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Steven Wilson

14 de Fevereiro de 2021

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António Coelho

A semana passada saiu o novo álbum de Steven Wilson, “The future bites”, com nove trechos que perfazem pouco mais de quarenta minutos (sem contar com os remixes e as versões instrumentais que vêm em dois discos separados na mesma box set).

Ainda antes de o ouvir já um amigo me tinha dito em tom de brincadeira que achava que ele parecia “um velho aziado com os tempos modernos”. Achei piada e lá fui ouvir o álbum.

Da primeira volta (que confesso foi feita em simultâneo com outras coisas) ficou-me o "Man of the People" na cabeça, e só alguns dias depois é que lhe dei mais atenção no comboio entre o Alentejo e Lisboa (então e o confinamento meu menino?). A sensação final foi de um grande alívio. Sim, de alívio, porque nestes últimos anos tenho andado com um medo enorme de nunca mais ouvir algo que se assemelhasse sequer ao Roger Waters. O homem tem 77 anos e provavelmente nunca mais lançará nenhum álbum – depois da bomba política que foi a sua última obra (oiça-se por exemplo “Déjà vu” ou “The last refugee”.)

Felizmente há Steven Wilson (SW) que possivelmente entre 2017 com “To the Bone” e este último álbum se tenha fartado de vez do Facebook e resolvido fazer uma coisa que eu considero mesmo à maneira de Roger Waters (RW). Ouvir os coros femininos em "Self" ou "Personal Shopper" cantarem, por exemplo, “Buy the shit you never knew you lacked / Buy the update to compete / Buy the things that make your life complete” transportaram-me imediatamente para “Amused to Death”.

Não digo isto com malícia nem desconsideração para com SW. Não se trata disso. Tanto RW como SW têm a sua própria musicalidade, que aliás está muito para lá do rock progressivo, o campo musical que muitos insitem em delimitá-los. SW, por exemplo, incorpora elementos de eletrónica que não se ouvem em RW, e, além disso, o primeiro tem um grande trunfo: os vídeos que acompanham alguns dos seus temas. Em Self, Steven Wilson, fazendo uso de “deep fakes”, é Trump, Biden, Scarlett Johansson, Mark Zuckerberg. E tudo isto enquanto canta "We are self / I only see myself now", descontruindo a noção de identidade à luz dos dias de hoje, noção essa que se confunde cada vez mais com o reflexo do que vemos nas nossas câmaras dos telemóveis. "SELF is about our new age of narcissism and self-obsession, one in which a human race that used to look out with curiosity at the world and the stars now spends much of its time gazing at a little screen to see themselves reflected back in the mirror of social media” (palavras do próprio). Só mesmo vendo (e ouvindo).

Não sendo mordaz como RW — aliás, SW disse que o álbum deveria ser em parte encarado com humor —, não há como escapar da crítica que o músico deixa bem patente ao consumismo desenfreado, ao abandono de valores e ideais que não vão mais além do que a importância dada ao Eu refletido nas selfies e ao número de seguidores numa qualquer rede social ("Follower").

Por tudo isto e, espero, pelo que ainda há de vir, obrigado Steven.

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