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FILOSOFIA

MEDO

4 DE JUNHO 2021

Todos nós já tivemos medo. Não, não estou a falar daquele susto repentino que nos faz saltar do assento num filme de terror e mandar pipocas para todo o lado. Eu estou a falar daquele medo que nos seca a garganta, que nos faz revolver o estômago. Aquele medo que nos paralisa e nos impede de reagir.

Ou então aquele medo que faz o contrário. Que nos impede de parar. Porque enquanto estivermos ocupados não estamos a pensar naquilo. E talvez, se não pararmos, se conseguirmos continuar, evitamos que aquilo aconteça.

JUNHO (MEDO)

MEDO

4 DE JUNHO 2021

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Todos nós já tivemos medo. Não, não estou a falar daquele susto repentino que nos faz saltar do assento num filme de terror e mandar pipocas para todo o lado. Eu estou a falar daquele medo que nos seca a garganta, que nos faz revolver o estômago. Aquele medo que nos paralisa e nos impede de reagir.

Ou então aquele medo que faz o contrário. Que nos impede de parar. Porque enquanto estivermos ocupados não estamos a pensar naquilo. E talvez, se não pararmos, se conseguirmos continuar, evitamos que aquilo aconteça.

E temos medo de tudo e um par de botas. Temos medo de falhar, o que é só lógico certo? Não queremos falhar por isso faz todo o sentido recearmos as consequências negativas do falhanço. Mas será que continua assim tão lógico quando o medo do falhanço nos altera de tal forma que causa esse falhanço? Saber isto também não ajuda muito. Só ficamos com medo de ter medo de falhar…

Mas pronto, podemos só tentar seguir em frente e focarmo-nos no sucesso. Aí estamos seguros certo? E a quantidade de vezes que temos medo de conseguir? Muitas vezes não temos bem a certeza do que vai acontecer depois de sermos bem sucedidos. E se for pior e não soubermos? Pode ser que o falhanço seja um mal que venha por bem. Vai na volta mais valia estarmos quietos. Por outro lado, também não sabemos bem o que pode acontecer quando falhamos, por isso talvez tentar não seja assim tão má ideia.

Em geral temos sempre muito medo do desconhecido. O que, mais uma vez, parece lógico à primeira vista. Se não sabemos o que vai acontecer é porque temos uma amplitude grande entre o mau e o bom, por isso faz sentido preparar-nos para o mal. Mas ter medo paralisante e preparar o pior cenário são coisas distintas, por muito que o nosso cérebro nos diga o contrário.

Se apenas nós soubéssemos o que ia acontecer já não iríamos ter medo nenhum. Contudo, muitas vezes precisamente por sabermos exatamente o que vai acontecer é que temos medo, porque sabemos o quão mau vai ser.

Temos medo de mudar de casa porque não sabemos o que pode acontecer, e temos medo de ficar na mesma casa porque não queremos estagnar. O medo está cheio de contradições. O medo não quer lá muito saber de consistência lógica. A única coisa que importa é que tu tenhas medo.

E tudo isto para quê? Será que aumenta as nossas chances de sobrevivência como o instinto nos promete? Se virmos um urso o medo pode-nos fazer fugir, mas também nos pode paralisar o que não vai ajudar muito. Não é de todo óbvio até que ponto ter medo ajuda ou desajuda a nossa sobrevivência. Mas não há quem falte para se aproveitar do nosso medo.

Se nós temos medo é porque não queremos que algo aconteça, por isso se alguém aparecer a dizer que consegue eliminar a fonte dos nossos medos, resolver de uma vez por todas o que nos apoquenta. Só tem que votar em mim/comprar o meu produto/fazer um favor/…

E o medo nem precisa de ser real! Se quiseres convencer alguém de algo e não tiveres problemas com falta de escrúpulos ou decência básica podes só mentir e inventar. Factos não importam, o que importa é causar a emoção certa.  Ah e não te preocupes em construir uma narrativa assim tão convincente. Para a maioria dos propósitos chega convencer a porção mais crédula/suscetível da sociedade. Aliás, até é muitas vezes altamente conveniente ter um grupo de pessoas que não fiquem convencidos. Assim tens um “outro/inimigo/herege” a atacar, o que facilmente te trás mais poder.

Isto de não ter escrúpulos às vezes é mesmo lucrativo. Deixa-se como exercício ao leitor encontrar exemplos práticos na história e na atualidade.

O apelo ao medo e o apelo à emoção são falácias muito difíceis de combater porque muitas vezes, mesmo quando racionalmente sabemos que aquilo não é verdade, o medo continua a aparecer. Temos que fazer um esforço real para nos distanciarmos e convencermo-nos por completo que a fonte do nosso medo não é real. É muito fácil apontar o dedo quando vemos alguém a cair na esparrela do medo quando não estamos envolvidos, mas muito mais difícil é nós não cairmos quando acertam com as nossas parcialidades, quando acertam nos nossos medos individuais. 

E ainda pior do que sermos nós a cairmos nesta falácia, é vermos um amigo a ser levado. Parece tão fácil convencê-lo do contrário! Bem, se gostamos daquela pessoa é por alguma razão, há de ser uma pessoa fixe, claramente alguém a quem podemos apelar à razão, bastaria apresentarmos os factos de forma clara e seria óbvio que está a ser levado pelas suas emoções… Só quem nunca esteve nesta situação é que acredita que é algo assim tão simples.

Sim é importante mostrar os erros lógicos que hajam, contudo também é necessário abordar as questões emocionais que o levaram a cair naquele mundo. Não basta gozar com os maluquinhos das teorias da conspiração, temos que empatizar com eles e compreender porque é que acreditam naquelas coisas. Assim, talvez poderemos começar a resolver a fonte da questão. Mostrar compreensão, dizer “eu sei porque é que estás a dizer isto”. Só a junção das duas abordagens é que tem alguma chance de mudar uma opinião. E mesmo assim é muito complicado. E digo isto por experiência própria.

E como é que podemos evitar que nós caiamos no apelo ao medo? Nós também temos medos e parcialidades, é bastante ingénuo pensar que somos imunes a este tipo de tácticas. Temos que nos manter sempre alerta, prestar atenção a quem é que nos está a dizer o quê. Mas sem cair na complacência de dizer que tudo o que é assustador é alarmismo e teorias da conspiração. Conspirações reais existem. O mundo tem coisas assustadoras. Há coisas sobre as quais nos devemos preocupar e combater. Há que haver um equilíbrio: manter o espírito crítico, mas não ignorar nova informação só porque nos é inconveniente.

Será que há alguma forma simples de confirmar a veracidade da informação? Será que quem me está a transmitir essa informação tem algum interesse em que eu concorde com esta ou aquela versão dos factos? Será que estão a dar-me informação factual e a deixar que eu forme a minha opinião ou será que já decidiu por mim qual é a opinião correta? Será que sequer existe alguma pretensão de fornecer informação ou que só pretendem causar uma reação emocional?

Estas questões são questões que temos que colocar permanentemente. Isto sempre foi verdade, sempre houve tentativas de manipulação da opinião pública através das emoções ao longo da história. Mas, no mundo moderno com internet e redes sociais, a nossa tarefa é simultaneamente mais complicada e mais simples. Por um lado é mais complicada porque há mais facilidade de acesso a um público maior e as técnicas de manipulação usadas são cada vez mais sofisticadas. Mais simples porque temos de facto oportunidade de tomar as rédeas da situação e irmos à procura nós mesmos da informação. Ainda assim, esta é uma tarefa que pode ser genuinamente complicada, a informação pode não ser assim tão simples de encontrar. 

Contudo, temos que tentar. Nas democracias atuais o cidadão comum é mais poderoso que nunca antes na história. Nós temos o direito ao voto, ao protesto, à greve, etc, etc. E este poder vem com uma responsabilidade. A responsabilidade de não nos deixarmos cair em apelos ao medo e à emoção. A responsabilidade de mantermos o espírito crítico, com conta peso e medida. E, acima de tudo, a responsabilidade de não sermos nós próprios a pessoa que está a tentar apelar ao medo e à emoção para levar a sua avante, se tornar o mundo melhor for verdadeiramente a nossa motivação, o medo não há de ser o melhor argumento à nossa disposição.
 

FEVEREIRO (FAMÍLIA)

FAMÍLIA

29 DE MARÇO 2021

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No ensaio anterior refletimos um pouco sobre o conceito de amor na sua vertente romântica. Contudo, esta não é a única forma que existe de amar, é muito comum referir-se a relações filiais como exemplos de amor. Vamos então dissecar um pouco o conceito de família.

Em primeiro lugar, vou fazer a distinção entre dois tipos de família porque acho que ocupam lugares diferentes nas nossas relações. Por um lado, temos as pessoas cuja ligação na árvore da família vem “por cima de nós”, ou seja, através dos nossos pais. Por outro lado, temos as pessoas cuja ligação na árvore da família vem “por baixo de nós” ou seja, através dos nossos filhos. De forma crude, a primeira categoria são aqueles que encontramos em criança e a segunda categoria são aqueles que só encontramos já adultos.

Em relação à primeira categoria, a questão que eu acho mais interessante de responder é: o que é que faz destas pessoas a nossa família? Qual é a diferença entre um primo e um amigo da escola? O primeiro instinto quando se responde a esta pergunta é falar em termos genéticos, ora bem, um primo é um filho do irmão de um dos meus pais. Idem idem aspas aspas para todas as outras relações. Mas será que é assim tão simples?

Imaginemos uma criança adotada. Os pais adotivos foram os que criaram e educaram a criança. Essa criança vai crescer com os valores e as ideias dos seus pais adotivos. Os pais biológicos só tiveram o papel fisiológico de providenciar o código genético para fazer aquele ser humano. O papel de, de facto, ser pais, foram os pais adotivos que tiveram. Estaria muito mais inclinado a dizer que os “pais verdadeiros” seriam os pais adotivos e não os pais biológicos. Esses é que são de facto a família daquela criança.

E quem diz no caso de adoção diz em muitos outros casos. Irmãos separados à nascença. Em que definição de relação fraternal é que poderiam contar como irmãos? Sim, tudo bem, têm um código genético muito parecido, por isso até são capazes de ser semelhantes. Mas, não sei quanto a vocês, também já encontrei muitos “estranhos” que seriam parecidos comigo nesta ou noutra característica. Aquilo que faz uma pessoa ser minha irmã é ter crescido comigo e ter tido uma educação semelhante e ter partilhado os mesmos espaços durante a infância. Não é o facto de ter saído do mesmo útero.

E, sob pena de parecer que vos menti e não sou de Sintra coisíssima nenhuma e afinal sou de Cascais, os amigos mais próximos dos pais, são mais parecidos com tios do que só “um amigo da família”. São as pessoas que aparecem nos jantares de família, são as pessoas que acompanham o crescimento de uma criança mas de uma forma relativamente mais distante que os pais ou irmãos. 

Mais uma vez, parece-me que as definições mais úteis de tio, ou primo, ou irmão, ou pai não deveriam fazer referência a “relações de sangue” ou genética ou acidentes de procriação. Mas sim fazer referência à relação que de facto existe entre as pessoas. Será que estas pessoas cresceram juntas? Será que esta pessoa criou aquela? Será que estas pessoas se conhecem desde sempre através dos seus pais mas não cresceram completamente juntas? Este tipo de questões é que vai definir qual é que é a verdadeira relação que existe entre duas ou mais pessoas. Este tipo de questões é que será útil para perceber como aproveitar a relação que se tem, como lidar com conflitos que surjam. Quando decidimos de quem é que gostamos, quando tiramos lições e exemplos de outras pessoas, quando estamos a discutir e a tentar resolver os problemas, aquilo que é útil não é o código genético mas sim a relação de facto que existe entre as pessoas.

E o contrário também não me parece chocante. Se alguém não existiu na minha vida mas de repente aparece e há uma relação genética qualquer não me faz muito sentido que isso faça diferença. Sim, claro que pode servir de tema de conversa e de “desculpa” para se construir uma relação emocional. Mas apenas de forma semelhante ao que acontece quando encontramos alguém da nossa terra natal quando estamos longe: tem-se um tema de conversa, mas não há maior investimento emocional ou mais confiança do que haveria com outra pessoa qualquer.

Esta reflexão é mais clara quando estamos a falar da primeira categoria de família, mas também se aplica à segunda de forma relativamente óbvia. Se a definição de pai é “pessoa que me criou” a definição de filho também será “pessoa que criei”. Contudo, há aqui outra questão interessante para abordar. Em relação à primeira categoria de família nós não temos muita escolha, nós não escolhemos os nossos pais por exemplo, mas isso não é verdade na segunda categoria. Nós escolhemos o nosso parceiro romântico, e também escolhemos se temos filhos ou não, e no caso de adoção até escolhemos os nossos filhos. E isto levanta a questão: qual é a diferença entre estas pessoas e os nossos amigos? 

À primeira vista são ambos conjuntos de pessoas muito importantes nas nossas vidas, que nós só encontramos mais tarde e tendo algum nível de escolha. Tudo bem a relação que temos com um filho é muito diferente daquela que temos com um amigo da escola. Mas também temos vários tipos de amizades, com diferenças de intensidade de sentimento muito grandes, com histórias diferentes, com equilíbrios diferentes. Há tanta variedade nos tipos de amizades que existem que não é óbvio porque é que haveríamos de por estas relações noutra categoria inteiramente diferente.

Afunilando a nossa atenção momentaneamente, pensemos no exemplo dos filhos. Há de facto uma relação de responsabilidade completamente diferente, e há uma grande disparidade de poder. Sim, todas as amizades acarretam uma responsabilidade em relação ao outro, e também é raro ter relações perfeitamente simétricas. Contudo, no caso de filhos, diria que esta diferença quantitativa implica uma diferença qualitativa. Pelo menos durante a infância, não podemos só “acabar” com os nossos filhos, é literalmente um ser humano cuja existência depende inteiramente de nós. Há uma responsabilidade moral (e legal) muito maior. E essa responsabilidade resulta numa diferença de poder muito grande. Nós não podemos cortar a mesada ou pôr de castigo um amigo nosso. Ou até podemos, mas eles têm igual capacidade de resposta em caso de conflito, um filho não tem. 

Com isto tudo consigo entender que filhos sejam entendidos de forma diferente de um amigo, merecem de facto ser categorizados de forma independente, por acréscimo, netos e semelhante contam como família por surgirem a partir dos filhos. De forma semelhante, também diria que os sobrinhos estão na categoria de família ao virem através dos nossos irmãos, mesmo que só surjam mais tarde na nossa vida. Também podemos pensar por outro ângulo considerando que não temos a tal escolha referida acima.

Mas ainda falta um caso: o parceiro romântico. Este caso é particularmente interessante porque, instintivamente, diríamos que este tipo de relação começa fora do âmbito da família (e fora do âmbito da amizade!) e mais tarde passa a fazer parte do âmbito da família, o tal conceito mitológico de “constituir família”. O que é estranho. e essencialmente voltamos à questão que aludi na reflexão sobre o amor: qual é a diferença entre um parceiro romântico e um amigo? Acrescentando mais um fator: porque é que eventualmente diríamos que conta como família? Paradoxalmente até acho que é mais simples responder às duas questões em simultâneo do que em separado. Vamos tentar compreender quais são as coisas que poderiam tornar uma relação romântica única. 

Em primeiro lugar, há o tipo de coisas que se faz. Usualmente coisas como dar as mãos, beijar, ou ter sexo são associadas a relações românticas e não a amizades. Mas, especialmente falando do ponto de vista de alguém que tem amigos de várias culturas, o tipo de coisas que faço com amigos diferentes também é muito diferente. Há amigos a quem dou aperto de mão, outros que abraço, outros que dou beijinhos, outros que aceno. E isto não é um contrato assinado pensando nas culturas que cada um tem, e nem há uma regra sobre qual norma cultural a usar. É só o contexto, aquilo que “apetece” fazer. A diferença entre os amigos com tem tenho mais contacto físico e o contacto físico associado a uma relação romântica é muito menor do que a diferença entre os amigos com mais e menos contacto físico. Não me parece haver uma diferença quantitativa suficiente para justificar uma diferença qualitativa na categorização.

Contudo, usualmente fazemos uma distinção em termos de intensidade. Podemos dizer que amamos os nossos filhos, ou o nosso parceiro romântico, mas dizemos que gostamos dos nossos amigos. E a diferença entre filho e parceiro romântico seria na assimetria que existe com um filho que não existe com o parceiro. Mas será que não é só uma questão semântica? Se eu conheci alguém há uns meses ou até mesmo uns anos e gosto de beijar e possivelmente até ter sexo com essa pessoa, é porque claramente gosto dessa pessoa. Mas parece-me injusto comparar isso a uma amizade antiga e profunda. Há um tipo de relação, um tipo de amor, que vem do tempo, parece-me injusto dizer a um amigo “olha, tu és bué fixe mas eu conheci esta pessoa e agora ela é mais importante que tu” ou dizer a essa pessoa “olha, eu até curto de ti, mas até conseguires superar esta pessoa que eu conheço há quinze anos não conta”. Não acho que intensidade seja a resposta, mesmo que exista uma diferença, não é muito maior do que a diferença entre duas amizades.

Tudo bem, diz o leitor atento, mas esqueceste-te de um pormenor. Um amigo nunca se transformará em família, mas uma parceiro romântico sim. Mas será que isso é bem assim? Vamos tentar focarmo-nos nesse momento, para decidirmos o que é que nos faz dizer que houve uma transformação. Será que é decidir morar na mesma casa? Bem, acho que é muito comum dividir casa com amigos, por isso não será isso. Se bem que na narrativa habitual com um parceiro romântico diria que é uma mudança “permanente”, mas diria que isso é um pouco ilusório. As vidas dão tantas voltas que dizer que qualquer decisão dessas é “permanente” parece-me bastante irrealista. 

Será que é quando se tem filhos? Ou seja, será que o fator decisivo é que criámos os nossos filhos em conjunto? De facto, tal como já referido acima, um filho é uma relação bastante distinta. E dizer que a pessoa que é o pai/a mãe dos meus filhos é especial e parte da família parece legítimo. Não é incomum ter relações familiares que se definem de forma indireta, e quando se cria um filho é preciso ter uma grande confiança e partilha de responsabilidades. Por outro lado, se, por alguma circunstância da vida, a pessoa que de facto nos ajudou a criar o nosso filho fosse um amigo ou tivesse outra relação que não fosse a habitual, eu diria que essa pessoa tem mais legitimidade de dizer que faz parte da família do que o nosso dito parceiro romântico.

Mas então estás a dizer que só devemos dizer que amamos os nossos filhos? Que parceiros românticos não são assim tão especiais e que são “só” como amigos? Não, muito pelo contrário. Claro que podemos dizer que amamos o nosso namorado/esposo/parceiro, mas da mesma forma que isso não exclui dizer que amamos os nossos filhos/pais/irmãos, que também não exclua dizer que amamos os nossos amigos. Sim, parceiros são como amigos, mas ser amigo não tem nenhum “só” e é algo de muito especial.

Aquilo que estou a dizer é que devemos dar o nosso respeito e dedicação e amor às pessoas que são verdadeiramente importantes nas nossas vidas, nem mais nem menos. Mas porque são importantes para nós, na nossa vida, não porque “devemos” ou porque a sociedade assim o diz. Amemos quem nos criou, não quem nos deu o nosso código genético. Amemos quem criamos, mesmo que nós não tenhamos contribuído para os seus genes. Amemos que esteve ao nosso lado durante anos a fio e nos ajudou a rir e a deixar de chorar, quer gostemos de os ver nus ou não. E acima de tudo, amemos.
 

JANEIRO (2020 EM REVISTA)

2020 EM REVISTA

30 DE JANEIRO 2021

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Tanto em Março como em Agosto eu refleti em parte sobre isto que foi 2020, por isso em vez de fazer uma grande reflexão sobre o ano, irei revisitar um tema que abordámos há quase um ano atrás mas cuja reflexão da altura não me deixa particularmente orgulhoso: Amor.

 

A razão pela qual não me orgulho desse texto é que eu não falei sobre o tema em si. Essencialmente, à primeira oportunidade, fugi e falei sobre emoções em geral. E isso foi porque não tinha nada de interessante a dizer. Quando pensava em amor pensava em coisas muito… cor-de-rosa. Ou quanto muito em casamento ou constituir família. E a minha reação a isso era essencialmente revirar os olhos. Mas vamos dissecar essa concepção tradicional daquilo que é uma relação amorosa.

 

Um rapaz e uma rapariga conhecem-se e há uma ligação. Continuam a ver-se e ficam obcecados, só se querem ver mais, até que há um beijo, dependendo da idade também há roupas a menos, e começam uma relação. Usualmente essa relação implica que decidem que são a pessoa mais importante na vida um do outro, que vão passar muito tempo juntos, e que beijar ou tirar as roupas só se pode fazer com aquela pessoa. A partir de aqui o mais comum é chegar a um ponto em que decidem que já chega e acabam. Alternativamente decidem que afinal isto é para sempre. Então casam-se, vão morar juntos e têm filhos, não necessariamente por esta ordem. Mesmo assim não tem que ser para sempre, podem mais tarde decidir que já chega e divorciarem-se.

 

Se são alguma coisa como eu então já estão a revirar os olhos a esta descrição do enredo de todas as telenovelas e comédias românticas. Mas, apesar das aparências, há aqui uma questão filosófica interessante. A maioria das pessoas concordaria que aquilo que descrevi é de facto um exemplo de amor, mas a questão interessante é: será que é o único? Há umas décadas atrás ainda se poderia dizer que sim, mas nos dias de hoje é óbvio que há ali umas componentes que não são essenciais, como por exemplo ser entre um rapaz e uma rapariga. Por isso uma questão ainda mais interessante seria: que componentes daquela descrição são essenciais e quais é que são supérfluas? Ou, posto de outra forma, quanto é que podemos retirar daquela descrição de forma a que ainda chamemos aquilo de amor?

 

Há algumas coisas óbvias que se pode retirar. Podemos retirar que tenha que ser entre um rapaz e uma rapariga, claramente se forem dois rapazes ou duas raparigas também conta. Também podemos retirar o haver um casamento ou ter filhos, há muito boa gente que não tem filhos ou que nunca se deu ao trabalho de casar e que mesmo assim ainda se consideraria serem um casal. Também não seria um escândalo retirar a monogamia da equação. Afinal de contas as pessoas são muito diversas, relações abertas não são assim tão incomuns.

 

A partir de agora é que fica interessante. Será que podemos retirar a componente física? Será que conta como amor se não houver beijos ou sexo? Bem, sejam bem-vindos ao mundo da assexualidade.

 

De forma simples, ser assexual significa que de modo geral não há interesse em ter essa experiência física. Mas isso não significa que não haja uma atração de outro tipo, existem pessoas que não têm interesse nenhum na componente física de uma relação amorosa mas cumprem todos os outros requisitos. Em termos técnicos, dir-se-ia que são assexuais mas não arromânticos.

 

E tudo bem, sendo pessoas progressistas e modernas, até estaríamos inclinados a aceitar e a dizer que isso é perfeitamente razoável. Se duas (ou mais) pessoas dizem que se amam e querem passar muito tempo juntas só que não na mesma cama, quem sou eu para julgar. Mas presumo que isso seja mais difícil de compreender do ponto de vista de alguém completamente heterossexual. Porque fica a questão: qual é a diferença entre isso e uma amizade mesmo muito próxima? Porque não chamar só de “amigo”?

 

E isto é precisamente o âmago da questão: a diferença entre uma amizade e uma relação amorosa.

 

As respostas mais comuns a esse tipo de pergunta são um misto de “tu sabes quando acontecer” e uma tentativa de sucesso questionável de descrever o conceito nebuloso de “ter química”. Mas isto levanta uma questão: e se não souberes? E se nenhuma relação que tenhas tido encaixa no padrão acima? Ou até mesmo se tiveres alguma que encaixe, como é que consegues distinguir aquilo que é amor do que é amizade? E a seguir a isso tudo, como é que consegues descobrir que classe de humanos gostarias de ver sem roupas e/ou apaixonar?

 

Isto é obviamente uma pergunta extremamente pessoal e cada pessoa há-de tentar descobrir à sua maneira. Pesquisando sobre etiquetas sociais, lendo/ouvindo experiências de outros, e experimentar por si só. Todos estes métodos têm os seus prós e contras, no fundo, nunca é um processo fácil nem simples.

 

Etiquetas sociais têm a vantagem de que são simples. Toda a gente com alguma literacia consegue facilmente descodificar os significados de heterossexual, homossexual, bissexual, e assexual. Mas comparares-te a uma etiqueta abstrata é outra história. Uma etiqueta nunca conseguirá capturar a complexidade de um indivíduo. Nem é esse o seu objetivo, o seu objetivo é simplificar e descrever sucintamente. Mas isso pode não ser útil quando nos estamos a questionar.

 

Ler ou ouvir sobre experiências de outras pessoas tem a vantagem de que torna as etiquetas mais reais e concretas, mostra como é que podem ser usadas como simplificação de algo mais complexo. Contudo, é muito improvável que encontres alguma experiência exatamente igual à tua, vais encontrar semelhanças e diferenças e às vezes pode ser complicado perceber se “tens o direito” a usar aquela etiqueta tendo tantas diferenças das experiências que encontras.

 

Podes tentar fazer um meio-termo e usar a ideia moderna de espectros, ou seja, em vez das etiquetas serem caixas bem definidas são só pontos num espectro contínuo. Isso claramente consegue encapsular uma complexidade muito maior, mas mesmo espectros podem ter eixos a menos, num espectro entre gostar de homens ou de mulheres, onde é que está a opção “nenhum”? Ou a opção “desde que não haja sexo”? Já para não falar de que para teres um espectro entre gostar de homens ou mulheres precisas de uma definição do que é um “homem” e o que é uma “mulher”, uma conversa da qual vou fugir a sete pés porque este texto tem que acabar.

 

E tudo isto é assumindo que confias nas tuas próprias experiências, mas mesmo isso pode não ser um dado adquirido. Há muitas formas subtis de “manipulação” social. Já não é nem a primeira nem a segunda pessoa que conheço que “assumiu” que era hetero e que até teve relações hetero até que mais tarde se apercebeu que isso não era bem assim. 

 

Mais uma vez, na vida real, isto é algo confuso, complexo e pessoal, cada pessoa encontra as suas respostas à sua maneira.

 

E depois disto tudo, como é que tu sabes se é amor, ou amizade, ou o raio que o parta? Eu não sei, o que eu sei é que só tu é que podes descobrir.

NOVEMBRO (GRANDES ESTREIAS)

GRANDES ESTREIAS

31 DE DEZEMBRO 2020

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João: Primeiro que tudo, como é que gostarias de ser apresentado?

 

Hugo: Como é que eu gostaria de ser apresentado? Como um estudante de filosofia. Tenho muitas dificuldades em dizer que sou filósofo. Parece aquela coisa muito séria como se já tivesse uma carreira super definida, então como estudante, sim.

 

J: Estudante de mestrado, certo?

 

H: Estudante de mestrado, sim. Eu também faço investigação num grupo do centro de filosofia LANCOG – Language Mind and Cognition Research Group.

J: O que te fez seguir filosofia? Porquê filosofia e não outra coisa qualquer?

 

H: A melhor forma de responder a essa pergunta é olhar um bocadinho para o percurso. Assim de forma sintética, eu fiz um ano no Secundário no curso de Ciências e percebi rapidamente que não era por aí. Mas, enquanto estava nesse curso, sempre tive mais interesse pelas disciplinas que tinham a ver com literatura, português e tudo isso, incluindo a própria Filosofia. Então, ao fim de um ano, troquei e fui para Humanidades.

 

A partir daí tive a oportunidade de me dedicar mais ao que me interessava. O curso em si tem mais que ver com filosofia, com ler, escrever; tudo aquilo que me interessava mais. Também tive a sorte de ter uma excelente professora, a professora Margarida, e de ter colegas que se interessavam pelos temas, sobretudo a Maria Cintra e o David Ruah. Então era sempre muito estimulante, podíamos conversar sobre aquilo e as pessoas estavam realmente interessadas.

E depois foi assim, houve uma altura em que abriram as candidaturas para as Olimpíadas de Filosofia, a Margarida falou connosco e eu e o David escrevemos para aquilo. Quando eu lá fui tive assim um momento de descoberta porque lidei com professores do Ensino Superior, que mais tarde iriam a ser meus professores como o João Branquinho, e apercebi-me ali que a filosofia era muito mais do que a matéria que damos no Secundário.

 

J: Como é comum na vida. As coisas costumam ser além daquilo que damos no Secundário. (risos)

 

H: Exato, tudo, sempre. Depois foi algo do género: OK, há temas realmente contemporâneos, não é só aqueles autores já de há muito tempo, há questões por resolver agora em aberto, e realmente há oportunidade de participar nelas ativamente. E então foi por aí que fiz a decisão. Foi uma decisão sobretudo em função daquilo que eu gostava de fazer e não muito a pensar num futuro. Esse tipo de considerações só veio mais tarde, quanto tu te apercebes que para fazeres filosofia tens que também pensar numa espécie de carreira. Mas a escolha foi muito pelo que gostava realmente, tinha um interesse forte, que ainda tenho. E então fez sentido, foi muito isso, foi simples.

 

J: Referiste que és estudante de mestrado e que estás a fazer investigação, de forma simples, quais são os temas que mais te interessam na filosofia? Qual é a investigação que tu fazes?

 

H: Eu tenho estudado principalmente dois temas. Isto começou no 2º ano da Licenciatura quando eu ganhei o Prémio Joaquim Cerqueira Gonçalves 2015, que foi uma coisa marcante. Era o prémio de ensaio filosófico da Sociedade Portuguesa de Filosofia e parecia um longshot grande porque quando tu ganhas o prémio depois és publicado na Revista Portuguesa de Filosofia que é uma revista bastante conceituada. Mas o tema interessou-me muito: identidade pessoal. E então, para eu preparar o ensaio que acabou por vencer, li muita coisa sobre isso e acabei por me apaixonar completamente pela questão e nunca mais a larguei (risos). É uma questão de metafísica, e, de forma sintética, é: o que são as pessoas? Somos o nosso cérebro, somos mentais, somos almas, somos corpos, etc. Essa foi a questão que domina a minha investigação desde aí.

Entretanto, mais tarde, vim a ter interesse numa área que também não sabia que existia. Uma área da estética, da filosofia da arte, que é a filosofia da música. E tendo em conta que sou músico fez todo o sentido. Sou baterista nos Them Flying Monkeys e tive outra banda também Moda Americana, que, entretanto, não continuou. E desde miúdo que faço música, estive numa orquestra e essas coisas.

 

Para responder de forma direta, as áreas em que eu trabalho são metafísica, em particular identidade pessoal, e a filosofia da música.

 

J: Nessa questão de identidade pessoal, referiste a parte da metafísica, se somos uma alma, um corpo, etc, mas também abordam a questão por exemplo da identidade pessoal em termos de género, sexualidade, etnia e isso tudo ou é mais a parte abstrata?

 

H: Essa pergunta é interessante. No fundo, há vários grupos de teorias, A questão de forma rigorosa é saber o que é que faz com que tu continues a existir ao longo do tempo. Só que tu para responderes a isso tens que pensar sobre o que é que somos do ponto de vista metafísico, ou seja, a que categoria é que pertencemos: somos objetos materiais, não-materiais, tudo isso. Mas há uma linha de resposta ao problema, que se chama de identidade narrativa, que tem a ver com questões mais sociais e culturais. Na identidade narrativa a tese central é que a identidade das pessoas não é redutível a factos sobre a psicologia ou biologia, mas tem de ser considerada à luz do contexto onde te inseres social e culturalmente. Se fores por essa linha podes encontrar discussão sobre esses temas, mas, por norma, não é parte da discussão. Por isso, eu diria que, em rigor, não é um tema que tenha totalmente a ver com a questão, mas pode ser abordado se fores por essa linha

 

J: Então a linha que tu abordas é mais pela metafísica.

 

H: Sim, sim. No ensaio em que eu publiquei para esse tal prémio defendi uma solução que foi defendida nos anos 70 e que eu tentei reabilitar: a solução corpórea. Esta solução defende que as pessoas são o seu corpo. Isto é uma solução complicada, e compreende-se facilmente porque é que ela foi abandonada, porque a noção de corpo é muito ambígua, muito vaga e difícil de definir. Historicamente os filósofos que defendiam, ou se sentiam inclinados a defender, que somos o nosso corpo depois substituíram a noção física de corpo pela noção biológica de organismo. Os filósofos nessa nova linha são chamados de animalistas.

 

E eu, cresci, fiquei mais velho e também acompanhei essa evolução. Fui encontrando mais problemas na solução que tinha dado originalmente acabei por fazer uma tese de licenciatura em que ainda tentei reabilitar a solução corpórea, mas agora estou a fazer uma tese de mestrado em que defendo o animalismo. Por isso não adoto soluções psicológicas, adoto uma solução biológica em concreto, e essa tem sido a minha investigação

 

J: E isso implica interação com biólogos e neurocientistas para também saber o lado científico da questão, ou é só uma coisa abordada do ponto de vista da filosofia?

 

H: Sim, sim, implica. A resposta dos animalistas, é que aquilo que faz com que tu continues a existir ao invés de deixares de existir é a continuidade espácio-temporal de um organismo. Só que depois eu tenho que dizer alguma coisa sobre o que é um organismo, e aí só posso consultar a biologia. Nessa medida implica, mas a discussão pode ser feita sem haver um grande peso a qual é a melhor definição do ponto de vista biológico. Mas é óbvio que tenho que dizer algo sobre isso, e os filósofos tocam nesse ponto. Por exemplo, se tu defenderes soluções psicológicas, como a teoria da memória, também não podes trabalhar nisso sem dizer algo sobre o que é a memória, como é que ela é entendida do ponto de vista científico. Portanto acabas sempre por ir tocar, mas é importante ver que não é uma questão científica.

 

J: Claro, claro, mas é interessante que embora seja uma questão filosófica, tem ali uma componente científica e que é importante falar com os cientistas e dizer: OK, quero perceber a primeira, parte, como é que vocês falam disto, e agora vou fazer a minha filosofia.

 

H: Sem dúvida. Olha por exemplo, uma coisa com que me deparei agora enquanto estou a escrever a tese é que há um conjunto de filósofos que, com base na ciência mais recente, defendem que os organismos humanos não podem ser considerados como se fossem substâncias do ponto de vista ontológico, que têm de ser considerados como se fossem processos. Esta é uma conclusão que chega à filosofia importada da ciência. E esta discussão também tem uma repercussão na própria biologia. Se estudasse biologia iria encontrar cientistas em confronto sobre a forma como devemos entender a noção de organismo. Há muita importação nesta e noutras áreas. E é muito interessante porque a filosofia hoje em dia não pode ser feita de forma independente da ciência. Pelo menos a filosofia dita analítica, que é a área em que eu trabalho. Também há outra área bastante grande que é a filosofia continental, com um interesse mais literário, que dá mais importância à interpretação de autores e não tanto à discussão de razões de argumentos.

 

J: Regressando à filosofia da música. Como é que a filosofia interage com o facto de seres música? A filosofia e a arte são dois mundos, ou têm muita conexão?

 

H: Sim, tem uma interconexão forte, e ainda bem, senão eu era uma pessoa muito mais triste (risos). É interessante, porque quando eu comecei a fazer filosofia da música, o que eu descobri nessa área foi uma reprodução de uma discussão metafísica pura e dura. Arduamente metafísica. Que é a famosa discussão entre teorias universais e particulares, se a realidade é feita de objetos abstratos universais ou se, ao invés, devemos considerar que a realidade é fundada por particulares, indivíduos, coisas atómicas. Encontras essa discussão quando tu pensas sobre o que é uma obra musical. Vais encontrar filósofos, por exemplo, que dizem que as obras musicais são universais abstratos, que tudo o que um compositor faz é descobrir uma estrutura que já existe por si mesmo.

Eu encontrei, em primeiro lugar, essa discussão e escrevi sobre isso. Só mais tarde a minha revelação coma filosofia da música foi ficando mais contaminada pelo facto de eu ser músico. Por exemplo, a bolsa de investigação que eu ganhei agora é com um projeto de filosofias sobre a filosofia do rock e do jazz. A questão neste caso é tentar perceber se podemos falar dar uma definição geral do que é uma obra musical ou se temos que restringir as nossas definições ao tipo de obras que são produzidas numa certa tradição musical.

 

É uma discussão muito recente e a motivação percebe-se bem. No fundo, os filósofos desta área fizeram filosofia todo este tempo tendo em mente apenas as obras da música clássica, mas há tanta variedade na produção musical que talvez nós precisemos de diferentes ontologias para cada uma das tradições. Por exemplo no jazz, há mais improviso, consegues encontrar estruturas que não encontras na música rock. Ou comparando a importância do estúdio de gravação para a música rock com a música jazz em que muitas execuções não são gravadas. Encontras diferenças. Eu estou a tentar investigar se realmente faz sentido sermos pluralistas do sentido ontológico ou se há uma boa definição que acomode todas as obras, todas as tradições.

 

Mas lá está, o que eu faço de filosofia da música também é muito metafísica. No fundo eu trabalho metafísica all over the place.

J: Até agora parece mais que entraste através do mundo da filosofia e tiveste interesse por seres músico. Mas o facto de tocares e dares concertos também de “dá ideias” de como é que se pode fazer a filosofia?

 

H: Sim, sem dúvida. Por exemplo, quando eu leio e escrevo sobre a filosofia do rock, há discussões sobre a importância do estúdio e sobre a forma como o estúdio pode contribuir para a natureza das obras que são produzidas, e eu consigo sentir que estou a escrever com alguma autoridade por assim dizer porque compreendo muito bem o que é estar num estúdio, como é que se faz e não se faz, como é que o processo é. Sem dúvida que há lições valiosas que tiro da experiência que tenho fora da filosofia.

 

J: Tu referiste que tinhas uma bolsa de investigação para esse projeto, isso é para depois do mestrado, ou agora estás a fazer os dois?

 

H: Estou a fazer os dois e a ideia foi essa. Foi arriscado, podia ter concorrido com o projeto da dissertação e estar confortavelmente a escrever só a dissertação e ser financiado. Mas queria estar a trabalhar nas duas frentes e é uma motivação extra para eu, com tanto trabalho, dar de mim. Então estou a trabalhar assim, estou a fazer a tese e a fazer filosofia da música com financiamento.

 

A minha segunda motivação, e acho que isto é de facto importante referir, é que, nos departamentos de filosofia portugueses, não há muita dedicação à estética em geral, pelo menos da parte dos filósofos analíticos. E então à filosofia da música há muito menos. E eu vi aquilo também como uma oportunidade de passar informação aos colegas que estão na Licenciatura, para eles verem que há aqui algo a dizer. E música também é algo que toda a gente tem intuições, toda a gente ouve música. Vi assim um sentido também do ponto de vista do centro de filosofia, onde não há muita atenção.

 

J: Também o simples facto de conseguires dizer: eu consegui ter financiamento, dá um certo validamento a um aluno de licenciatura que se interesse por isso.

 

H: Sem dúvida, por exemplo, há muitos alunos que estão interessados em filosofia do cinema, mas é uma cadeira que nunca abriu. Eu vejo isso com preocupação, porque realmente estas áreas são muito interessantes e há contributos filosóficos bons, mesmo bons. Às vezes é preciso diversificar, dando esse exemplo. Mostrar que se pode fazer, pode-se ir por esta área que há atenção também.

 

J: Agora que passámos para questões mais pragmáticas, como é que é o dia-a-dia de um filósofo? Porque pelo menos eu imagino um velho vestido de tweed e a fumar cachimbo numa poltrona (risos). Mas acho que isto não corresponde à realidade.

H: Olha isso é interessante. Tu usaste aí a expressão “na poltrona”, e há uma discussão muito grande sobre a natureza da filosofia hoje em dia. Se os filósofos podem ser só filósofos de poltrona, estarmos aqui sentados nesta cadeira só a pensar; ou se um filósofo também em que fazer o que se chama de filosofia experimental. Há muita gente que hoje em dia pensa que a melhor coisa a fazer para certos dilemas filosóficos é fazer inquéritos, consultar as intuições das pessoas e tentar com que a filosofia siga o senso comum.

 

Bom, mas o dia-a-dia de um filósofo depende muito do filósofo (risos). Eu não sou uma pessoa muito rotinada, mas sou bastante organizado, tenho que ser porque senão não consigo fazer tudo o que tenho em mãos. Mas não sendo bastante rotinado há coisas que vou fazendo, mesmo não havendo um horário específico para as mesmas. Eu trabalho muito à noite, sou uma pessoa muito noturna, e por isso à noite estou a escrever a dissertação. Mas o meu método não é do género de ler a literatura toda primeiro e depois passar para a escrita, eu faço as duas coisas ao mesmo tempo. Como já conheço a literatura consigo ir pegando onde é preciso e ir avançando dessa forma. Mas também tendo consolidar com outras coisas, com leituras mais gerais sobre áreas em que eu não trabalho, como a história da filosofia analítica. Tenho andado a ler porque sentia que não conhecia muito bem e achava que era preciso consolidar.

Mas também tenho a música fora da filosofia por isso às vezes tenho dias malucos. Tenho que não ter muitos horários porque depende de quatro pessoas e temos que nos coordenar todos para a coisa funcionar. E ao mesmo tempo tento escrever sobre tudo. Então pronto, não tenho uma resposta assim do género, acordo às oito e faço isto, mas muitas leituras.

 

J: Tu referiste a diferença entre o filósofo de poltrona e o filósofo experimental, em que lado é que te inseres mais?

 

H: Eu insiro-me mais no filósofo de poltrona. Mas acho que tem a ver com a natureza dos temas em que trabalho. Por exemplo, muita da filosofia experimental é feita hoje em áreas como epistemologia, a filosofia do conhecimento. Mas não tanto em metafísica, nessa área é mais filosofia de poltrona teórica, pura e dura. Pelo menos por enquanto. Não quero dizer que no futuro não possa fazer filosofia experimental, mas também não conheço muito bem os pressupostos dessa metodologia. Sei que ocorre e é interessante que ocorra.

 

J: Do meu ponto de vista enquanto cientista também me faz lembrar do processo científico mais do que a minha conceção de filosofia. Por isso também achei interessante.

 

H: Exato, a filosofia está muito ligada à metodologia científica à qual tu tens acesso. Trabalhando em física teórica não é assim tão diferente da forma como nós tentamos fazer filosofia de hoje em dia. Não só ao nível de coisas pragmáticas tipo preparação de artigos e tudo isso. Mas mesmo ao nível do funcionamento dos centros e até ao nível da organização do conteúdo de um artigo seja ele qual tema for. Mas a diferença está sobretudo ao nível dos temas.

 

J: Lá está, quando uma pessoa começa a falar com um filósofo apercebe-se que as questões que estão a ser lidadas tem muito mais a ver com a atualidade do que os Kant e David Hume de há trezentos anos.

H: Não, pois no fundo é engraçado. Por exemplo a educação que nós temos ao fazer uma licenciatura em filosofia, pelo menos na Faculdade de Letras. Tu tens de cadeiras de história de filosofia onde tu falas dos grandes nomes, mas depois tens cadeiras dedicadas a temas tipo epistemologia, ou metafísica, ou lógica, onde falas de teorias e de argumentos. É óbvio que eles têm uma precedência histórica em que podem ter a ver com certos autores, mas eu nunca dei por mim a estudar tipo Kant. Ou seja, em Ética fala-se de Kant, mas eu estou é interessado nos filósofos contemporâneos que seguiram aquilo que Kant começou e a forma como eles defendem por exemplo a deontologia hoje em dia. E o mesmo aplica-se a tudo. Lá está, no Secundário não tens essa perceção.

 

J: Para fechar, que questões é que gostarias que fosse abordadas, ou até mesmo respondidas, no futuro?

 

H: Quando eu falo nestes temas fico só preocupado. Por exemplo, todos os anos lá na faculdade fazemos um pequeno inquérito pelos estudantes de filosofia para ver no que é que eles têm interesse. E eu cheguei a participar nesses inquéritos e no que reparo é que há muitas cadeiras ou temas que são sugeridos pelos estudantes, mas que nunca chegam a ser abertos, como a filosofia do cinema. E isto nem é crítica, eu compreendo que temos que fazer escolhas, há sempre a perspetiva de que provavelmente não haveria muitos alunos inscritos neste tema em particular em comparação com os temas mais fundamentais da filosofia. As coisas acabam por ficar nos temas clássicos, nos temas duros.

 

Por exemplo, uma das áreas em que eu me interesso e que é de nicho é a meta-filosofia. Que no fundo é a filosofia da filosofia, estuda quais são as diferentes metodologias filosóficas que existem, como é que nós devemos fazer filosofia. É uma lacuna que eu falo muito com os meus colegas, porque não há uma orientação dada aos alunos no aspeto de como proceder para fazer uma carreira em filosofia. E esta área da meta-filosofia, por estudar diferentes metodologias, podia dar aos alunos logo uma impressão muito ampla de como é que se podem tornar filósofos, sem seguir necessariamente a linha em que são ensinados.

J: E lá está, dar essa perspetiva de como é o dia-a-dia de um filósofo, como é que se faz filosofia. E se calhar até pensariam: Ah, se calhar eu até gostava de fazer isso.

 

H: Sim, sim, porque não há muitas opções depois de estudar filosofia. Ou vais dar aulas para o Secundário se tiveres interesse nisso ou se quiseres ser investigador vais ter todo o trabalho de perceber como é que a investigação funciona e o que é que deves fazer para conseguir chegar aí. É tudo muito de ti. E é isto que eu acho que é muito português e que não encontro noutras faculdades estrangeiras.

 

J: Sim, e daquilo que vejo, pelo menos na ciência é um pouco mais claro de como seguir, de fazer mestrado e doutoramento e como é que vai ser o dia-a-dia. Então se for uma ciência experimental, há o laboratório, mas com filosofia é um bocadinho mais complicado uma pessoa imaginar uma carreira.

 

H: Exato, sim, eu comecei a fazer investigação por iniciativa própria. Porque sei lá, queria escrever e encontrava os call for papers e enviava. A coisa depois começou a acontecer e só depois de pulicar é que comecei a perceber o que é isto de ser investigador. Como é que as coisas se organizam, o que é um centro de filosofia, e tudo isso. Como é que há financiamento, os diferentes tipos de financiamento. Isto é uma coisa que me preocupa porque os estudantes que são bons filósofos desde cedo, se não tiverem uma perceção muito apurada do que é que é isso, podem acabar por perder-se, ou por achar que não é possível.

 

J: Muito obrigado pela tua disponibilidade.

 

H: Obrigado pelo convite.

SETEMBRO (GRANDES MESTRES)

GRANDES MESTRES

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6 DE NOVEMBRO 2020

Neste último… ahem… mês, estivemos a refletir sobre vários grandes mestres nas mais variadas áreas, mas para além de celebração dos grandes feitos de um indivíduo (ou conjunto de indivíduos) algo que estava sempre no fundo era a questão complicada de quem é que tem direito a ser um grande mestre. Na ciência: homens brancos. Na música: ter nascido no século XVIII (e ser alemão). E por aí fora.

 

Parece que há uma componente arbitrária nesta nossa concepção de quem são os “grandes mestres” em determinada área. Parece que vamos por onde formos, seremos inevitavelmente confrontados com o facto pungente de que a nossa sociedade não costumava ser (e ainda não é) lá muito igualitária. Somos sempre confrontados com o facto de que para alguém se tornar num “grande mestre” precisa de mais do que ser ““bom naquilo que faz””. 

 

Até mesmo a filosofia com toda a sua pretensão de racionalidade e de estar acima das outras disciplinas está repleta deste tipo de problemas. Problemas que não têm só a ver com estarmos a celebrar pessoas que não são lá muito simpáticas. Estamos a perder formas de fazer filosofia, estamos a perder perspectivas ao silenciar essas vozes e formas de pensar. Por exemplo, só no final do século XX com manifestações por direitos LGBT+ é que se começou a perceber que havia certos conceitos intimamente ligados à concepção tradicional de família, até a percepção do tempo poderia ser distinta (o leitor interessado poderá pesquisar os termos “queer theory” e “queer time”).

 

Mas isto parece ter uma solução simples. Atualizamos a lista de “grandes mestres” para incluir as vozes que não eram comumente incluídas e removemos as pessoas que sejam particularmente problemáticas. Mas será que é assim tão simples?

 

Em primeiro lugar, é muito complicado ter uma boa noção do que é que “problemático” significa, e parece que estamos um bocado a cair precisamente no mesmo erro que estamos a tentar combater se definimos um grupo de pessoas como “problemático”.

 

Para além disso, quando as vozes foram de tal forma silenciadas que não existe forma de as incluir, de certa forma, já não há nada a fazer, os estragos já foram feitos. Por isso, mesmo que voltemos atrás e tentemos incluir todas essas vozes, podemos não ser bem sucedidos. 

 

Pior ainda, o facto de não sermos bem sucedidos pode fazer com que seja mais difícil compensar no futuro. Este é o grande problema de representação em media e em locais de trabalho. Se não nos vemos representados num certo local torna-se mais difícil sentirmos-nos bem-vindos e torna-se mais difícil sermos essas vozes.

 

Então se o conceito de “grandes mestres” tem tantas falhas porque é que não nos livramos dele por completo? Qual é a necessidade de contar estas histórias e de celebrar estes indivíduos? Podíamos perfeitamente glorificar o esforço coletivo que levou às grandes mudanças em vez do punhado de cabeças de cartaz. Em vez de celebrarmos os gigantes celebremos o muito maior conjunto de anões que de facto fizeram o trabalho todo.

 

E se estas decisões de quem é que conta como um “grande mestre” são assim tão arbitrárias, será que é assim tão legítimo falar destes indivíduos como falamos? Será que é assim tão legítimo conferirmos a autoridade que lhes costumamos conferir? Mesmo se tirarmos da equação todos os problemas sociais de quem tem direito a ser um “grande mestre”, ao fim e ao cabo são todos pessoas, todos cometem erros e dizem coisas que mais tarde se demonstram estar erradas, mesmo dentro da sua área principal. Será que podemos confiar nestes “mestres”, nestes “peritos”?

 

I think the people in this country have had enough of experts with organisations from acronyms saying that they know what is best and getting it consistently wrong. - Michael Gove

 

Isto não é um bom sinal. Agora estamos a soar a brexiteers. Devemos ter cometido um erro nalgum lado.

 

A primeira questão aqui é a diferença entre celebrar e confiar. E a segunda questão é a diferença entre confiar cegamente e confiar mantendo um espírito crítico. Vamos começar pelo fim pegando num exemplo na história contemporânea, a crise da SIDA.

 

Quando se testa um novo medicamento o padrão de excelência é o que se chama um ensaio duplamente cego. Metade dos pacientes recebem o medicamento a ser testado, metade recebem um placebo. Contudo nem os médicos nem os pacientes podem saber quem é que tem o medicamento concreto para garantir que não existe nenhum enviesamento na análise.

 

Aquilo que aconteceu nalguns casos é que os pacientes não tiveram o consentimento apropriado e só a meio do teste é que descobriram que metade tinham um placebo. Então o que eles fizeram foi partilhar os medicamentos entre eles, o que invalida completamente os resultados científicos. Por um lado isto parece péssimo porque invalidou o estudo, por outro, eles estavam a morrer. Parafraseando um desses pacientes: “Nós estamos a morrer, mesmo que seja um mero palpite eu quero tentar.”.

 

A solução no fim de contas foi envolver os pacientes no processo científico, fazer com que haja um consentimento mais informado e garantir certas providências. Isto é só um exemplo de como o “confiar nos peritos” pode ser ao mesmo tempo estritamente necessário e perigoso, e que há que buscar um equilíbrio entre desconsiderar por completo a sua experiência e confiar cegamente.

 

Então mas e glorificar os “grandes mestres”? Glorificar é certamente diferente de confiar, não há de haver nenhuma situação de vida ou morte porque glorificamos certas e determinadas pessoas (ou deixamos de o fazer). Mas isso esconde o problema.

 

Por um lado glorificar a pessoa errada pode criar certos problemas. Será que um aluno preto se sentiria confortável a entrar num colégio (cough Oriel College Oxford cough) com a estátua de um grande esclavagista (cough Cecil Rhodes cough) que só lá tem a estátua porque era rico e doou montes de dinheiro?

 

E podemos ir pela positiva. Representação adequada pode ajudar bastante com problemas de discriminação. O simples facto de existirem esses exemplos, essas pessoas que podemos admirar e seguir, pode ser uma grande ajuda para criarmos o nosso próprio sucesso, mesmo num ambiente hostil.

 

Como em tudo, há que buscar um equilíbrio.

 

Na ciência, prémios como o prémio Nobel estão cheios de problemas. Mas ainda assim continuam a ser um dia em que o mundo coletivamente diz: a ciência é fixe. E essa é uma mensagem importante a passar (especialmente nos dias de hoje). Por isso podemos manter essa mensagem crucial mas tentar reconhecer os problemas do passado e corrigi-los para o futuro.

 

Na literatura, podemos reconhecer que a perspectiva burguesa é limitada e que é necessário reconhecer essa parcialidade e fazer ouvir outras perspectivas. Mas não é por isso que devemos deixar de gostar de Eça de Queirós.

 

Na música, podemos reconhecer as origens nacionalistas do cânone principalmente alemão da música clássica. Podemos deixar de pensar em pop ou rock como estilos “inferiores” e “pouco cultos”. Celebrar todos os estilos enquanto verdadeira arte que são. Mas continuar a ouvir música clássica fora do seu pedestal mas ainda digna de nota.

 

E no cinema, reconhecer os problemas de assédio e discriminação de tantos os realizadores famosos. Resolver os problemas da indústria, ser intolerantes com ambientes hostis. Mas continuar a ver e falar sobre o Psycho porque aquele filme é incrível.

 

Como em tudo, há que buscar um equilíbrio. 

 

Para que no fim criemos um mundo para que as “grandes estreias” do presente se tornem em “grandes mestres” de um futuro que estejamos orgulhosos de celebrar.

AGOSTO (VIAGEM)

VIAGEM

19 DE AGOSTO 2020

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Há muito para explorar no conceito de viagem. O facto de poderem ser motivadas por trabalho, turismo, guerra, e tudo mais. Considerações éticas sobre alterações climáticas e a poluição do meio de transporte escolhido. Considerações éticas sobre a nossa influência no sítio onde chegamos. Os dias de hoje e a resposta de governos a uma crise migratória. Os dias de hoje e a facilidade com que viajamos para o outro lado do mundo.

 

Os dias de hoje… facilidade em viajar?

*suspiro*

Parece daquelas conversas em que se promete que não se vai falar sobre o assunto mas não conseguimos evitar e parece que a conversa vai sempre lá parar. Às vezes nem vale a pena tentar evitar, mais vale aceitar que eventualmente a conversa vai lá parar e seguir em frente.

 

Fala-se muitas vezes que atualmente vivemos numa era global. Que atualmente as pessoas podem ir para onde quiserem, podem falar com quem quiserem, que a cultura se está a homogeneizar, que o mundo está a ficar mais pequeno. Aliás, isso é um dos fatores apontados como causa de… disto.

Mas de certo ponto de vista, nós vivemos numa era global desde os descobrimentos. Desde essa altura que as pessoas fazem viagens para o outro lado do mundo, que existem impérios (tanto nacionais como económicos) verdadeiramente mundiais. Desde essa altura que não se pode verdadeiramente falar em histórias isoladas mas somente numa história mundial. Porque acontecimentos de um lado do mundo influenciam o mundo inteiro. Tudo bem que dantes eram precisos 6 meses para chegar à Índia e que agora só é preciso 1-2 dias e que isso é uma diferença importante, mas não significa que não fosse uma era global.

De outro ponto de vista, mesmo atualmente quando se fala que estamos a ficar com uma cultura mais semelhante e que podemos ir para todo o lado. Será que isto é mesmo todo o lado, ou que estamos a pensar naquilo que comumente se chama de mundo ocidental? Pelo mundo todo não existe acesso igual à internet, e não é como se não houvesse fronteiras e vistos que não são simples de arranjar, e não é como se não fosse ainda bastante caro viajar para assim tão longe. Para a maior parte das pessoas, o mundo continua a ser bastante grande. E como é que podemos falar de uma homogeneização de cultura quando se vê a reação que a Europa tem em relação a uma crise migratória? Será que esta era é assim tão global?

E ainda agora vemos esta justaposição dos dois conceitos, por um lado foi o globalismo e a facilidade de viagens que permitiu que houvesse… isto; por outro viu-se países a fecharem fronteiras e a agirem de forma individualista negando a tese globalista. E também não nos esqueçamos que mesmo antes desta era global havia pandemias, como a gripe de 1918 ou até mesmo peste negra que também originou na Ásia e eventualmente chegou à Europa.

 

A um nível mais pessoal também se vêm esta justaposição. Esta dança entre o local e o global. É um bocado estranho pensar em viver sempre no mesmo sítio, pensar em passar a vida inteira na mesma localidade, em não viajar e conhecer o mundo. Parece redutor, antiquado.

Mas o oposto também não parece “normal”. Abandonar os amigos, a família, as raízes? Parece estranho ter que “recomeçar” e criar novos laços num sítio estranho quando já temos tantos laços e tanta coisa boa no sítio de origem.

 

A tecnologia ajuda a reconciliar esta distância, permite manter um contacto regular mesmo à distância. Contudo, como todos nos apercebemos durante… Não é um verdadeiro substituto do contacto físico. Fazer uma vídeo-chamada não é o mesmo que estar lá.

 

Por isso tentamos ir a casa à mesma e com frequência. Essa facilidade advém do tal globalismo, mas esse mesmo globalismo também tem implicações morais. Será que não estou a poluir demasiado ao apanhar este avião, será que é mesmo assim tão essencial ir a casa? Será que não me estou a pôr a mim, ou à minha família ou aos meus amigos em risco?

 

E ao fim de algum tempo, será que estou mesmo a ir a Casa com “c” grande? Ao fim de algum tempo, criam-se amizades, criam-se raízes no outro sítio. Parece um insulto aos meus amigos dizer-lhes que não são o suficiente, que não são os meus verdadeiros amigos. Parece um insulto dizer que não pertenço lá, que não é a minha verdadeira casa. Mas se nada disso é verdade, se de facto esta é a minha nova casa, se estes são os meus novos amigos, de onde é que vem esta saudade?

 

E depois quando volto, nada está igual. Enquanto não lá estive, tudo mudou, ligeiramente a princípio, mas ao longo do tempo a diferença nota-se. Dos momentos que perdi, de quando não lá estive. Será que voltei mesmo? A minha saudade é mesmo do sítio ou dos tempos que lá passei?

 

Por outro lado há uma certa familiaridade, sim, as coisas mudam, já não é a mesma coisa. Mas há ali um fundo, há ali qualquer coisa que me deixa à vontade, que me faz sentir que de facto voltei. A casa? Sei lá se voltei a casa, mas sei que voltei.

 

E o mais estranho nem é isso. É estar em “casa” e ter saudades. Verdadeira saudade, daquela que se canta o fado. Igual à anterior. Mas do outro sítio.

 

Mau, então não tinha dito que havia essa familiaridade, que tinha voltado? Mas depois exatamente o mesmo acontece, volto ao outro sítio, e sinto que voltei. Outra vez. Tudo o mesmo, as coisas mudaram subtilmente mas há uma certa familiaridade, há esse sentimento de pertença. Precisamente no sítio onde tinha sentido que essa estranheza.

 

E isto só tornou tudo ainda mais confuso, quando nenhum sítio está “normal”. Quando já não existe o “normal”, e quando não sabemos se alguma vez vai voltar a existir o “normal”. Se não há “normal” em lado nenhum, como é que posso voltar ao que quer que seja?

Não sei, sinceramente não sei. Não sei se uma delas é a minha Casa e a outra é só um sítio onde também moro, ou se tenho duas Casas; ou se isto fez com que já não tivesse nenhuma, ou se me fez decidir qual é a “verdadeira”. Não sei, mas se alguma vez descobrir eu prometo que conto.

JULHO (TECNOLOGIA)

TECNOLOGIA

16 DE JULHO 2020

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Já por diversas vezes na nossa história recente, uma inovação tecnológica mudou por completo a forma como comunicamos e nos informamos. Desde o telégrafo, passando pela rádio e chegando ao telefone e à televisão. Cada vez mais as distâncias eram encurtadas e o mundo ficava mais próximo. Muito longe estão os tempos em que a melhor forma de passar mensagens era uma pessoa a cavalo ou um pombo com uma mensagem. Podíamos quase instantâneamente saber o que se passava do outro lado do mundo.

 

Mas nenhuma destas invenções alguma vez igualou a revolução que é a internet. Existem várias coisas que tornam a internet especial, e muitas delas são válidas mesmo antes de introduzir as sub-revoluções mais contemporâneas das redes sociais e dos smartphones. Mas hoje quero focar-me numa em particular: a internet funciona mais como um espaço do que um meio de comunicação.

 

Vamos dissecar o que eu quero dizer com isso. Por exemplo, a televisão, na sua essência, ocupa um lugar semelhante a um jornal ou um livro. Nós estamos onde quer que estejamos e com um determinado meio temos acesso a informação. A maior diferença é que uma televisão tem acesso a informação em direto. Mas fundamentalmente não existe um “sítio” onde nós vamos “à televisão”. Tanto que é essa a linguagem que usamos, “estou a ver televisão”, da mesma forma que dizemos “estou a ler o jornal”. É um mero canal de comunicação entre um programa e uma casa.

 

De forma semelhante, quando falamos ao telefone não vamos para nenhum sítio em específico. Simplesmente conversamos com quem queremos. Ou enviamos mensagens curtas (ou não). Mas é como quem conversa cara a cara ou quem envia uma carta. Não existe um espaço ou um estado que temos que ocupar para aceder a essa pessoa.

 

Mas quando falamos sobre a internet falamos sobre “estar online”, “vou àquele site buscar informação”. Ninguém diz “estou na RTP” quando está a ver aquele canal, mas dizer “estou no Facebook” não parece tão estapafúrdio. Nós imaginamos um lugar meio etéreo para onde enviamos informação e onde vamos buscar informação. Não imaginamos que usamos um computador para nos ligarmos diretamente àquela pessoa que escreveu aquele post, imaginamos que usamos um computador para nos ligar ao espaço etéreo da internet para onde outra pessoa enviou um texto.

E o facto de se comportar quase como um espaço não é um aspecto meramente filosófico. Este facto muda a forma como nós interagimos com a internet e a forma como nos comportamos nela. Neste espaço há uma abertura e uma estrutura diferente dos espaços na “vida real” que permite a criação de comunidades que seriam completamente impossíveis de outro modo. Ora vejamos porque é que isso acontece.

 

Em primeiro lugar, toda a gente tem acesso ao mesmo espaço, por isso toda a gente o pode alterar. Não é preciso ter grandes conhecimentos técnicos para conseguir produzir conteúdo na internet. O mesmo não se pode dizer dos outros meios de comunicação, que, devido à sua natureza, requerem estúdios profissionais com orçamentos consideráveis.

 

Por um lado, isto implica que existe uma diversidade e uma quantidade muito maior de conteúdo disponível para consumir. Ainda para mais, esse conteúdo é frequentemente gratuito, o que ajuda a sua disseminação. E isso também significa que podemos ter nichos de gosto muito mais específicos que nos meios de comunicação tradicionais. Como as barreiras de entrada na criação de conteúdo são muito mais baixas, a margem de audiência necessária para viabilizar essa criação também é muito mais baixa. Não significa que não existam estúdios de produção com orçamentos consideráveis na internet. Contudo, não são a única forma de prosseguir. A internet permite a existência de uma quantidade e uma diversidade inigualável por nenhum outro meio, para o bem e para o mal.

 

Aliada a esta democratização na criação de conteúdo, há também uma anonimidade inerente a este espaço. É possível (e fácil) ter uma identidade online diferente da identidade offline. Isso pode gerar problemas de honestidade e confiança, mas por outro lado mais uma vez democratiza o acesso à informação. É possível criar espaços dentro da internet onde existe igualdade real, porque, desde que se tenha o acesso, todos são iguais.

 

Mais uma vez, não estou a dizer que todos os espaços da internet são perfeitamente democráticos, isso não é de todo verdade. É bastante possível ter moderação e hierarquia de privilégios de alteração de conteúdo. Contudo, também é possível não ter, e com uma facilidade muito maior do que no mundo real.

 

E esta anonimidade, embora possa criar desonestidade, também pode fazer o preciso oposto. Permitir uma expressividade muito mais livre do que seria confortável no “mundo real”. Mais uma vez para o bem, mas também para o mal.

 

E isto leva-nos ao ponto final. Com uma facilidade de criação muito maior, uma anonimidade quase total, que remove a maioria das barreiras à entrada e permite uma diversidade e uma especificidade muito maior, a internet permite a criação de comunidades que nunca seriam possíveis sem este espaço. Podemos ter fórums, canais do YouTube, grupos no Facebook, subreddits, etc, etc. Todos estes espaços podem ter acesso mundial mas com interesses extremamente específicos. De tal forma específicos que num dado sítio nunca haveria pessoas suficientes para criarem comunidades. Mas juntando as pessoas do mundo inteiro isso já não é verdade.

 

E, como tudo no mundo, esta abertura pode ser usada para o bem e para o mal. Podemos ter pessoas unidas pela obsessão com obras de arte pouco convencionais (as ditas fandoms). Pessoas que encontram espaços seguros onde podem exprimir a sua verdadeira identidade sem as opressões da sociedade. Espaços onde podem encontrar apoio e compreensão, mesmo quando não existe ninguém na sua comunidade física que seja capaz disso mesmo. Mas também pode haver espaços desenhados para espalhar desinformação. Espaços onde essa anonimidade é usada para fins nefastos, evitando as consequências desses actos. Espaços onde a manipulação é comum e as intenções não são claras.

 

Tal como todos os espaços físicos, a internet não é boa ou má. Mas as pessoas que a ocupam são variadas, e os espaços que elas criam também. Celebremos o que há de bom e combatamos o que há de mau, tal como na “vida real”.

JUNHO (SONHOS)
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SONHOS

18 DE JUNHO 2020

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“Sonhos cor-de-rosa”. 

    “Estás a sonhar…”. 

        “Qual é o teu sonho?”. 

            “Nem em sonhos…”

                “O rapaz dos meus sonhos.”

                    “É importante nunca parar de sonhar…”

Dorme bem. Estás a ser irrealista. Qual é a tua maior ambição? Isso é impossível. O rapaz perfeito. É importante ter esperança. Usamos esta palavra de mil e uma formas, e com mil e um significados. No entanto, parece haver uma base comum de fantasia e idealismo. Um sonho é sempre irreal ou inatingível. Excepto os sonhos da minha avó, que como todos os anos pelo Natal. 

 

De forma literal, um sonho é um conjunto de ideias e imagens que “vemos” durante o sono (digo “vemos” porque podemos sempre discutir se “ver” requer informação visual do mundo exterior, mas vamos saltar essa questão). É, por definição, fruto da nossa imaginação e desprovido de realidade. Acho que esta questão não devíamos saltar… Será mesmo desprovido de realidade? O que é realmente...real? Se eu “vir”, “ouvir” e “sentir”, se o que sonhei me fizer pensar, agir, mudar, se acordar com o coração aos saltos, suor a escorrer pela testa e a respiração acelerada, não são estas consequências reais? É certo que falar da consequência não é o mesmo que falar da causa, mas pode uma consequência ser real cuja causa é, por definição, irreal? Como em grande parte destas questões, vai depender da nossa definição de realidade. Tudo se reduz a definições, a estas convenções que fazem parte do pacote de pertencer a uma sociedade. Se porventura encontrarmos uma inconsistência com esta ideia de “ser real”, revê-se a convenção, reformula-se a questão e retoma-se a discussão na estaca zero. 

 

Mas esta convenção é importante. É precisamente por ser naturalmente irreal, que um sonho é sempre uma fantasia: o rapaz dos nossos sonhos é o rapaz perfeito, o que esperamos encontrar um dia embora parte de nós acredite ser impossível; nem em sonhos vamos conhecer alguém tão perfeito, porque se não acontece num sonho, em que tudo é possível porque é uma fantasia, como poderíamos pensar em fazê-lo na vida real? Essa vida real que é sempre inferior ao imaginário. Todos temos ambições e desejos, a carreira que queremos para nós, a família que sempre imaginámos, as férias que nos fariam felizes… Mas é quando falamos de sonhos que chegamos ao cerne da questão: qual seria o pináculo da tua felicidade, o cúmulo das tuas ambições, o desejo que não sabes se poderás concretizar? É preciso dizer-te “segue os teus sonhos, não desistas, acredita”, porque é fácil descartar a possibilidade de se tornar real. Porquê utilizar um conceito irreal para falar do que nos faria realmente felizes, do que afecta realmente as nossas emoções, o nosso humor e as nossas acções? Talvez devêssemos alterar a convenção. 

 

Em termos literais, os sonhos aparecem na cultura e na ciência inúmeras vezes: desde a perspectiva de Freud (que sendo Freud, tinha o superego também como ditador dos sonhos), em que os sonhos escondem simbolicamente as respostas mais importantes para o nossos desenvolvimento e bem-estar, a Jung que atribuiu aos sonhos o poder de equilibrar as nossas vidas desequilibradas, revelando as atitudes e mudanças de que a nossa realidade precisa a cada momento, sem esquecer a religião que é adepta de passar as mensagens mais importantes através dos sonhos. Em todas, os sonhos têm significado. Em todas, a realidade aparente deste fruto da imaginação força uma interpretação capaz de incluir algo de real, algo importante, algo frequentemente crucial. 

 

Contudo, a ideia de que sonhar é pensar sem filtros, de uma forma livre e desprovida de censura, sem todas as barreiras que impomos por medo ou por vergonha ou por hábito adquirido, é talvez aquilo em nos devíamos focar. Esta liberdade pode até resultar em descobertas científicas (como Descartes, Mendeleieve ou Thomas Edison) ou despoletar uma nova onda de criatividade. Acima de tudo, parece mostrar-nos da forma mais sincera e directa qual a realidade em que gostaríamos de viver. É claro que por vezes esta realidade é mesmo fantasiosa, com dragões, heróis, vilões e magia, mas nem por isso é necessariamente inútil. A vida real pode não ter dragões, mas tem medos, pode não ter heróis de capa e espada, mas tem pessoas que nos podem salvar, pode não ter vilões com planos maquiavélicos, mas tem pessoas que, intencionalmente ou não, magoam, prejudicam e menosprezam, e pode não ter a magia de feitiços e poções, mas tem um outro tipo de magia, mais súbtil e igualmente poderoso. Ou talvez tenhas voado num sonho. Ou ido à Lua. Ou conhecido extraterrestres. Ou sido feliz. Talvez tenhas aprendido a ser feliz. 

 

Não percebo porque são “sonhos cor-de-rosa”, porque eu nem gosto de cor-de-rosa. Mas também não gosto quando são “sonhos-azuis”, porque é “rapaz e cor-de-rosa é para meninas”, porque não é verdade. Cor-de-rosa é para quem gostar de cor-de-rosa. E eu espero que os meus sonhos tenham todas as cores do arco-íris porque não sou fã de imagens monocromáticas. E não percebo porque é que o rapaz dos nossos sonhos é inatingível, porque o atingimos pelo menos nos nossos sonhos e isso faz-nos felizes, mesmo que acordemos com alguma desilusão. Não me parece justo ter inveja do nosso eu que dorme. E não percebo porque é que o meu maior desejo ou ambição é um sonho, porque não é o meu eu que dorme que luta por eles. Sou eu que vou garantir que estes “sonhos” são reais o suficiente para não ter de mudar as convenções, porque mudar as convenções é chato. E é, de facto, importante não parar de sonhar, porque isso é aceitar uma realidade imutável e eu não acredito em realidades imutáveis. Não percebo as pessoas que acham que ser sonhador é mau. Não percebo bem a diferença entre um sonho e uma filhós. E não percebo porque é que não os comemos mais vezes, mas percebo o que têm de tão ideal: são os sonhos da minha avó. 

MAIO (TEMPO)

TEMPO

19 DE MAIO 2020

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Como quem rouba o que já tem

Dizem-nos que é escasso, que não o detemos, que só é certo que se acaba para cada um de nós e, má sorte a nossa, que nem sabemos quando, tal a sua imprevisibilidade. Contam-no por nós e aceitamos, numa verdade universal, que existe 24/7. Vivemos com isso como dado adquirido, sem necessidade sequer de habituação, felizmente, porque a rotina e certezas nos fazem falta. Mas raramente questionamos. Se em alturas dizemos não ter head space, em tantas outras não temos head time. Cruzem-se ou não as duas variáveis numa relatividade que não me atrevo a explorar. Mas aí, nesse head time e na sua ausência, num sentido de quase obrigação, com um esforço e contorção lá se encontra para o que é “realmente importante”, no entanto também “nunca é tarde demais”. Confuso, ou benévolo talvez. 

A subjetividade dentro da objetividade do tempo consegue ser realmente desordenada, só e apenas porque nós próprios nos esquecemos de a utilizar. Sucumbimos facilmente ao esperado e planeado, e temos uma dificuldade imensa em perceber que podemos, nem que de forma menos arbitrária – para quem não gosta de muitos riscos – dar-lhe a volta e pisar a corda bamba do prazo. A adrenalina de trabalhar sobre pressão conta-nos esta estória melhor que ninguém. E a pandemia agora também. 

Basta que nos pintem um cenário diferente do habitual para acreditarmos que vamos dar a volta ao tempo melhor do que ele sempre nos deu a nós. Fazemos planos quase vaidosos, e somos ternurentos na gestão idealizada. A verdade é que a maior parte das vezes não se cumprem, mas era possível. E só sabemos no fim de não o cumprir, que o era. Não é “falta de tempo”, tal como quando nos apresentam uma deadline impossível que se mostra, afinal, praticável. É falta de flexibilidade e coragem para largar parte da rotina, quase em medo de a perder. É, também muitas vezes, receio do compromisso e de o falhar, de deixar alguma coisa em hold, quando em tamanha parte do tempo, esse tempo depende apenas de nós. 

Depois, a companhia no, e do, nosso próprio tempo, as encruzilhadas com os relógios dos outros – que, supostamente rodam os ponteiros em sincronização com os nossos, apesar de em tantas ocasiões não parecer – e a vivência que se quer tantas vezes díspar e outras em uníssono, trazem-nos novamente esta abordagem dúbia entre a crença própria e a dos semelhantes. O nosso primeiro compasso de tempo vivido é sempre em consórcio com os pais, ou a mãe, profissionais de saúde, doulas… são tantas as hipóteses quantas as teorias onde podemos divagar; e a sociabilidade que precisamos –  que quero – muito pouco deixam a decisão de aproveitar o tempo, pendente apenas num par de mãos. Algo que Chico Buarque na voz de poeta nos conta tão bem: 

“Vou

Uma vez mais

Correr atrás

De todo o meu tempo perdido

Quem sabe, está guardado

Num relógio escondido por quem

Nem avalia o tempo que tem”

 

Quando penso no tempo, coisa que me ocupa mais horas do que gostaria, lembro-me sempre do seu curioso papel na memória. A magia que detém sobre a capacidade de seleção, processamento e lembrança, trabalhando o arquivo das memórias com pós de afloramento e arrumando cada cena no espaço que mais nos convém. Mesmo nas recordações piores que, dizem, guardamos com mais detalhe e intensidade, sente-se um instinto de proteção e evitação de novo erro num tempo vindouro. A capacidade das memórias de nos moldarem socialmente, e o trabalho do tempo sobre as próprias recordações, sobre a identidade e capacidade de resposta não são dissociáveis. Esse tempo que não congela mas prospera em nós, não entra na contagem das 24h diárias, mas está presente e tem influência na própria vivência da situação, da época, do tempo. 

Depois, há a passagem do tempo que, discutindo o curto, médio ou longo prazo, será sempre relativa, tanto como estas medidas. O tempo vivido em euforia não é igual ao tempo vivido em situações de índole negativa. Afirmo-o com a mesma certeza com que digo que a segunda-feira demora mais a passar, ou que janeiro é o mês mais comprido do ano. Com a mesma condicionalidade e quase vulgarizando um mito. 

Temos o tempo ao dispor e trabalhamo-lo como achamos melhor, como nos indicam ser certo ou como fomos habituados. Pedimos “um tempinho” às pessoas, desculpamo-nos por o “tirar” e esquecemo-nos que tantas vezes, somos nós a roubar do nosso próprio bolso, acabando por procurá-lo nas algibeiras dos outros. Como quem rouba o que, de certo, já tem. 

CONVIDADA

MARIANA CARMO

ABRIL (REVOLUÇÃO)

REVOLUÇÃO

19 DE ABRIL 2020

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História é complicada. Com a multiplicidade de fatores, complexidade de interações e falta de informação disponível, é quase um milagre conseguir analisar e compreender qualquer acontecimento histórico. Mas se há algum tipo de acontecimento que leva a taça em confundir toda a gente, quer historiadores, quer os próprios participantes, terá de ser uma revolução. 

 

Vamos então proceder com calma e analisar as motivações e ações dos participantes típicos de uma revolução e de como aparecem nalguns exemplos específicos. Nunca poderemos ser exaustivos, e seremos com certeza reducionistas, mas, se tudo correr bem, teremos deslindado alguns dos mistérios das revoluções.

 

Imaginemos que vivemos num regime ditatorial, e vemos as falhas no sistema e queremos mudança. Queremos uma vida melhor e isso não vai acontecer dentro do sistema, temos que tomar armas, unir o povo, derrubar o regime. Como é que ninguém se lembrou de fazer isto antes? A resposta é: muito provavelmente já se lembraram e já falharam.

 

Nenhum regime é derrubado no seu auge. Se temos um exército do lado do regime e um povo escravizado, iletrado, sem liberdade de comunicação ou associação, a morrer à fome; esse povo não vai derrotar o exército. Não é quando a situação está mesmo muito má para o povo que o regime é derrubado. Das duas uma: ou algum fator externo faz com que o regime perca poder, ou então a vida do povo melhora o suficiente para conseguir ganhar mais poder.

 

Por exemplo, se olharmos para a história da independência da Irlanda parece um bocado estranho que tenha demorado tanto tempo. Como é que é possível que só tenha acontecido no século XX, quando nos séculos anteriores houve tanta opressão do lado britânico? Porque é que os irlandeses não se revoltaram durante a Grande Fome, por exemplo? A verdade é que bem que tentaram, uma pesquisa rápida revela o grande número de revoluções falhadas. Não é um povo a morrer à fome que derrota o maior império da história. Não é coincidência que a independência venha depois da 1ª Guerra Mundial, quando o Império Britânico começou a perder poder.

 

E por outro lado temos o caso russo. Quando havia servidão e o povo não tinha liberdade de movimentação nem tinha literacia, não houve revoluções. Foi preciso abolir a servidão, criar universidades, dar mais condições de vida para fomentos revolucionários começarem a ganhar tração. E mesmo assim, foi preciso a derrota na guerra russo-japonesa e toda a convolução da 1ª Guerra Mundial para que houvesse uma revolta bem sucedida (na realidade foram 3 revoluções e uma guerra civil, mas prossigamos).

 

E este exemplo da Rússia mostra outro fator importante: porque é que os ditadores são tão horríveis? Porque é que eles não vêem a razão como nós e oprimem o seu povo? A verdade é um pouco mais complexa do que parece à primeira vista. Por exemplo, o czar Alexandre II, que foi o responsável por abolir a servidão e por outras medidas de desenvolvimento económico foi assassinado por revolucionários. Parece contraditório, este czar até foi mais “simpático” que o costume e é assassinado? Precisamente ao ser mais simpático e ajudar o povo, estar a melhorar os níveis de literacia, e facilitar a comunicação entre pessoas está a tornar uma revolta/assassinato mais fácil. Num regime totalitário, ajudar o povo pode ser ativamente prejudicial para o ditador. Confrontado com esta realidade, não é de espantar que um ditador seja mais agressivo e autoritário para manter o seu poder e sobrevivência.

 

Este argumento, a meu ver, é extremamente importante. Não é que um sistema eleitoral de uma democracia seja necessariamente inerentemente melhor a escolher um bom governante do que uma ditadura seria. Mas num regime democrático os interesses dos governantes alinham-se com uma grande proporção da sociedade. Não só devido ao sistema eleitoral, esses podem ser sempre destruídos por um exército maior, mas também devido à economia. Se a economia de um país vem da produtividade dos cidadãos, ter boas universidades e sistemas de saúde e qualidade de vida ativamente beneficia os governantes. Não só irão ter mais pessoas a votar neles como terão mais recursos que podem canalizar para manterem o seu poder. 

 

Por outro lado, se a riqueza de um estado vem de extração de recursos simples, que não necessite de grande educação ou bem-estar de cidadãos para ser eficiente, os governantes não necessitam de tornar os cidadãos felizes para se manterem no poder. Esta é a triste realidade da maioria das ditaduras, a razão de ser péssimo para viver nestes sítios é que ajudar o povo tornando a sua vida melhor é ativamente prejudicial para o(s) governante(s), tal como se viu com Alexandre II, a situação mais estável é ter o povo a sofrer.

 

Então, vendo isto tudo, ainda ficamos mais convencidos de que é preciso ação destrutiva, que o problema é sistémico e é necessário derrubar o regime pela força. Imaginemos que somos bem sucedidos, que fomos capazes de convencer o exército ou outra fonte do poder a tomar o nosso lado, ou que aproveitámos um fator externo. E agora, o que fazer? Há aqui duas questões muito problemáticas.

 

A primeira questão é a que se levantou antes da economia. Se a conclusão é que a fonte da diferença democracia/ditadura não é só política mas também económica, uma revolução não vai alterar isso. Derrubamos o regime e depois? Continua a ser verdade que escravos a morrer à fome podem extrair recursos. Se os fatores económicos não se alterarem continua a ser mais estável uma ditadura do que uma democracia. A Rússia é um belo exemplo, o czar Alexandre II foi assassinado mas nada mudou. Houve três revoluções e uma guerra civil e qual foi o resultado no fim? Uma ditadura igual ou até mesmo pior que a anterior sob o jugo de Estaline. Muitas vezes até mesmo revoluções bem sucedidas acabam exatamente onde começaram, só que pintado de uma cor diferente.

 

Tudo bem, então há que garantir que a mudança é profunda, que não resta nada do regime antigo, que mudamos a economia para garantir que uma democracia é estável. Mas será que então a única solução é matar todos aqueles que atuaram com o regime? Mas depois temos vários problemas. Primeiro que tudo, nem toda essa gente é necessariamente completamente culpada, podem ter agido sob coação ou podem não ter tido os recursos para criarem uma revolução e por isso decidiram fazer o melhor que podiam dentro do sistema, mesmo discordando. É incrivelmente difícil distinguir os verdadeiramente culpados, dos cúmplices, das vítimas. Antes de Hitler cair toda a gente era nazi, depois da sua derrota ninguém era.

 

Para além disso, mesmo que conseguíssemos distinguir quem era e não era culpado. Se durante anos e décadas temos um país que é gerido por essas pessoas, toda a gente que tem a mínima noção de como se gere um país fazia parte da máquina que ativa ou passivamente ajudou o regime. Eles podiam ser maus, mas ao menos sabiam qualquer coisinha sobre o assunto. Agora nós, não sabemos nada. Como é que alguma vez poderemos fazer um melhor trabalho?

 

Todos os revolucionários se confrontam com estas questões, na maior parte dos casos atinge-se um intermédio em que se mata/prende/exila os piores mas mantém-se alguns burocratas do regime antigo. Há muito poucos casos em que simplesmente se dá cabo deles todos, mas isso tem outras consequências. Por exemplo, Robespierre durante o Terror fez praticamente isso com a aristocracia do Antigo Regime. Mas houve muitos problemas com isso mesmo e, no fim, a França voltou a um estado ditatorial para controlar a situação.

 

Depois de ouvir isto podemos estar desanimados, há muitos fatores para além de bons e maus da fita. Há problemas sistémicos e económicos que favorecem ditaduras, e tentar mudar esses fatores pode criar ainda mais problemas, incluindo voltar tudo à estaca zero. Ser revolucionário não é fácil, ser um revolucionário bem sucedido é ainda mais difícil, e ser um revolucionário que se mantém fiel aos seus valores é praticamente impossível. 

 

Eu digo praticamente, porque há contra-exemplos, como Portugal. Um golpe militar motivado por uma guerra sem sentido, que derruba um regime com quase meio século quase sem derramar sangue. E depois desse golpe há um ano de conturbações e tentativas de contra-revolução mas evita-se a guerra civil e tem-se eleições livres. Mais provável é ganhar o euromilhões.

ESPECIAL ABRIL

1 de Abril de 2020

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Os filósofos são por muitas vezes acusados de discutir coisas completamente inúteis. De nunca se preocuparem com o aqui e agora e ficarem perdidos nos seus pensamentos e reflexões sem tratarem das preocupações mais básicas. Para contrastar com este estereótipo hoje vamos discutir algo extremamente pragmático: o sexo dos anjos.

 

Primeiro que tudo, o que é um anjo? Existem muitas representações de anjos, a mais comum é um ser vagamente humano com asas brancas. Mas existem muitas outras, na Divina Comédia, por exemplo, as descrições de anjos são mais próximas a monstros que nada têm a ver com a figura humana, alguns têm várias cabeças e outros são só círculos de luz. E não sei quanto a vocês, pelo menos eu não consigo encontrar genitais num círculo de luz. Por isso para estes monstros diria que a questão não está bem definida.

 

Então e a figura normal de um anjo? Nesse caso são basicamente um ser humano com asas. As representações de artistas são sempre extremamente ambíguas por isso é muito difícil de dizer. Muitas vezes são crianças por isso não há outras pistas mais óbvias. Quando são representados como adultos ainda nos podemos basear na presença ou ausência de seios para determinar o seu sexo, contudo, não é conclusivo, seria como dizer que um senhor muito gordo é mulher só porque tem seios. Clara contradição. Já para não falar de certos e determinados procedimentos cirúrgicos que podem nulificar a correlação entre seios e genitais.

Isto naturalmente leva-nos a uma outra questão clássica da filosofia: quantos anjos é que cabem na cabeça de um alfinete? Aqui a questão é mais clara, depende do tamanho de um alfinete e depende do tipo de anjo. Se forem só círculos de luz não há de ser muito difícil encaixar muitos anjos, possivelmente um número infinito, na cabeça de um alfinete. Agora se forem monstros ou anjos normais é mais complicado se for um alfinete que se usa para coser as calças. Contudo, se for um alfinete muito grande, sei lá, para coser umas calças mesmo grandes (quiçá as do senhor de há pouco) então ainda somos capazes de empoleirar uns quantos anjos.

No fim desta reflexão, não conseguimos concluir qual é o sexo dos anjos. A melhor resposta que se pode dar é depende. Contudo, podemos consolar-nos com as célebres palavras de José Diogo Quintela, proferidas nos idos tempos de 2003, durante o sketch humorístico intitulado “Os 3 Gays Magos” no programa Perfeito Anormal: “Os anjos podem não ter sexo, mas há uns que têm uma boquinha de prata”.

MARÇO (CAOS)

CAOS

19 DE MARÇO 2020

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Se leram os meus últimos textos provavelmente já se aperceberam que eu tenho uma concepção de filosofia ligeiramente diferente daquela que ensinam na escola. Por muito importante que sejam os textos antigos e as reflexões de tempos passados, eu dou muito mais valor à introspeção, à nossa reflexão individual e a argumentações e conversas com os que nos são próximos. Para mim, filosofia não é sobre grandes teorias e ideias, é sobre pensamento crítico, sobre amor pelo conhecimento como indica o próprio nome: “filo” (amor) + “sofia” (conhecimento). Por isso mesmo, este texto vai ser um pouco diferente, um pouco mais pessoal, mais introspectivo, porque vamos ser honestos, só há uma coisa nas nossas mentes nestes últimos tempos.

Pandemia. Muitas vezes usamos esta palavra não pelo seu significado técnico (epidemia que se espalhou de forma generalizada) mas simplesmente como um sinónimo de “caos”. E vendo a situação atual, não nos espanta muito que tenha tomado esse segundo significado. Escolas e universidades fechadas. Prateleiras de supermercado vazias. Ruas de Dublin vazias no dia de St Patrick. Portugal a declarar Estado de Emergência pela primeira vez na democracia. E para não falar das muitas histórias que todos nós ouvimos de Itália que não vale a pena repetir novamente. Caos parece de facto a palavra correta para descrever o estado a que chegámos.

E, para além deste Caos externo e objetivo que todos podemos ver, a que podemos tirar fotos e vídeos que irão para os anais da história, e que todos iremos com certeza ver várias vezes no próximo ano novo quando fizerem a revisão do ano, há outro tipo de caos, de um tipo mais insidioso, o caos em que estão as nossas mentes.

Parece que tudo aconteceu tão rápido! Há uns meses era simplesmente algo distante do outro lado do mundo, preocupante sim, mas da mesma forma que a pobreza em África é preocupante, não gostamos mas não vamos alterar os nossos planos por causa disso. Há umas semanas atrás chegou a Itália e lentamente começou a parecer mais real. “É pá, afinal isto ainda chega cá.” E de repente começou a haver casos no nosso país, e de repente começou a haver muitos casos no nosso país, e de repente há casos na nossa cidade, e, para muita gente, há casos entre os nossos amigos e conhecidos.

Os seres humanos são maus a compreender crescimento exponencial. Nós podemos dizer isto as vezes que quisermos, podemos ver os números e as fórmulas as vezes que quisermos, podemos até ser físicos e matemáticos e compreender verdadeiramente a matemática por detrás da coisa. Mas porra, não deixa de ser difícil ganhar essa compreensão irracional, não deixa de ser difícil não nos deixarmos afetar quando as coisas chegam perto de nós. Quando o perigo passar a ser mais “real”, embora tenha sempre sido um perigo real.

Parece que de um dia para o outro passamos de uma vida normal cheia de planos e esperanças, viagens de férias e/ou trabalho. Grandes oportunidades e felicidade. E de repente estamos fechados em casa temendo por nós e pelos nossos. Lavando as mãos freneticamente a tentar lutar contra um inimigo invisível. E vendo governos do mundo inteiro a confirmarem os nossos medos e a dizerem: “Tens razão para temer”.

Sim, não é com muito orgulho que digo que entrei em pânico. Estando no grupo de risco e tendo demasiados familiares e amigos no grupo de risco, entrei em pânico. Não é com orgulho que confesso, mas também não é com vergonha. Porra, não sou um robot.

Mas isso não significa que ache que devamos entrar em pânico. Que devamos esgotar os suprimentos de papel higiénico do supermercado mais próximo. Pânico nunca é a solução quando somos confrontados com Caos, seja qual for a forma que este tomar. Se bem que, é fácil falar mas não tão fácil controlar as nossas emoções.

Eu não vou dizer-vos o que fazer. Todos nós sabemos, já nos foi dito milhentas vezes para lavar as mãos, e não sair de casa, e etc, e etc, e etc. Todas estas recomendações são extremamente importantes, e sim, todos nós temos que as seguir. Mas não nos ajudam a lidar com o pânico e com o caos que parece que a nossa vida se tornou. Como é que podemos continuar, como é que podemos viver com isto? Isto não é uma coisa de uns dias ou de umas semanas que podemos simplesmente “esperar que passe”, isto vai durar meses, e mesmo depois da pandemia passar, as consequências na nossa economia, na nossa sociedade, nas nossas vidas vão perdurar muito mais. Como é que podemos lidar com isto?

Mesmo na face disto tudo, temos uma sorte, se há uma coisa em que seres humanos são bons é a arranjar ordem no meio do caos. No meio de qualquer situação que aconteça, desde epidemias ainda mais mortais que esta, a guerras e revoluções. As pessoas arranjam sempre forma de continuar, de viver. A vida muda muito sim, mas no fim, há uma nova normalidade, há uma nova rotina e um novo quotidiano. Por muito caos que haja, de alguma forma, consegue-se sempre recuperar um quotidiano. Há muitas histórias deste tipo, especialmente em sítios que estiveram em guerra durante tempos prolongados: de pessoas a casarem no meio de escombros, ou apanharem transportes para evitar tiroteios mas ainda a irem ao trabalho. Nós só temos que fazer o mesmo agora que é a nossa vez e com, francamente, algo muito mais fácil de lidar do que uma guerra.

E é isso mesmo que precisamos de fazer para recuperar a nossa ordem no meio deste caos. Recuperar uma rotina, uma vida diária em que lavamos as mãos milhentas vezes e só saímos para o essencial. Uma nova rotina em que falamos com os nossos amigos através do telefone ou vídeo-chamada em vez de fazer uma jantarada. Podemos à mesma comunicar com quem é importante para nós. Aliás, até podemos tirar esta oportunidade para comunicar ainda mais, falar com as pessoas com quem não falamos há tanto tempo. Perguntar como estão. Nesta época em que vivemos rodeados de tecnologia é ainda mais fácil fazer isso. Para problemas do séc XXI vamos usar soluções do séc XXI.

Combatamos o vírus com ciência. Combatamos o nosso desespero com vídeo-chamadas de amigos e séries nos nossos computadores. Apoiemos quem precisa desse apoio, quer diretamente com uma chamada quer indiretamente com uma salva de palmas às dez da noite. Usemos a Internet no seu melhor, para fomentar união e esperança em vez de pânico e ignorância. Aproveitemos este tempo para nos melhorarmos enquanto pessoas, para lermos aquele livro que sempre quisemos ler, quiçá para escrevermos aquele livro que sempre quisemos escrever. Tiremos um tempo para nós e para os outros. Não deixemos que o distanciamento social nos torne distantes, mas sim usemos as nossas ferramentas modernas para fazer o preciso oposto, para ficarmos mais conectados, só que à distância.

E, no meio disto tudo, podemos começar a ver coisas positivas e podemos continuar a viver a nossa vida, durante e para lá deste período tão negro; e voltar a ganhar os planos e ambições que nos pareceram ser retiradas debaixo dos nossos pés tão subitamente.

Fiquem em casa meus amigos, fiquem seguros e partilhem nos comentários o que é que têm feito para recuperar a vossa rotina.
 

FEVEREIRO (AMOR)

AMOR

20 DE FEVEREIRO 2020

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O que é o amor? A única coisa certa acerca desta questão é que toda a gente discorda sobre a sua resposta. No entanto, todos parecemos ter uma certa ideia sobre o que é que significa. Então, se toda a gente sabe o que é o amor, porque será tão difícil concordar sobre o que é?

 

Vamos simplificar um pouco. Consideremos algo óbvio, algo estúpido, algo em que toda a gente certamente concorda: a cor azul. Exceptuando daltónicos, toda a gente vai concordar que o céu é azul, que o mar é azul, que mirtilos são azuis. Nós compreendemos a ciência por detrás da cor azul, que na sua essência é meramente uma onda eletromagnética com uma determinada frequência (620-680 THz). Sabemos como é que essa onda, a luz, é emitida ou refletida em materiais, sabemos como é que a luz entra no nosso olho, interage com a retina e é convertida em sinais elétricos que são interpretados pelo nosso cérebro. Nós sabemos isto tudo com uma precisão avassaladora. Contudo, será que sabemos mesmo o que é a cor azul?

 

Imaginemos uma pessoa que tenha sido cega a vida toda. Nunca viu absolutamente nada nem nunca verá absolutamente nada. Será que, com todo este conhecimento, lhe seríamos capazes de explicar como é ver algo azul? Não parece lá muito provável pois não? Nós poderíamos ensinar tudo sobre a cor azul, que coisas é que são comumente azuis, toda a ciência, de tal forma que essa pessoa até soubesse prever se algo vai ser azul ou não, contudo, nunca seria a mesma coisa que experienciar a cor azul. 

 

Parece que há algo mais na essência desta experiência que de certa forma é incomunicável. Que depois da ciência toda, depois da descrição exaustiva da cor azul, no fim, somos forçados a apelar a “tu sabes do que é que estou a falar”. Mas será que sabes? Como é que eu sei que o meu azul é igual ao teu azul? Tanto quanto eu sei, se entrasse na tua cabeça e visse com os teus olhos chamaria de verde àquilo que tu chamas azul e chamaria azul àquilo que tu chamas de verde. É impossível fazer uma experiência que teste este facto, nunca iríamos discordar sobre o que é ou não é azul. Mas as nossas experiências poderiam ser completamente diferentes.

 

E não há nada de especial acerca da cor azul. Nos parágrafos acima poderíamos ter usado qualquer cor. Aliás, poderíamos ter usado qualquer emoção. Nós concordamos (às vezes) que coisas são tristes, ou alegres, ou dolorosas mas será que a nossa sensação é a mesma? Parece que por muito que tentemos há uma parte da nossa experiência enquanto ser vivo que é única, pessoal e intransmissível. Que o máximo que conseguimos fazer nestes casos é por analogia, é tentar encontrar uma situação parecida na experiência da outra pessoa e dizer “é tipo isso”.

 

Se isto não parece bizarro, deveria parecer. Nós estamos a dizer que por muita ciência que se faça, por muitas experiências, teorias e confirmações, há uma componente da nossa experiência enquanto ser humano que é impossível de aceder com estes métodos. Que há algo para além da ciência. Mas há coisas em que podemos comparar e concordar, certo?

 

Como é que se pode saber? Toda a informação que podemos receber acerca do mundo exterior vem através dos nossos sentidos e depois é interpretada pelo nosso cérebro. Nós nunca interagimos realmente com o mundo exterior, nós interagimos com os nossos sentidos e são os sentidos que interagem com o mundo exterior. Certo? Como é que sabemos que eles de facto interagem com o mundo exterior? Nós não podemos ter a certeza absoluta que existe de facto um mundo exterior, apenas temos acesso ao mundo dado pelos nossos sentidos, àquilo que o filósofo Charles Sanders Peirce chamou de “phaneron”. Nunca temos acesso direto ao mundo exterior. De certa forma, todas as nossas experiências são pessoais e intransmissíveis.

 

De facto, existe uma corrente de pensamento que defende isto mesmo: o solipsismo. Existem várias versões alternativas dentro desta corrente de pensamento, mas, de forma geral, os solipsistas defendem que, dado que nós só podemos interagir com o nosso phaneron, não faz sentido falar de um mundo exterior. Se um mundo exterior existe ou não é completamente imaterial. A única coisa que importa é o indivíduo, tudo é interno à nossa mente.

 

A alternativa ao solipsismo é o realismo. A crença que o mundo de facto existe, que os nossos sentidos estão de facto a capturar uma versão da realidade. Que, embora nós só tenhamos acesso ao phaneron isto é um mero acaso, o mundo existe. Mas isto é uma crença, um pressuposto. Não é algo verificável ou confirmável. É impossível convencer um solipsista de que o mundo existe. Porque mesmo se formos realistas o mundo pode não existir.

 

Então e qual é o papel da ciência nesta história toda? A ciência baseia-se no método experimental, em formular hipóteses e testá-las, manter as hipóteses que concordam com a experiência e modificar as que discordam. Por isso a ciência só pode lidar com algo que seja reproduzível. Com aquilo que é externo à nossa experiência, com as coisas que toda a gente é forçada a concordar, independentemente de quando ou onde viverem. A ciência lida com a componente objetiva do nosso mundo.

 

Mas então se o mundo não existe, como é que podemos fazer ciência? Não podemos. Se defendermos até ao âmago a visão solipsista de que o mundo não existe então a ciência não faz sentido, porque está a tentar atingir algo que não existe. Nunca saberemos nada de objetivo sobre o mundo porque esse mundo não tem de existir. Deste ponto de vista, um cientista é necessariamente um realista. O realismo é um pressuposto não confirmável da ciência. Só depois de assumir que o mundo existe é que podemos discutir acerca da sua componente objetiva.

 

Então mas e se nós quisermos falar precisamente sobre a nossa experiência pessoal? Se nós não estivermos interessados na componente objetiva e externa do nosso mundo, mas na componente interna e pessoal? Nesse caso, nem a ciência nem a filosofia são capazes de responder. É impossível comunicar essa componente do mundo, quase por definição. Mesmo se assumirmos que o mundo existe. Estamos de facto confinados à confiança de que a experiência do outro é de alguma forma semelhante à nossa e que quando apontamos para o mar o azul que ele vê é o mesmo que o nosso azul. 

 

E com emoções nem essa confiança temos. Com cores ainda podemos apontar para o mar e dizer “isso é azul, não é?”, mas com emoções, cada pessoa reage à sua maneira. Algo que é assustador para uns é emocionante para outros. Há quem fuja a sete pés de alturas por causa das suas vertigens e há quem adore paraquedismo. Começa a ficar cada vez mais difícil comparar o que quer que seja, a ciência de pouco nos serve aqui porque é extremamente difícil reproduzir resultados entre pessoas diferentes. 

 

Aliás, até é extremamente difícil reproduzir resultados com a mesma pessoa. Nós crescemos e à medida que crescemos temos um entendimento diferente das nossas emoções. Quantos artistas não falarão do quão assustador foi a primeira vez que subiram ao palco, mas como esse medo e nervosismo foi sendo entendido ao longo do tempo como adrenalina e excitação. A emoção até pode ser a mesma, mas ao fim de algum tempo deixou de ser classificado como “mau” e passou a ser classificado como “fixe”. Ao longo do tempo, podemos ter reações completamente diferentes às mesmas emoções e aos mesmos estímulos. Emoções são complicadas por si só, e o nosso entendimento das mesmas ainda as complica mais.

 

E nesta escada de complexidade de componente objectiva do mundo, passando pela nossa forma de experienciar essa componente objectiva, e chegando às nossas emoções pessoais; ainda há um grau de complexidade maior: relações entre pessoas. Neste caso, não só estamos a lidar com todos os fatores referidos acima, como estamos a lidar diretamente connosco a tentar interpretar as emoções de outro. Já não nos basta ser difícil compreender as nossas próximas emoções, quanto mais compreender as emoções do outro, especialmente quando temos tão pouca informação para nos basearmos. Temos exatamente o mesmo tipo de informação que para factos objectivos mais o conhecimento de que (possivelmente) o outro tem uma vivência tão complexa quanto a nossa.

 

E de todo o tipo de relações que podemos falar, a rainha delas todas, é o amor nas suas várias formas. Todos os tipos de amor que podemos falar: entre amigos, de pais para filhos, entre um casal, etc, etc. Todos eles eternamente subtis. Qualquer caracterização que poderíamos tentar ficaria francamente aquém daquilo que é a realidade. Neste momento, há que admitir as limitações de um texto como este e dizer “mas tu sabes o que quero dizer”. Mas será que sabes? Eu não sei se sei.

JANEIRO (COMEÇOS)

COMEÇOS

9 DE FEVEREIRO 2020

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Quando é que um livro começa? É na primeira página, na capa? É quando o começamos a ler, ou quando o compramos, ou quando temos a ideia de o comprar? Será que é quando o autor acaba de escrever, ou quando ele tem a primeira ideia sobre a história. Quando é que uma história começa?


Isto parece um pouco idiota. Eu quero lá saber quando é que o livro começa, eu li o livro e pronto. Gostei ou não gostei. Não importa onde é que eu defini o começo do livro. Mas, como muita coisa em filosofia, o exemplo do livro é um mero avatar de problemas mais reais. Quando queremos relatar um evento histórico, por exemplo, decidir onde se começa é das decisões mais complicadas, temos que começar em algum lado, mas essa decisão pode enviesar por completo o resto do relato. Ou, noutro exemplo, já muitos países foram a referendo para decidir quando é que uma vida começa. Mesmo de forma indireta, há sempre consequências muito reais de discussões aparentemente abstratas. Vamos então, dar um desconto e prosseguir. Como é que decidimos quando é que começa uma história?


Uma forma que mete diretamente o dedo na ferida é definir o que é que queremos contar. Qual é o objetivo, porque é que estamos a contar esta história. Com essa compreensão conseguimos perceber o que é que é importante e o que é que é supérfluo. Voltemos ao exemplo histórico, pensemos na 2ª Guerra Mundial. Será que queremos falar do conflito armado só na Europa? Nesse caso 1939 com a invasão da Polónia parece uma boa data. Ou será que queremos falar do conflito armado no mundo inteiro? Talvez 1931 com a invasão da Manchúria por parte do Japão parece mais apropriada. Ou será que queremos falar do regime Nazi e dos seus efeitos? Nesse caso, 1919 com a criação do partido Nazi, ou 1933 com a nomeação de Hitler para o cargo de chanceler. Neste caso, definir sobre o que é que queremos falar define onde é que a história começa.


Contudo, isto tem problemas. Por vezes todo o nosso problema é que não sabemos muito bem sobre o que é que queremos falar e por isso é que estamos a ter dificuldade em definir um início. Outro método seria perceber quando é que a história claramente acabou e tentar identificar qual foi o fator exato que nos fez dizer “Ah, esta história acabou” e voltar para traz e perceber quando é que esse fator apareceu. Não é necessariamente mais simples que o anterior, mas perceber quando é que uma coisa acaba definitivamente muitas vezes ajuda a perceber quando é que de facto começou.


Tudo bem, temos algumas ferramentas para ligar o começo de uma história à sua essência. Mas agora vamos tentar aplicar isso a um caso mais concreto (e mais controverso): o começo de uma vida.


Primeiro que tudo há que deixar algumas coisas claras. Embora seja uma componente muito importante da discussão, definir o começo de uma vida não é o fim da história em relação à questão da legalização do aborto. Há muitos outros fatores contextuais, pragmáticos e clínicos que podem acrescentar subtilezas e eventualmente até modificar a opinião inicial. Por isso, neste texto apenas será discutido sobre a componente filosófica do começo de uma vida sem defender abertamente uma ou outra posição face ao aborto. Estão confortáveis com esse facto? Então vamos prosseguir.


Definir o começo de uma vida é um assunto extremamente subtil porque a nossa compreensão sobre o que é que é a vida ainda é extremamente limitada. Para além disso, existem muitos momentos em que se formam este e outro componente essenciais à existência de vida, de forma contínua, desde a conceção, passando pela gestação e até ao nascimento. Vamos usar as nossas ferramentas para perceber como é que diferentes noções de vida e de existência implicam inícios e fins em momentos diferentes.


Uma noção muito vaga de existência, é precisamente isso, a existência do conceito daquela pessoa em particular. E aí, parece que começa quando os pais têm a primeira ideia de ter um filho e que acaba quando a última pessoa se esquece da existência dessa pessoa. É uma noção interessante, e claramente aquela que leva a um intervalo temporal mais amplo, mas não é muito usada na prática.


Outra noção muito popular é baseada em religião/espiritualidade. Na crença que a vida contém algo de divino (seja qual for a sua natureza) e que então a questão torna-se uma questão teológica sobre quando essa componente (usualmente chamada de “alma”) aparece e desaparece. Uma noção comum neste ponto de vista é que vai desde a conceção à morte. Esta noção depende da crença nesta ou naquela corrente espiritual por isso vai depender da crença pessoal de cada um.


Finalmente existem as definições médicas de vida. Uma visão, agora considerada antiquada, é baseada no batimento cardíaco. A vida existe enquanto o coração bater. De facto, o batimento cardíaco é uma componente muito importante para a existência de vida. Contudo, por si só não está diretamente relacionada com a noção de vida. É mais um sintoma da existência de vida, um critério importante para medir se vida existe ou não, do que propriamente algo que capture a essência do que é estar vivo. Outras ideias baseadas na respiração, ou no funcionamento do organismo como um todo são muito semelhantes.


Mais recentemente existem ideias (ainda no domínio médico) baseadas na atividade cerebral. A ideia aqui sendo que, tendo em conta a nossa compreensão atual sobre o funcionamento do corpo humano, o cérebro é o órgão que contém a nossa “personalidade” por isso o funcionamento do cérebro parece estar diretamente ligado à nossa noção de “eu”. Por outro lado, esta noção de vida pode mais tarde vir a ser considerada obsoleta caso a nossa compreensão do que nos faz vivos se altere profundamente. Se isto é uma vantagem ou desvantagem é uma questão de opinião pessoal.


Como se vê, começando por uma pergunta tão aparentemente parva como “quando é que começa um livro” acabámos a tentar compreender o que é a vida. É isto que acontece frequentemente quando nos pomos a refletir. Mas filosofia não se faz de forma estática em livros e textos imutáveis. Filosofia faz-se discutindo e refletindo. Por isso, o que é que vocês acham, quando é que uma história começa, quando é que uma vida começa?

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