centena de palavras trocadas, sendo por isso admirável o modo como resiste à acção erosiva do tempo. Magwitch é a personagem que, em Great Expectations, melhor personifica a dedicação plena e desinteressada a um sentimento inquebrantável de afeição por alguém que está no outro lado do mundo – um sentimento que a distância do mar infinito e o peso da sucessão do tempo jamais poderiam destruir, de tão vívidas cores se pintam as memórias!
“You see, dear boy, when I was over yonder, t’other side the world, I was always a-looking to this side.”
No entanto, a personagem central do romance traz-nos um elemento distinto, que será porventura o tópico mais curioso da análise do tempo em Great Expectations: a persistência do amor. Qual rato de laboratório nas mãos de Miss Havisham, Pip é convidado desde muito jovem para a mansão Satis, onde será o primeiro jovem submetido aos encantos da linda Estella na puberdade. Na verdade, o plano funciona na perfeição: a sensibilidade do nosso protagonista gera no seu intelecto uma profunda admiração e curiosidade em relação a Estella. Apesar do seu vulto altivo e frio, Pip reconhece nela as qualidades humanas que alimentarão a sua paixão e a irão transformar na história de amor da sua vida.
Os intentos de Miss Havisham são devidamente satisfeitos, atendendo à frieza do tratamento que Estella dedica a Pip, mas a experiência do sofrimento não abate o ânimo do jovem órfão, que continuará a amá-la com a mesma ternura – um processo repetido vezes sem conta ao longo da novela, já durante a vida adulta. Mais do que a resplandecente beleza da sua amada, é a crença de Pip nas faculdades sentimentais de Estella que o movem a acreditar na possibilidade do seu idílio. Por maiores reveses que a sua paixão possa sofrer, irá sempre acreditar que nela jaz, adormecido, o amor, apesar do invólucro de gelo que o reveste desde a infância. Decerto outros dados interferem na gestão destas esperanças de Pip, nomeadamente a crença (sustentada, por sinal) na predestinação da união com Estella o seu posterior colapso. Contudo, na adversidade mais sombria ou à luz das perspectivas mais ridentes, a matéria constituinte do sentimento de Pip é a mesma, revelando-se totalmente intemporal. Contrastante com esta noção de amor ergue-se a perspectiva fria de Estella, que insiste em reduzir a carga sentimental do seu amante a uma disposição passageira da vontade:
“Nonsense,” she returned, “nonsense. This will pass in no time.”
“Never, Estella!”
“You will get me out of your thoughts in a week.”
Na resposta avassaladora de Pip encontramos o expoente máximo da expressão do amor romântico, inundado de sentimento, mas simultaneamente alvo de uma análise racional introspectiva que o torna autoconsciente:
“You are part of my existence, part of myself. You have been in every line I have ever read, since I first came here, the rough common boy whose poor heart you wounded even then. You have been in every prospect I have ever seen since—on the river, on the sails of the ships, on the marshes, in the clouds, in the light, in the darkness, in the wind, in the woods, in the sea, in the streets. You have been the embodiment of every graceful fancy that my mind has ever become acquainted with. The stones of which the strongest London buildings are made, are not more real, or more impossible to be displaced by your hands, than your presence and influence have been to me, there and everywhere, and will be. Estella, to the last hour of my life, you cannot choose but remain part of my character, part of the little good in me, part of the evil. But, in this separation I associate you only with the good, and I will faithfully hold you to that always, for you must have done me far more good than harm, let me feel now what sharp distress I may.”
Este braço de ferro entre duas visões diametralmente opostas do amor traduz-se em dissabores para ambas as partes, mas se fosse forçoso eleger um vencedor, Pip saíria vitorioso. A resposta chega-nos no final da obra, aquando do reencontro com Estella em Satis House. Conformado com a impossibilidade da concretização das suas esperanças, Pip acaba por se conformar na sua vida profissional ao lado do amigo Herbert e sua esposa Clara. Porém, o amor de Estella não se desvanece nem um pouco na mente de Pip. Por seu turno, a sua amada leva uma existência miserável no casamento com Bentley Drummle, o odioso rival de Pip de outrora. Após a morte do marido, Estella reconhece-se mudada, confessando ter-se lembrado de Pip com saudade durante as horas difíceis do seu casamento.
Não é certo o destino da relação de Pip e Estella no final da história, mas podemos afirmar com toda a certeza que jamais voltarão a caminhar de costas voltadas. Sabemos também que Pip continuará a dedicar a Estella a mesma afeição de sempre. Porém, é em Estella que observamos mais nitidamente os efeitos da passagem do tempo, que conseguiu finalmente despertar os sentimentos calorosos adormecidos pela sua educação. Curiosamente, não são as novas vivências, mas a recordação de fragmentos pretéritos que a levam a tomar consciência do valor da amizade de Pip e do respeito que os seus sentimentos lhe mereciam.
Numa trama densa e rica em personagens peculiares, outras linhas poderiam ser seguidas na análise ao tempo em Great Expectations. Poderíamos aprofundar um pouco mais a evolução da relação de Pip com Joe, assim como a ligação à dedicada Biddy, assim como a amizade de Herbert merecia talvez maior destaque, ou a coerência temporal das acções do advogado Jaggers, ele que constitui uma personagem determinante na intriga. Poderíamos ainda debruçar-nos sobre os múltiplos segredos presentes em Great Expectations e compreender até que ponto pode uma verdade tão terrível resistir incólume ao tempo. Porém, debrucei-me sobre os aspectos que considero mais relevantes ao nível da vivência psicológica do tempo em Great Expectations. Nesta obra intemporal, afinal de contas, encontramos materializadas em Estella e Pip duas ideias interessantes: em Estella divisamos o papel do tempo enquanto motor de autoconhecimento e mudança de atitude, não tanto pelas novas experiências, mas sobretudo por lhe proporcionar um outro olhar sobre o passado; em Pip, encontramos o paradigma do amor que, não correspondido, é vivido na sua plenitude, movido de genuína admiração e dedicação à pessoa amada, sendo por isso resistente às partidas do destino e às fronteiras do tempo.

REVOLUÇÃO
26 DE ABRIL 2020

Não é possível falar-se de revolução sem se falar de pré-revolução. É na pré-revolução que se cozinha o conjunto de condições materiais, físicas, sociais e psicológicas que sustenta o período revolucionário. E qualquer revolucionário sabe que, pelo menos em teoria, a pré-revolução determina até que ponto a revolução consumar-se-á. Evidentemente, este ponto é débil e sensível: Marx previa a revolução da classe trabalhadora apenas se a sociedade se encontrasse já na fase do capitalismo. Ora todos sabemos que no caso da revolução russa não foi bem assim.
Para além das revoluções históricas e sociais – das quais o século XX é exímio -, não podemos esquecer nunca a revolução científica do século XVII, que culmina em Newton e Galileu. Mas e antes deles? Em que consistiu a pré-revolução científica?
Se é difícil estabelecer o momento da revolução científica - porque ela é contínua no tempo -, então mais complicado fica fazê-lo para a pré-revolução científica. Ainda para mais quando atualmente já existe historiografia científica suficiente para provar que a Idade Média não foi assim tão escura como geralmente se concebe que foi. Deste modo, e na impossibilidade de estabelecer fronteiras temporais, queiramo-nos concentrar num dado período da pré-revolução científica em Portugal.
Imagine o leitor que se encontra no meio dos seguintes mundos: um que ignora totalmente o contributo para a ciência moderna que um conjunto de portugueses deu por altura da expansão marítima no século XVI; outro que sofre de um nacionalismo exacerbado, insistindo que nessa altura se deu em Portugal, fruto dos Descobrimentos e da expansão marítima, uma “pré-rotura epistemológica”, expressão do historiador J. Barradas de Carvalho (1920-1980).
É precisamente esta expressão, “pré-rotura epistemológica”, o ponto de partida do livro “O século dos prodígios – A Ciência no Portugal da Expansão” de Onésimo Teodónio Almeida, professor de filosofia que leciona na Universidade de Brown. Por um lado, por lecionar nos EUA, está em contacto direto com a literatura anglo-americana e espanta-o o desconhecimento que esta possui da contribuição evidente dada por alguns portugueses para o pensamento científico moderno; por outro lado, por ser português, sente que é também o seu papel de tomar as rédeas nalguma historiografia mais nacionalista e incompleta.
Incompleta no sentido em que, tal com Barradas de Carvalho, olvida completamente o que se passava no resto da Europa na mesma altura. Aliás, Onésimo recua alguns séculos até Roger Bacon, em finais da Idade Média, e já aí consegue encontrar traços de modernidade. E o que se entende então por modernidade ou ciência moderna? Essencialmente refere-se à rejeição dos antigos per se, aceitação da experiência como critério de verdade e desenvolvimento de metodologias científicas. O empirismo é, portanto, a palavra-chave deste livro que pretende chamar a atenção dos historiadores não-portugueses para a importância dada à experiência pelo cosmógrafo Duarte Pacheco Pereira, o matemático Pedro Nunes, o navegador/físico experimental/cartógrafo D. João de Castro, entre outros. É precisamente ao primeiro a quem devemos a famosa frase “a experiência é a madre de todas as cousas, por ela soubemos radicalmente a verdade”.
Evidentemente que qualquer cientista atual reconhece um certo extremismo na frase. Aliás, diz Onésimo que
Duarte Pacheco Pereira está sobressaltado de excitação com o reconhecimento dos erros dos antigos e das novas verdades descobertas pela experiência, de tal modo que não se lhe ocorrem razões ulteriores às que a experiência (…) lhes proporciona. Trinta anos depois, D. João de Castro vai revelar-se bem mais cuidadoso e consciente já das limitações da experiência. Considera indiscutível a fragilidade do conhecimento fornecido pelos clássicos, mas tempera os dados da experiência com a intervenção do juízo.
É setenta anos mais tarde, com Francisco Sanches, que “há uma reflexão de fundo sobre as consequências dessa reviravolta operada pelos Descobrimentos no conhecimento humano”. Aponta Onésimo:
Tinha-se chegado à radical consciência da fragilidade do conhecimento humano, da necessidade de se fundamentá-lo, sim, na experiência e no juízo crítico, mas de isso não bastar para nos fornecer certezas absolutas porque qualquer certeza poderia não demorar muito a ser substituída por uma nova.
Com isto, reconhece Onésimo já uma antecipação daquilo que viria a ser dito por Karl Popper: “o reconhecimento de que a verdade em ciência é o que no presente tomamos como tal, porque novos factos apreendidos amanhã poderão fazer-nos rever e reformular as verdades de hoje”.
Nem mesmo Os Lusíadas e Camões escapam à brilhante análise que decorre numa prosa escorreita e cativante ao longo das mais de trezentas páginas que o livro, coleção de ensaios do autor, contém. Onésimo reconhece no Canto V, o da viagem de Vasco da Gama à Índia (que mais não será um retrato da viagem que o próprio Camões fez), elementos desse empirismo, onde “o poeta revela consciência clara da importância da experiência direta para asseverar a veracidade dela”:
Camões (…) experimentou e viu claramente visto, aprendeu num saber de experiência feito, naquela viagem de 1553, que o mundo estava em grande mudança e experimentá-lo era o primeiro passo para a sua compreensão. Ora, esta atitude é, pela definição inicialmente aqui proposta, decididamente moderna.
É óbvio que a grande rotura epistemológica, a qual, como defende Onésimo, é contínua e não instantânea, culmina em Galileu e Newton um século depois, mas nem por isso se deve menosprezar a atitude dos portugueses em contraposição com a mundividência medieval. A necessidade de se querer chegar mais longe, de forma mais segura e eficiente, com um mínimo de perda de vidas, levou ao desenvolvimento de métodos experimentais rigorosos e sistemáticos, ao aperfeiçoamento dos instrumentos de medição. Este último ponto especificamente é defendido por Onésimo: a técnica (no sentido tecnológico) promove o estudo da natura e vice-versa. Pedro Nunes era um matemático teórico que trabalhava em terra e fazia uso das descrições/experiências realizadas a bordo e devidamente documentados por D. João de Castro (e de outros). Esta dupla Nunes/Castro, teoria/técnica, é factual e enfraquece o argumento bastante dominante na historiografia anglo-americana de que “a ciência moderna, surgida no século XVII, (…) [esteve] desvinculada de aplicações práticas até ao século seguinte”.
Esta coleção de ensaios de Onésimo é, então, em primeiro lugar, esclarecedora em muitos pontos no que concerne ao contributo dos portugueses, não só para a navegação marítima, mas também para o desenvolvimento de uma certa mentalidade empírica que viria a crescer durante os dois séculos seguintes. Em segundo lugar, Onésimo esclarece, em complemento e não em contraposição com o primeiro ponto, que tais contributos são só uma pequena parte de tudo o que já se fazia Europa fora. Talvez tenha ficado por desmistificar alguns pontos mais concretos – e certamente sensíveis da nossa História - em relação ao contributo científico concreto dos portugueses durante a expansão marítima. Encontrei alguns deles no livro “Matemática em Portugal – Uma questão de educação” do matemático Jorge Buescu. Diz-nos o autor:
Não terão tido os portugueses, em toda a saga dos Descobrimentos, contribuições meritórias relacionadas com as ciências náuticas das quais dependiam e em cuja aplicação foram pioneiros?
A resposta é sim! Houve notáveis contribuições portuguesas. Não são, contudo, nenhuma destas:
- nem uma suposta «descoberta da navegação astronómica»
- nem a inexistente «Escola de Sagres»
- nem o nónio [o famoso engenho de Pedro Nunes], instrumento inútil a bordo de um navio
Neste sentido, Buescu leva-nos mais longe do que Onésimo na rejeição de certos mitos concretos presentes na nossa cultura em relação aos “feitos dos portugueses” (expressão muito interessante). Refere, no entanto, que há uma contribuição decididamente marcante e que se resume “à criação, por simplificação de outro mais sofisticado, de um instrumento de medição, o astrolábio náutico”:
O astrolábio era um instrumento sofisticadíssmo, um verdadeiro computador analógico que tinha cerca de uma dezena de funções diferentes e sobre o qual foram escritos dezenas de tratados (…) A contribuição dos portugueses foi então: tomar esse artefacto complicadíssimo, expurgá-lo de tudo que é desnecessário para a navegação, e ficar apenas com o essencial. E o essencial é um aro graduado, com um eixo no centro, seguro por uma armação em cruz, e uma mira que roda nesse eixo.
Não deixa de ser curioso que esta “invenção por simplificação” tenha sido feito por portugueses, povo muito bem familiarizado com o termo desenrascar (alguém me sabe dizer se esta palavra - que aliás também é usada na Marinha para referir o desembaraçar de cabos, velas, etc - existe noutra língua?).
Existe, portanto, hoje, uma perceção mais clara daquilo que foram as contribuições efetivas, em termos físicos e/ou matemáticos, dos portugueses na altura dos Descobrimentos e da Expansão Marítima. Mais difícil é balizar em que é que tais “feitos” se traduziram em pensamento científico. No livro de Onésimo fica por explicar “até que ponto os avanços ocorridos em Portugal contribuíram para a etapa seguinte do desenvolvimento da ciência moderna”, ou se o pensamento desses ilustres portugueses mais não foi do que um “reinventar a roda” do que já havia sido feito “pelos gregos e mesmo por figuras várias no final da Idade Média”. É este o desafio que o primeiro autor deixa aos investigadores da História e Filosofia da Ciência:
O impacto do papel de Portugal nesse processo da revolução científica é ainda hoje complicado de discernir. Não tenho dúvidas de que se desenvolveu uma mentalidade empírica, e digamos mesmo científica, em Portugal, entre um punhado de cérebros que geriam os conhecimentos científicos e supervisionavam a construção naval e a criação de instrumentos cada vez mais adequados às necessidades manifestadas pelos marinheiros nas suas viagens. Essa mentalidade surgiu e ganhou terreno num pequeno mas importante núcleo de homens ligados às viagens transatlânticas. Temos dados, embora insuficientes, sobre muito do impacto no desenvolvimento da mentalidade científica que conduziu à primeira revolução científica. É preciso aprofundarmos o que sabemos sobre a transmissão desses conhecimentos e avanços ocorridos em Portugal. Aos poucos isso tem vindo a acontecer, no entanto é importante obter mais dados concretos.


1 de Abril de 2020

No dia das mentiras habituámo-nos a contar mentiras aos nossos amigos, à nossa família ou até mesmo àqueles que não conhecemos (o pivô do telejornal fá-lo com todos aqueles que assistem ao seu canal). Outros ainda escrevem ou contam alguma coisa inverosímil, mas como o tom com que o escrevem ou contam não demonstra ironia ou brincadeira, os seus interlocutores acreditam. Pensam que aquilo que dizem é sincero, verdadeiro, mesmo não o sendo. Contudo, o facto de não ser verdadeiro não implica que seja mentira. Se eu digo que o álbum do ano é o Eternal Atake, mas verdadeiramente não acredito nisso, é o juízo de valor que está a ser adulterado, não algum facto concreto. Portanto, a mentira não reside nalgum facto, mas antes na mentira de uma opinião pessoal, o que torna as coisas um bocado mais complexas. Já no caso de alguém dizer que a astrologia funciona e que é explicada por alguma teoria bem sólida no âmbito da mecânica quântica, estamos a lidar com o campo dos factos e, por isso, talvez a palavra mentira se aplique, se bem que o “falso” soe sempre melhor.
E “falso” soa melhor porque “mentira” tem na nossa sociedade uma conotação negativa. É por isso que muitas vezes temos de dizer que se trata de “uma mentira inofensiva” para não deixarmos que o simples facto de dizermos “disse-lhe uma mentira” nos atribua imediatamente um caráter negativo, que muito provavelmente não possuímos. É curioso analisar o porquê de considerarmos a mentira como uma coisa não positiva. Por que ficamos magoados se o nosso amigo nos mente? É porque inconscientemente sabemos que os alicerces da sociedade quebram se toda a gente tomar a mentira como um hábito diário?
Suponhamos então uma palavra que venha no dicionário. Certamente essa palavra contém um significado. Suponhamos, agora, que alguém diz essa palavra porque é bonita, porque a ouvira algures num diálogo aceso de folhetim e por causa do seu sabor redondo a moca grossa de ferros, cravada de paus. Esse alguém utiliza a palavra com outro significado, uma vez que desconhece o seu verdadeiro sentido. Se esse novo significado se propagar, e ao fim de algum tempo toda a gente usar a palavra com esse novo significado, é mentira que o significado da palavra seja o forjado?
O conto “A palavra mágica” de Vergílio Ferreira trata em parte deste assunto com a palavra (bastante inofensiva) inócuo. Põe-nos a pensar nos aspetos da linguagem que muitos doutos consideram estritos. Mas, também, e por outro lado, expõe ao ridículo o argumento sintetizado por uma das personagens do conto:
Não havia que emendar-se a vida pelo dicionário. Havia que forçar-se o dicionário a meter a vida na pele.
Dito assim, parece de facto ridículo, mas se uma mentira for repetida avidamente, a partir de certa altura não passa ela a existir e a ser encarada como algo de verosímil? E não é isso perigoso? Tais excessos de linguagem (que poderão ser propositados) não são obviamente o ponto do conto de Vergílio Ferreira (que tem bastante humor e recomenda-se vivamente); tais trabalhos são tratados com mais rigor noutros manuais (vide o manual da novilíngua). Contudo, o inócuo pode ser o ponto de partida para uma discussão mais subjetiva sobre como devemos tratar a nossa língua, e se é justo ou não modificar o sentido de uma palavra – isto é, o seu significado inicial passar a ser, de um momento para o outro, mentira – porque assim o exige um grupo de pessoas – grupo esse que pode ser até uma maioria.
Feliz dia das mentiras!
CAOS
26 DE MARÇO 2020

Do ponto de vista matemático, não existe uma definição exata de caos, tal como refere Strogatz no seu manual magistral de sistemas dinâmicos, “Nonlinear dynamics and chaos”:
"No definition of the term chaos is universally accepted yet, but almost everyone agrees on three ingredients: chaos is aperiodic, long-term behavior in a deterministic system that exhibits sensitive dependence on initial conditions."
Se os dois primeiros ingredientes levar-nos-iam um pouco mais de tempo a dissecar, o terceiro é bastante fácil e intuitivo de perceber. Imaginemos uma dada experiência que queremos fazer. Preparamos cuidadosamente essa experiência com o objetivo de medir uma certa grandeza (temperatura, pressão, humidade do ar, o que quer que seja) ao fim de um certo tempo. De seguida, voltamos a repetir a experiência, mas as condições em que a preparamos são ligeiramente diferentes das usadas na primeira vez que a realizámos (por exemplo, a temperatura da sala onde estamos a fazer as medições aumentou 0.1ºC); se o resultado da segunda experiência for exponencialmente diferente do da primeira, então temos a terceira condição para o caos verificada!
Imaginemos agora que o sistema que estamos a medir é a vida de uma pessoa. Todos concordamos que, em muitas situações das nossas vidas, basta uma pequena ação para que o seu rumo seja totalmente diferente daquele que seria se não tivéssemos praticado essa ação. Basta um pequeno gesto, uma simples troca de olhares. Ou, então, o proferir de uma simples palavra. Como, por exemplo, spooks, que significa fantasmas no inglês corrente.
Suponhamos, então, um professor de literatura numa universidade americana. Chamemos-lhe Coleman Silk. O professor Coleman desde o início do curso de Estudos Clássicos que nota a ausência de duas alunas recursivamente. Nunca as viu na sala, não as conhece, e então um dia pergunta por elas aos seus colegas: “Alguém conhece estas pessoas? Elas existem ou são spooks?”
É este o mote inicial para “A mancha humana” de Philip Roth. O livro que a Joana devorou vezes sem conta. Porque cada vez que o lia descobria sempre uma nova perspetiva, um novo ponto de vista. Nos livros de Philip Roth, dizia ela, está lá tudo. E neste romance há mesmo de tudo:
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a guerra do Vietname: “Inicialmente, tentou [outra personagem do livro que não Coleman] obter ajuda do governo e a única coisa que lhe deram foi uns comprimidos para dormir; portanto, foda-se o governo. Trataram-no como lixo. É jovem, disseram-lhe, vai superar isso. E ele tenta superar. Já que não pode contar com o governo, terá de fazê-lo à sua custa. (…) Acordou duas vezes, a meio da noite, a estrangular a mulher, mas a culpa não é sua, a culpa é do governo. Foi o governo que o pôs assim. Foi o governo que lhe fez isso. Pensou que ela era a porra do inimigo (…) É um assassino experiente graças ao governo dos Estados Unidos da América. Fez o seu trabalho. Fez o que lhe mandaram fazer. E é assim que o tratam, porra? (…) E nem um cheque lhe dão. Por tudo isso recebe uma merda de vinte por cento. Vinte por cento. Fez a família inteira viver num inferno a troco de vinte por cento”
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os famosos fellatio de Clinton na sala oval com Miss Monica: “Se Clinton lhe tivesse ido ao cu, talvez ela tivesse calado a boca (…) É pelo cu que se gera a lealdade (…) A prudência, foi a prudência que o lixou (…) Não queria dar-lhe nenhuma prova. Era por isso que não se vinha (…) No momento em que se veio lixou-se. Ela ficou com o material. Recolheu uma amostra. A prova incontestável. Se ele lhe tivesse ido ao cu, a nação poderia ter sido poupada a este terrível trauma.”
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o politicamente correto nas universidades americanas nos idos anos setenta: “Pelo que acaba de me dizer, dir-se-ia que tudo é possível numa universidade, nos tempos que correm. Dir-se-ia que as pessoas que lá trabalham esqueceram o que é ensinar. Dir-se-ia que aquilo que fazem está mais perto da palhaçada. Todas as suas épocas têm as suas autoridades reacionárias (…) Precisaremos de ter um medo tão terrível de todas as palavras que empregamos? Afinal, o que aconteceu à Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos da América?” A constituição americana. Sempre a constituição americana e a liberdade individual em Philip Roth.
-
e racismo. Ou “racismo”. E “racismo” por quê? Porque spooks, além de «fantasma», «espetro», é também termo de calão depreciativo para designar «preto».” E, claro, as alunas que Coleman nunca vira são “de cor”. Ou “negras”. A propósito, já após a morte de Coleman, a sua irmã, em conversa com o último amigo de Coleman, observa: "Está a ver, pode perceber a que geração pertenço (…) Digo «de cor» e «negro»".
Como seria de esperar, Coleman é afastado, ou melhor, sai pelo próprio pé, da universidade, acusado de racismo. Spooks é a condição inicial que leva a que a sua vida se afaste por completo do rumo mais certo: jubilação com condecorações e uma reforma tranquila com a sua mulher. Em vez disso, temos o caos: afastamento da universidade, perda de reconhecimento entre os seus pares, a morte precoce da sua mulher (referindo-se à universidade, Coleman dizia "Aquela gente assassinou[-a]!") e o envolvimento sexual com uma empregada de limpeza de 34 anos (ele tinha 71) a quem Coleman confidencia pela primeira vez na sua vida (não o revelara nunca à sua mulher nem a nenhum dos seus quatro filhos) o derradeiro segredo: Coleman pertence a uma família de negros, apesar da cor da sua pele ser bastante clara.
A decisão de quebrar ligação com a sua família e os seus antepassados aconteceu aos 27 anos depois de Coleman levar a sua namorada filha de imigrantes, o pai islandês, a mãe dinamarquesa, a conhecer a sua família. Há já dois anos que Coleman e Steena mantinham uma relação, mas até então nunca lhe dissera que era negro, e ela ainda não conhecera a sua família. No fim desse dia, após a visita que decorrera aparentemente de forma normal, as únicas e últimas palavras que Coleman ouve de uma Steena aterrorizada são “não posso”. Coleman decide que daí em diante a sua raça nunca mais interferirá nos seus objetivos. Torna-se, então, judeu; Silk, passa ele a dizer, “é uma mitigação de Silberweig”. E até a eterna marca masculina judaica joga a seu favor:
"Ele tinha até a marca bíblica da circuncisão, o que não acontecia a muitos dos seus amigos negros (…) daquele tempo. A mãe, que trabalhava como enfermeira num hospital onde o corpo médico era predominantemente judeu, deixara-se convencer, pela crescente tendência clínica nesse sentido, dos importantes benefícios higiénicos da circuncisão e, por isso, os Silk tinham tomado providências para que o ritual, que era tradição entre os judeus e começava, nessa época, a ser adotado como procedimento cirúrgico pós-natal por um número crescente de pais gentios, fosse cumprido por um médico em casa a cada um dos seus filhos do sexo masculino na segunda semana de vida."
Na verdade, Coleman poderia facilmente passar por alguém cujos ascendentes “eram do Médio Oriente”. Contudo, "aquele era um momento em que o narcisismo judeu atingira o auge do pós-guerra entre a vanguarda intelectual de Washington Square, em que a sede de engrandecimento que impelia a sua audácia mental caracteristicamente judaica começava a entrever-se incontrolável e uma aura de importância cultural emanava (…) dos seus gracejos, das suas anedotas familiares, do seu riso, das suas piadas e das suas discussões". Roth, convém lembrar, era judeu, ou, melhor, filho de pais judeus e, portanto, estas palavras incomodarão certamente muitos judeus. É, portanto, uma espécie de Hannah Arendt, versão masculina, de quem os judeus tendencialmente não gostavam.
Após conhecer a sua futura mulher, Coleman Silk decide que é altura de quebrar definitivamente a ligação com a sua mãe e os seus irmãos (o pai havia morrido anos antes). Só assim poderá ser totalmente livre. Essa última conversa com a sua mãe é notavelmente dura. Mas, acima de tudo, triste.
"- E ela pensa que os teus pais morreram, Coleman. Foi isso que lhe disseste?
- Foi.
- Não tens nenhum irmão, não tens nenhuma irmã. (…) Nunca conhecerei os meus netos. (…) Nunca os deixarás ver-me. Nunca os deixarás saber quem eu sou. «Mãe», dir-me-ás, «mãe, vá à estação do caminho-de-ferro de Nova Iorque, sente-se no banco da sala de espera e, às onze e vinte cinco da manhã, eu passo com os meus filhos, vestidos com as suas roupas de domingo.» Esse será o meu presente de aniversário, daqui a cinco anos. «Sente-se lá, mãe, não diga nada e eu passo com eles, devagar.» E sabes muito bem que eu lá estarei. (…) Se me disseres que a única maneira de alguma vez poder tocar nos meus netos será contratares-me como Mrs. Brown para tomar conta deles e metê-los na cama, eu farei isso. Diz-me que vá limpar-te a casa como Mrs. Brown e eu farei isso."
A luta pelo direito a ter um destino alternativo é o que move Coleman. A cor da sua pele, no sentido mais amplo que tal pode ter, é a mancha que Coleman tenta apagar da sua vida, mas que, na verdade, nunca verdadeiramente consegue apagar porque de todas as vezes que a sua mulher engravidava, Coleman “estava a desafiar o destino”.
"Podia ter acontecido… algumas vezes acontece. Mas, apesar disso, continuava a tê-los. (…) Sempre que esperava um filho, Coleman sofria com a decisão que tomara. (…) Ele próprio acabou por acreditar que havia algo de horrível em ocultar uma coisa tão crucial para o que uma pessoa é como o direito inato de conhecer a sua genealogia. (…) A tragédia que podia causar nas suas vidas se os filhos nascessem reconhecivelmente negros. Até agora teve sorte, e isso aplica-se também aos dois netos (…) Mas pense na filha que ainda não casou. Suponha que um dia tem um marido branco, como é mais que provável que aconteça, e dá à luz uma criança negroide, como é possível que dê. Como explica ela isso? E o que pensará o marido? Pensará é filho de outro homem. E, ainda por cima, de um negro."
À hora da refeição, e enquanto viam o telejornal, o pai de Joana comentava que o Marega não devia ter saído do campo. Que a sua atitude, dizia ele, tinha sido, note-se bem, cobarde. Se ele queria mostrar o seu potencial, era em campo que o devia fazer. Se ele queria calar os assobios e os cânticos, era jogando bem à bola, executando bem os lances, marcando golos. Em suma, resumiu a Joana cada vez mais nervosa e irritada com o discurso do pai, se és preto, então tens de jogar bem à bola, é isso que sugeres, não é? Se jogas mal, então toma lá com os assobios, com os “muhs” como que a imitar os sons da savana. Aguenta-te. Aguenta-te que isso é apenas sinal de que estás a jogar mal. Não é nada disso, não estou a dizer nada disso, defendia-se o pai. Mas a Joana sabia muito bem que era aquilo e que aquele discurso moralista, aquela mesma sentença jamais se aplicaria aos brancos, ao resto da equipa. Se estivessem a jogar mal, então deveriam ser substituídos. Estavam a ter um mau dia, ponto. E aí, Joana percebeu mais do que nunca os intentos de Coleman. O seu “plano de levar uma vida plena, regular e produtiva” que lhe permitisse casar com todas as Steenas que quisesse, estudar na universidade que lhe apetecesse e ter a profissão que desejasse.
"Só através (…) [disto] pode ser o homem que escolheu ser, inalteravelmente desligado do que lhe foi entregue à nascença, livre para lutar para ser livre como todo o ser humano desejaria ser. Para obter isso da vida, para ter direito a esse destino alternativo segundo as suas própria condições, tem de fazer o que deve ser feito. Não querem as pessoas, na sua maioria, abandonar a porra das suas vidas que lhes foram dadas?"
Tinha sido uma jogada egoísta e muito perigosa, mas que talvez lhe tivesse compensado na maior parte da sua vida, pensava Joana. Até ao dia de «spooks», evidentemente.
"A liberdade é perigosa. A liberdade é muito perigosa. E nada acontece durante muito tempo de acordo com os nossos próprios termos."
Assim é. É isso que o caos nos ensina.


AMOR
26 DE FEVEREIRO 2020

Como é que o amor é possível?
Como é que não é possível?
que mais importa:
a história de um amor?
ou um amor na História?
na estória?
Novas Cartas Portuguesas. Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa.
Sempre que a tia da Joana ia almoçar lá a casa, invariavelmente havia um choque de ideias, de noções e de visões que conseguia irritar solenemente a sobrinha. Mulher com os seus quarenta anos, a irmã da mãe ultrapassava tudo aquilo que a Joana estabelecera desde muito cedo na sua adolescência como limite para uma vida plena e com sentido: nunca se havia casado, não tinha filhos, vivia sozinha e nunca a família se havia apercebido de um namorado, de um companheiro, de qualquer coisa que se assemelhasse a uma companhia masculina. Num desses longos almoços, em que a tia se ausentava de dez em dez minutos da mesa para ir até à varanda fumar (hábito que desagradava aos pais e à própria Joana – e o facto de ser uma mulher a fazê-lo ainda desagradava mais, apesar de nenhum deles pensar isso conscientemente, ou se o pensava não o dizia), surgiu como tópico de conversa as relações amorosas e o que é que tipicamente cada um dos parceiros pode esperar de uma relação mais séria e comprometida. A tia rapidamente desdobrou-se numa retórica pretensiosa que incomodava seriamente a Joana: primeiro, porque o que a tia dizia era despropositado, desnecessário e sem sentido, e segundo porque tinha a certeza que aquelas ideias não eram próprias, mas mais um aglomerado de frases soltas que a tia havia apanhado aqui e ali nalgumas publicações feministas.
O amor é uma armadilha e serve apenas para oprimir as mulheres, dizia a tia. É uma vedação de arame farpado, é necessidade e medo. Numa sociedade justa, ninguém precisa de amor!
À medida que a tia continuava, Joana ficava com mais certezas de que já lera tais ideias nalgum lado. E, de súbito, enquanto a tia continuava argumentando que o amor nada mais era que uma construção do patriarcado, Joana lembrou-se que aquelas palavras eram de Ti-Grace Atkinson. Lembrou-se, não porque alguma vez tivesse lido uma publicação desta teórica feminista (o termo teórica feminista provocava-lhe sempre um irónico riso), mas porque havia lido sobre as suas ideias em Novas Cartas Portuguesas (NCP), esse livro escrito a três e que é um marco no movimento feminista português. Para Joana, tudo em NCP era excessivo.
Terá a mulher alguma razão para acreditar ainda no amor? Para acreditar ainda no homem? Para crer ainda na sua libertação enquanto for aceitando o que se lhe tem proposto até hoje: companheira, colaboradora… ou seja: sempre o papel subalterno e doméstico no mundo à mistura com a obrigação de parir e lavar as fraldas dos filhos assim como aceitar o homem que a goza, quer na cama, quer socialmente, utilizando-a nas tarefas mais mal pagas e menos sedutoras que ele se recusa a fazer?
A mãe de Joana, que também havia lido o livro na sua juventude, alertava a filha para o facto de o livro ter sido escrito nos anos setenta. Que muita coisa mudara, que os tempos eram outros, e que não fazia sentido fazer a sua leitura à luz dos tempos de agora. Mas a tia recusava veementemente tal afronta: o livro continuava atualíssimo. Nem uma linha se poderia considerar desatualizada.
Não teria chegado a altura de contarmos, por exemplo, o que sabemos acerca da verdade do nosso prazer na cama, denunciando claramente o jogo do homem ao tornar mito o orgasmo vaginal, acusando de frígidas as mulheres que se queixam de não irem até ao espasmo através do simples coito? Infelizmente caindo na armadilha da frigidez, torna-se a mulher mais uma vez e novamente aí, sua presa, sua inferior.
Não é que Joana condenasse a ideia de emancipação da mulher. Ela reconhecia os problemas milenares das mulheres e solidarizava-se com eles, mas para ela havia uma fronteira bem clara entre o inaceitável e o excessivo. E, por tudo isso, não conseguia conceber essa realidade extremada que a tia descrevia como sendo o dia-a-dia da mulher. Não concebia que o tom e o lamento em NCP fossem genuinamente sinceros em muitas das cartas.
Chegará tempo de amor, em que dois se amem sem que uso ou utilidade mútua se vejam e procurem, mas apenas prazer, prazer só, no dar e no receber?
E, menos ainda, ao contrário da tia, não concebia que se recusasse companheiro, namorado, marido com vista a um valor emancipatório superior, a uma moralidade suprema, muitas vezes quase que persecutória. Isso ela o recusava; isso a tia idolatrava:
Amor, eu só o quereria na igualdade; por isso recusei marido, recusei homem. (…) Só me defino pela negativa: não bordo, não tenho filhos. (…) Assim são os homens; amor de mulher para eles é entrega, obediência, serviço, gratidão. Quando o burguês se revolta contra o rei, ou quando o colono se revolta contra o império, é apenas um chefe ou um governo que eles atacam, tudo o resto fica intacto, os seus negócios, as suas propriedades, as suas famílias, os seus lugares entre amigos e conhecidos, os seus prazeres. Se a mulher se revolta contra o homem nada fica intacto; para a mulher, o chefe, a política, o negócio, a propriedade, o lugar, o prazer (bem viciado), só existem através do homem. O guerreiro tem o seu repouso; por enquanto nada há onde a mulher possa firmar-se e compensar-se das suas lutas. Chegará o dia? Até lá fica sem sentido a vida de mulheres como eu.

COMEÇOS
9 DE FEVEREIRO 2020

Começos. Ou o fim que deles emana.
O início. Ou, então, o início do fim. Era assim que a Joana pensava sempre que o tema do aborto surgia como tópico de discussão. Não que fosse contra. Não, nada disso. Achava-se progressista e moderna num certo sentido (e até um certo limite). Mas fazer um aborto? Ela própria? Não, isso não.
Sabia mais ou menos como a coisa funcionava. Ia ao hospital, davam-lhe uns comprimidos e depois aquilo saía em casa. A ideia do sangue torturava-a. O horror de saber que aquilo iria mergulhar pelo cano fora junto com tudo o resto. E as dores, as cólicas, como que para lhe lembrar do que estava a fazer. Como que se fosse o seu filho a gritar de raiva pela mãe o ter abandonado.
Quanto mais pensava nisso, mais convicta ficava de que nunca o faria, mas que contudo não julgava quem o fizesse. Se bem que… se bem que também não achava piada a quem o fizesse todos os meses. Isso também não. Vamos lá a ver, um pouco de decência. Afinal aquilo é uma criança. Sim, uma criança, um bebé, por mais que digam que não passa de um feto, duma coisa, d’aquilo.
Um dia, ao ler o The Dying Animal do Philip Roth, ficou chocada com a visão libertária do protagonista, um americano para quem o valor da liberdade é a medida de todas as coisas. O filho desse homem engravida uma colega de escola e aí impõe-se a decisão sobre o eventual fim de um começo. Isto é, um aborto.
"In his last year of college he thought, correctly, that he might have impregnated one of his classmates. I [the father] assured him that if the girl actually turned out to be pregnant, he hadn’t to marry her. This wasn’t 1901. If she was determined to have the baby, as she was already insisting, then that was her choice, not his. Pro-choice I was, but that didn’t mean pro her choice to him. If, at twenty-one, she wanted the responsibility all on her own, that was a decision made by her for herself alone. I offered him money to pay for an abortion. (…) I said that if she didn’t come to her senses, she would have to live with the consequences."
[No último ano da faculdade, engravidou uma colega sua. Eu [o pai] disse-lhe que não tinha de casar com ela por causa disso. Não estávamos em 1901. Se ela queria ter o bebé, tal como insistia em ter, então era uma escolha dela e não dele. Eu era pró-escolha, mas isso não significa pró-escolha por ele. Se aos vinte e um anos ela queria ter toda a responsabilidade, então isso era uma decisão dela e somente dela. Ofereci-lhe dinheiro para pagar um aborto. (…) Disse-lhe que se ela não acordasse para a vida, então teria de viver com as consequências.]
Neste ponto a Joana não conseguia suportar mais este homem para quem o domínio da liberdade se sobrepunha fortemente ao domínio da responsabilidade. Para ela, a responsabilidade e o respeito mútuo sobrepunham-se à liberdade, seja em que circunstância fosse. Mas, ainda assim, em tudo o resto, dizia-se progressista. E moderna (num certo sentido e até um certo limite).
"I reminded him that nobody could make him do what he didn’t want to do. I said, «Living in a country like ours, whose key documents are all about emancipation, all directed a guaranteeing individual liberty, living in a free system that is basically indifferent to how you behave as long as the behaviour is lawful, the misery that comes your way is most likely to be self-generated. It would be another matter if you were living in Nazi-occupied Europe or in Communist-dominated Europe or in Mao Zedong’s China. There they manufacture the misery for you; you don’t have to take a single wrong step in order never to want to get up in the morning. But here, free of totalitarianism, a man like you has to provide himself his own misery». (…) Conceived in liberty – that’s just good American common sense. But he didn’t seem to hear me (…) and a couple of months later he married her."
[Lembrei-o que ninguém o poderia obrigar a fazer o que ele não queria. Disse-lhe que “viver num país como o nosso, cujos documentos fundacionais se baseiam na emancipação e em garantir a liberdade individual, viver num sistema livre que é basicamente indiferente ao teu comprotamento desde que cumpras a lei, então a miséria que te aparece à frente é provavelmente devida a ti próprio. Seria completamente diferente se vivesses na Europa ocupada pelos Nazis, em regimes comunistas ou na China de Mao Zedong. Aí eles criam a miséria por ti; não tens de fazer nada de mal para mesmo assim não quereres levantar-te de manhã.. Mas aqui, livre de totalitarismos, um homem como tu tem de criar a sua própria miséria.” (…) Concebido em liberdade – puro senso comum americano. Mas ele não me ouvia (…) e uns meses depois casou-se com ela.]
Sim, claro, Joana achava que o filho tinha tido a atitude correta ainda que a questão do aborto não fosse sequer comentada por ele. O que estava em causa era algo de muito mais supérfluo:
"I know all the objections that a pure and moral young man can give to claiming personal sovereignty. I know all the admirable labels to attach to not asserting one’s sovereignty. Well, [my son’s] difficulty is that he must be admirable whatever the cost. He lives in fear of a woman telling him he’s not. “Selfish” is the word that cripples him. You selfish bastard. He’s terrified of that judgment, so that’s the judgment that rule."
[Sei de todas as objeções que um jovem puro e dotado de moral pode dar para reclamar a sua soberania. Sei de todas as coisas admiráveis que se podem atribuir a alguém para não afirmar a sua soberania. Bem, a dificuldade do meu filho é que ele tem de ser admirável a todo o custo. Ele vive aterrorizado com a possibilidade de alguma mulher lhe dizer que ele não o é. “Egoísta” é a palavra que o deixa destronado. Egoísta de merda. Ele vive aterrorizado com esse jugamento, e portanto vive de acordo com isso.]
Mas, depois, também o sentido de responsabilidade aparente (e claramente superficial) manifestado pelo filho extravasava o próprio conceito de responsabilidade que a Joana conhecia: já depois de casado e com quatro filhos, o filho do narrador começa um namoro com outra rapariga.
"You should hear him about this girl. A chemist who also has a degree in art history. And plays the oboe. He won’t even call it adultery. His adultery is different from everyone else’s. It’s too commited an arrangement to be called adultery. [For him] adultery is the recruitment of the new wife. He went to meet her family. (…) He was telling me how he flew down with her to meet them. He tells me that at the outset, at the airport, her parents are cold and very skeptical, but by the time they all sit down together in the condo for dinner, they tell her that they love him. Love him like their own son."
[Devias ouvi-lo a falar da rapariga. Uma química que também tem formação em história de arte. E toca oboé. Ele nem chama àquilo adultério. O seu adultério é diferente do de toda a gente. Há demasiado compromisso para ser chamado de adultério. Para ele, o adultério é o recrutamento da nova mulher. Ele foi conhecer a família dela. (…) Disse-me que fez uma viagem de avião com ela para os ir conhecer. De início, no aeroporto, os pais dela estavam um pouco frios e céticos, mas mais tarde, em casa deles ao jantar, disseram à filha que o adoravam. Adoravam-no como se fosse seu filho.]
Era como que se a partir de qualquer evento inesperado (a gravidez, a paixão súbita por outra mulher), a partir de uma dada condição inicial aleatória (de um início, de um começo aleatório), o filho a evoluísse no tempo sempre com o mesmo aparente sentido de responsabilidade, sem distinção moral de o que quer que estivesse a fazer evoluir. E isso confundia a Joana para quem o correto e o incorreto eram conceitos bem distintos e claros. Ainda assim, no que tocava ao aborto não o poderia qualificar nem de certo nem de errado. Simplesmente ela não o faria, ponto.
Mas nao julgava as outras. Não, isso não. Até porque se achava progressista e, portanto, segundo as regras do progresso e até mesmo da modernidade (coisa que ela sempre insistia em dizer que era num certo sentido e até um certo limite), teria de aceitar as decisões das outras. Essas outras, dizia, que o faziam. Ah!, exclamava, essas... O começo, o início do progresso a ser marcado pela decadência. Um aborto.

