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LITERATURA

COMEÇOS

9 DE FEVEREIRO 2020

 

 

Começos. Ou o fim que deles emana.

O início. Ou, então,o início do fim. Era assim que a Joana pensava sempre que o tema do aborto surgia como tópico de discussão. Não que fosse contra. Não, nada disso. Achava-se progressista e moderna num certo sentido (e até um certo limite). Mas fazer um aborto? Ela própria? Não, isso não.

JANEIRO

COMEÇOS

9 DE FEVEREIRO 2020

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Começos. Ou o fim que deles emana.

O início. Ou, então, o início do fim. Era assim que a Joana pensava sempre que o tema do aborto surgia como tópico de discussão. Não que fosse contra. Não, nada disso. Achava-se progressista e moderna num certo sentido (e até um certo limite). Mas fazer um aborto? Ela própria? Não, isso não.

Sabia mais ou menos como a coisa funcionava. Ia ao hospital, davam-lhe uns comprimidos e depois aquilo saía em casa. A ideia do sangue torturava-a. O horror de saber que aquilo iria mergulhar pelo cano fora junto com tudo o resto. E as dores, as cólicas, como que para lhe lembrar do que estava a fazer. Como que se fosse o seu filho a gritar de raiva pela mãe o ter abandonado.

Quanto mais pensava nisso, mais convicta ficava de que nunca o faria, mas que contudo não julgava quem o fizesse. Se bem que… se bem que também não achava piada a quem o fizesse todos os meses. Isso também não. Vamos lá a ver, um pouco de decência. Afinal aquilo é uma criança. Sim, uma criança, um bebé, por mais que digam que não passa de um feto, duma coisa, d’aquilo.

Um dia, ao ler o The Dying Animal do Philip Roth, ficou chocada com a visão libertária do protagonista,  um americano para quem o valor da liberdade é a medida de todas as coisas. O filho desse homem engravida uma colega de escola e aí impõe-se a decisão sobre o eventual fim de um começo. Isto é, um aborto.

"In his last year of college he thought, correctly, that he might have impregnated one of his classmates. I [the father] assured him that if the girl actually turned out to be pregnant, he hadn’t to marry her. This wasn’t 1901. If she was determined to have the baby, as she was already insisting, then that was her choice, not his. Pro-choice I was, but that didn’t mean pro her choice to him. If, at twenty-one, she wanted the responsibility all on her own, that was a decision made by her for herself alone. I offered him money to pay for an abortion. (…) I said that if she didn’t come to her senses, she would have to live with the consequences."

No último ano da faculdade, engravidou uma colega sua. Eu [o pai] disse-lhe que não tinha de casar com ela por causa disso. Não estávamos em 1901. Se ela queria ter o bebé, tal como insistia em ter, então era uma escolha dela e não dele. Eu era pró-escolha, mas isso não significa pró-escolha por ele. Se aos vinte e um anos ela queria ter toda a responsabilidade, então isso era uma decisão dela e somente dela. Ofereci-lhe dinheiro para pagar um aborto. (…) Disse-lhe que se ela não acordasse para a vida, então teria de viver com as consequências.

Neste ponto a Joana não conseguia suportar mais este homem para quem o domínio da liberdade se sobrepunha fortemente ao domínio da responsabilidade. Para ela, a responsabilidade e o respeito mútuo sobrepunham-se à liberdade, seja em que circunstância fosse. Mas, ainda assim, em tudo o resto, dizia-se progressista. E moderna (num certo sentido e até um certo limite).

"I reminded him that nobody could make him do what he didn’t want to do. I said, «Living in a country like ours, whose key documents are all about emancipation, all directed a guaranteeing individual liberty, living in a free system that is basically indifferent to how you behave as long as the behaviour is lawful, the misery that comes your way is most likely to be self-generated. It would be another matter if you were living in Nazi-occupied Europe or in Communist-dominated Europe or in Mao Zedong’s China. There they manufacture the misery for you; you don’t have to take a single wrong step in order never to want to get up in the morning. But here, free of totalitarianism, a man like you has to provide himself his own misery». (…) Conceived in liberty – that’s just good American common sense. But he didn’t seem to hear me (…) and a couple of months later he married her."

Lembrei-o que ninguém o poderia obrigar a fazer o que ele não queria. Disse-lhe que “viver num país como o nosso, cujos documentos fundacionais se baseiam na emancipação e em garantir a liberdade individual, viver num sistema livre que é basicamente indiferente ao teu comprotamento desde que cumpras a lei, então a miséria que te aparece à frente é provavelmente devida a ti próprio. Seria completamente diferente se vivesses na Europa ocupada pelos Nazis, em regimes comunistas ou na China de Mao Zedong. Aí eles criam a miséria por ti; não tens de fazer nada de mal para mesmo assim não quereres levantar-te de manhã.. Mas aqui, livre de totalitarismos, um homem como tu tem de criar a sua própria miséria.” (…) Concebido em liberdade – puro senso comum americano. Mas ele não me ouvia (…) e uns meses depois casou-se com ela.

Sim, claro, Joana achava que o filho tinha tido a atitude correta ainda que a questão do aborto não fosse sequer comentada por ele. O que estava em causa era algo de muito mais supérfluo:

"I know all the objections that a pure and moral young man can give to claiming personal sovereignty. I know all the admirable labels to attach to not asserting one’s sovereignty. Well, [my son’s] difficulty is that he must be admirable whatever the cost. He lives in fear of a woman telling him he’s not. “Selfish” is the word that cripples him. You selfish bastard. He’s terrified of that judgment, so that’s the judgment that rule."

Sei de todas as objeções que um jovem puro e dotado de moral pode dar para reclamar a sua soberania. Sei de todas as coisas admiráveis que se podem atribuir a alguém para não afirmar a sua soberania. Bem, a dificuldade do meu filho é que ele tem de ser admirável a todo o custo. Ele vive aterrorizado com a possibilidade de alguma mulher lhe dizer que ele não o é. “Egoísta” é a palavra que o deixa destronado. Egoísta de merda. Ele vive aterrorizado com esse jugamento, e portanto vive de acordo com isso.

Mas, depois, também o sentido de responsabilidade aparente (e claramente superficial) manifestado pelo filho extravasava o próprio conceito de responsabilidade que a Joana conhecia: já depois de casado e com quatro filhos, o filho do narrador começa um namoro com outra rapariga.

"You should hear him about this girl. A chemist who also has a degree in art history. And plays the oboe. He won’t even call it adultery. His adultery is different from everyone else’s. It’s too commited an arrangement to be called adultery. [For him] adultery is the recruitment of the new wife. He went to meet her family. (…) He was telling me how he flew down with her to meet them. He tells me that at the outset, at the airport, her parents are cold and very skeptical, but by the time they all sit down together in the condo for dinner, they tell her that they love him. Love him like their own son."

Devias ouvi-lo a falar da rapariga. Uma química que também tem formação em história de arte. E toca oboé. Ele nem chama àquilo adultério. O seu adultério é diferente do de toda a gente. Há demasiado compromisso para ser chamado de adultério. Para ele, o adultério é o recrutamento da nova mulher. Ele foi conhecer a família dela. (…) Disse-me que fez uma viagem de avião com ela para os ir conhecer. De início, no aeroporto, os pais dela estavam um pouco frios e céticos, mas mais tarde, em casa deles ao jantar, disseram à filha que o adoravam. Adoravam-no como se fosse seu filho.

Era como que se a partir de qualquer evento inesperado (a gravidez, a paixão súbita por outra mulher), a partir de uma dada condição inicial aleatória (de um início, de um começo aleatório), o filho a evoluísse no tempo sempre com o mesmo aparente sentido de responsabilidade, sem distinção moral de o que quer que estivesse a fazer evoluir. E isso confundia a Joana para quem o correto e o incorreto eram conceitos bem distintos e claros. Ainda assim, no que tocava ao aborto não o poderia qualificar nem de certo nem de errado. Simplesmente ela não o faria, ponto.

 

Mas nao julgava as outras. Não, isso não. Até porque se achava progressista e, portanto, segundo as regras do progresso e até mesmo da modernidade (coisa que ela sempre insistia em dizer que era num certo sentido e até um certo limite), teria de aceitar as decisões das outras. Essas outras, dizia, que o faziam. Ah!, exclamava, essas... O começo, o início do progresso a ser marcado pela decadência. Um aborto.

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